Drama familiar

» Vