O mal esquecido

Série de reportagens do Correio revela a situação de abandono e invisibilidade de brasileiros que sofrem de Chagas, uma doença que atinge 3 milhões de pessoas

» Vinicius Sassine
Enviado especial

Fotos: Iano Andrade/CB/D.A Press

Sentença
Regino, ao lado da mulher, descobriu a doença há dois anos: “O médico disse que meu coração está bem estragado”

Posse (GO) — O Estado, para uma legião de doentes de Chagas nas comunidades rurais de Posse, cidade de 31,4 mil habitantes distante 320km de Brasília, se resume a dois “gringos”. Interessados no mapeamento genético das famílias e em respostas para a evolução da doença, os norte-americanos escolheram uma região antes completamente infestada por barbeiros e hoje habitada por herdeiros de um mal esquecido. A dupla do Texas aparece uma vez por semestre, há 10 anos. Não há, num local tão isolado no Centro-Oeste brasileiro, quem não conheça os “gringos”, como são chamados pelos moradores.

No banco de genes formado até agora, estão 2 mil nomes. São 2 mil pessoas que só souberam oficialmente ter a doença de Chagas em função da existência de um projeto financiado de forma integral pelo governo dos Estados Unidos. O Estado brasileiro se esqueceu desses doentes crônicos. Inexistem diagnósticos, exames, acompanhamento, tratamento médico. Saber, pelos “gringos”, da manifestação da doença é um irônico detalhe.

O exame positivo para Chagas não muda nada na vida desses brasileiros. Uma das dificuldades encontradas pelos pesquisadores norte-americanos, aliás, é o encolhimento do banco de genes. Quando os “gringos” retornam aos povoados de Posse, muitos moradores já morreram por complicações cardíacas ou por inchaços no esôfago e no intestino que se mostraram irremediáveis.

É o Brasil real, e não é apenas o Brasil do passado. A doença que leva o nome de um brasileiro, Carlos Chagas, conta a história recente do país — sob a perspectiva dos mais pobres — e continua a escrever o futuro. Pequenos povoados do nordeste goiano estão infestados por barbeiros, vetores da doença. É o mesmo cenário na zona rural e até mesmo em áreas periféricas de cidades do Oeste da Bahia. O Estado, mais uma vez, virou as costas. Nessas regiões, as pesquisas com os vetores — para saber o nível de infestação — e os simples atos de borrifação de veneno estão paralisados. Faltam carros para o transporte e agentes de saúde no Brasil rural.

Alto risco

A doença de Chagas não é democrática, pertence a um estrato social, está associada à pobreza. Há quase seis anos, em 2006, o Brasil recebeu da Organização Mundial de Saúde (OMS) um certificado pela virtual eliminação do principal vetor da doença, o barbeiro Triatoma infestans. Foi o resultado de 60 anos de uma ação sanitária contínua, iniciada poucas décadas depois da descoberta feita por Carlos Chagas, em 1909. A realidade, hoje, coloca em xeque a certificação da OMS.

Novos barbeiros assumiram o lugar do Triatoma infestans. O combate ao vetor estagnou-se exatamente nos municípios com alto risco de infestação. São 606 cidades — 11% do país — classificados pelo Ministério da Saúde como de alto risco para infestação de barbeiros. Outros 1,49 mil municípios (26,9%) têm um risco médio. A volta do Triatoma infestans, caso não sejam mantidos os mecanismos de controle, é admitida em notas técnicas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), vinculada ao ministério.

O Brasil não varreu a doença de Chagas do mapa, como virtualmente ocorreu com o principal vetor da infecção e como se faz crer pela inexistência de ações do poder público nas regiões mais atingidas. A herança de um país desigual, sem serviços básicos de saúde e sem a presença do Estado nas décadas passadas, são pelo menos 3 milhões de doentes crônicos. Estes são os que sabem ser portadores do mal de Chagas. Em alguns lugares, como na zona rural de Posse e de Santa Maria da Vitória, no oeste da Bahia, o diagnóstico só ocorre em razão de trabalhos isolados de pesquisa científica.

Para revelar a situação de abandono e invisibilidade desses doentes crônicos e os riscos que o país ainda corre diante do mal de Chagas, o Correio percorreu regiões endêmicas e sob ameaça de infestação de espécies de barbeiros. São lugares onde famílias e gerações inteiras, por décadas, sofrem com as consequências da doença de Chagas. O resultado é publicado numa série de reportagens nesta semana.