Pesquisas sem resultados imediatos

Estudos genéticos realizados no Brasil e nos Estados Unidos em doentes de Chagas devem beneficiar as próximas gerações dos pacientes

» Vinicius Sassine
Enviado especial

Fotos: Iano Andrade/CB/D.A Press

MISTÉRIO
Orica (E) e Sebastiana, com a foto da casa da fazenda onde nasceram: metade dos irmãos teve o mal de Chagas e a outra, não

Os pesquisadores norte-americanos Sarah Williams-Blangero e John L. Vandeberg repassam um recado claro aos doentes de Chagas de Posse (GO), na divisa com a Bahia, durante os dois encontros anuais da dupla estrangeira com os moradores. Depois de coletarem as amostras de sangue e fazerem o eletrocardiograma de cada um deles, os “gringos”, como são chamados em Posse, avisam que a pesquisa não irá beneficiar esta geração de doentes.

Os resultados serão futuros. Poderão ser úteis para os filhos das pessoas que hoje colaboram com o estudo genético de Sarah e John. “Nós explicamos a eles que os resultados do estudo provavelmente não beneficiarão as pessoas que participam do projeto. Esperamos que os resultados beneficiem as gerações futuras”, diz Sarah em entrevista por e-mail ao Correio.

Os testes feitos pela dupla de “gringos”, que conduz um mapeamento genético para descobrir por que apenas determinadas pessoas desenvolvem a doença de Chagas, englobam 2 mil moradores da zona rural de Posse. São os pesquisadores que fornecem os diagnósticos do mal de Chagas à população local, que permanece sem assistência médica e sem perspectiva de tratamento, um abandono comum no país, como o Correio mostrou em série de reportagens desde domingo. Os moradores de Posse continuarão sem respostas para a evolução da doença.

As pesquisas em curso ainda não desvenderam alguns dos principais mistérios envolvendo o mal de Chagas. Um deles é o que Sarah e John tentam responder com base no material genético de brasileiros desassistidos: por que somente algumas pessoas picadas por barbeiros e infectadas pelo protozoário Trypanosoma cruzi, causador da doença, desenvolvem cardiopatias e inchaços no esôfago e no intestino?

Financiamento

Os pesquisadores do Instituto Texas Biomedical, em San Antonio, estado do Texas, buscam características imunológicas diferenciadas nos moradores de Posse. As amostras de sangue são analisadas na unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Belo Horizonte. Todo o projeto, inclusive essas análises na Fiocruz, é custeado pelo governo norte-americano. “Não trabalhamos diretamente com o governo brasileiro. O apoio é indireto, por meio da Fiocruz”, diz Sarah. Todos os estudos envolvendo o material genético são realizados por Sarah e John no instituto em San Antonio.

“Ao avaliar os dados sobre as relações familiares e os marcadores da doença, é possível fazer análises genéticas que identifiquem genes determinantes do mal de Chagas”, afirma a pesquisadora ao Correio. “Até o momento, descobrimos fatores genéticos que parecem influenciar vários aspectos da progressão da doença. Mas este é apenas o primeiro passo.” A pesquisa se propõe a prever quais indivíduos têm maior propensão ao desenvolvimento do mal de Chagas.

As irmãs Orica, de 68 anos, e Sebastiana Umbelina de Oliveira, 60, passaram a vida convivendo com esse mistério. Dos 12 irmãos, nascidos numa fazenda na região de Trindade (GO) a 50km de Goiânia, seis desenvolveram a doença de Chagas. Dois morreram por complicações cardíacas.

“Os gringos falaram que viria um médico aqui. Mas não veio ninguém”, diz Ademilson. Há um ano, o agricultor sente dificuldades para engolir os alimentos. “O que como durante o dia coloco para fora à noite.” Os problemas no trato digestivo podem ser decorrentes do mal de Chagas. “Os gringos disseram que vão trazer os exames de volta.” Sarah e Jonhn devem voltar a Posse — eles são do Texas — somente em junho.

Orica sabe que tem Chagas e faz o acompanhamento da doença desde a década de 1980. Sebastiana não foi infectada pelo Trypanosoma cruzi. “A gente via barbeiro na cama. Na época se usava colchão de palha”, conta Orica. Ela tem uma explicação para o fato de metade dos irmãos ter desenvolvido a doença e metade ter escapado: “Os barbeiros chegavam pelas paredes. Quem dormia nas camas do meio escapava”.

As pesquisas científicas em curso tentam ainda novos medicamentos para o tratamento na fase crônica. “Depois de 40 anos com pouca ou nenhuma pesquisa clínica em novos medicamentos, vive-se um momento de avanços”, afirma Isabela Ribeiro, gerente do programa clínico em doença de Chagas da DNDi, uma organização sem fins lucrativos que pesquisa novas drogas para doenças negligenciadas. Ela cita estudos que buscam verificar a eficácia de medicamentos já existentes e testar novos remédios para os doentes crônicos. Um dos testes avalia a eficácia do benznidazol, única droga existente na fase aguda, e até mesmo na fase crônica, para cardiopatias severas.

O aperfeiçoamento das técnicas de transplante de coração também é aguardado por doentes crônicos com graves problemas cardíacos. No Distrito Federal, o Instituto de Cardiologia é o único que faz transplantes de coração. Foram apenas 20 até agora, 10 deles em pacientes com Chagas. “Não se sabe se os casos não existem ou se não são encaminhados pela rede pública”, afirma Renato Bueno Chaves, médico cardiologista do serviço de transplantes do instituto.

“As dificuldades dos pacientes com Chagas são as mesmas de outros pacientes que precisam de um transplante de coração”, diz o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. “O DF ficou oito anos sem fazer um transplante cardíaco. Só voltou a fazer no ano passado.”

Três perguntas para

Sarah Williams-Blangero, pesquisadora do Instituto Texas Biomedical, nos EUA

Como surgiu a ideia de pesquisar os doentes de Chagas de Posse (GO)?
Nosso interesse é pesquisar determinantes genéticos de suscetibilidade a doenças infecciosas. Trabalhamos com doenças parasitárias em outros países, especialmente no Nepal. Aprendemos sobre o mal de Chagas durante viagens ao Brasil. É uma doença sem um bom tratamento na fase crônica, então é interessante estudá-la da perspectiva genética. Muitas pessoas são picadas pelos barbeiros, mas nem todos são infectados e desenvolvem a doença. E há muitas pessoas infectadas com o Trypanosoma cruzi e que não desenvolvem problemas cardíacos. A pergunta-chave é: por que apenas algumas pessoas desenvolvem a doença? Montamos um time forte para o estudo genético do problema e para identificação de biomarcadores que podem ajudar as pessoas infectadas.

Por que foi escolhida essa região no Brasil?
Nosso foco foram as famílias grandes, para o desenvolvimento de um projeto de longo prazo. Precisávamos de uma região com altas taxas de infecção pelo Trypanosoma cruzi. Visitamos lugares na Bahia e em Goiás com grandes famílias e com índices altos de infecção pelo parasita. Posse é um lugar com acesso fácil a Brasília e com ótimas condições para o estudo.

O governo abandonou os doentes de Chagas da região. Não há assistência nem tratamento médico. Essa ausência do Estado brasileiro foi um critério para a pesquisa de campo?
Não tenho conhecimento de que o governo “abandonou a região”. As atividades do governo brasileiro na área não eram uma preocupação nossa. Selecionamos a região em função da existência de grandes famílias, da alta taxa de infecção e dos fatores logísticos.

Uma promessa aos doentes crônicos

Ministério da Saúde confirma que PAC não vai mais bancar reformas nas casas de adobe, um ambiente propício para a proliferação do barbeiro

Fotos: Iano Andrade/CB/D.A Press

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, confirmou ontem ao Correio que o Programa de Melhoria Habitacional para o Controle da Doença de Chagas está definitivamente excluído do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mesmo assim, segundo Padilha, o projeto vai continuar, com execução da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) — subordinada ao ministério — e custeio exclusivo da pasta. “O programa continua, mas fora do PAC.”

O ministro assegurou também que a pasta vai privilegiar o atendimento aos doentes crônicos de Chagas. São 3 milhões de pacientes em todo o país, a maioria dependente do Sistema Único de Saúde (SUS). “A principal estratégia do Ministério da Saúde hoje para lidar com a doença de Chagas é o cuidado de pacientes crônicos que apresentam problemas cardíacos, megaesôfago e megacólon.”

As garantias de Padilha sobre o programa de melhoria habitacional — considerada a principal forma de erradicar os vetores do mal de Chagas — e sobre o atendimento especializado aos doentes crônicos foram feitas depois de o Correio revelar, em série de reportagens, o avanço de barbeiros em diferentes regiões do país e o abandono das pessoas infectadas nas décadas passadas e sem qualquer tipo de assistência médica na atualidade. As reportagens são publicadas desde o último domingo.

O ministro também apresentou uma justificativa para a paralisação da produção do único medicamento existente no combate à doença, o benznidazol. A droga deixou de ser produzida pelo Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe) entre abril e outubro do ano passado. Segundo Padilha, o que ocorreu foi uma mudança da demanda pelo remédio por iniciativa da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Essa mudança ocorreu na metade do ano passado. A demanda dobrou.”

O Correio revelou que, nos últimos três anos, a Funasa represou 63,6% dos recursos previstos para municípios de áreas endêmicas reformarem ou substituírem casas suscetíveis a infestações de barbeiros. A maioria dos convênios foi encerrada sem a liberação do dinheiro. Em 2011, o programa de melhoria habitacional ficou fora do PAC 2 e, até agora, nenhum novo convênio foi assinado.

Medicamentos

A Funasa trava uma briga política para impedir que o programa seja transferido para o Minha Casa, Minha Vida. “No PAC, tudo que diz respeito à habitação ficou direcionado ao Minha Casa, Minha Vida. Mas o Ministério da Saúde não depende do PAC. O programa voltado a Chagas continua”, disse o ministro.

Padilha negou que o dinheiro tenha sido represado e atribuiu aos municípios a culpa por boa parte das reformas e construções não ter saído do papel. A própria Funasa já calculou que 60,1 mil famílias vivem em áreas de médio e alto risco à doença de Chagas e precisam do auxílio para a melhoria das casas. “A endemicidade da doença vem caindo, com a migração da população da zona rural para a zona urbana.”

Sobre o benznidazol, Padilha ressaltou que o Brasil é o único país que fabrica o medicamento. “Assumimos a produção mundial, com um estoque estratégico.” Segundo o ministro, a droga não tem “impacto nenhum” em pacientes com cardiopatias, megaesôfago e megacólon. O medicamento, porém, tem sido um habitual recurso adotado por médicos para pacientes crônicos, com índices de cura entre 10% e 20%. “O benznidazol existe para casos agudos da doença, como os surtos por ingestão de açaí e caldo de cana contaminados. Não tem nada a ver com pacientes crônicos.”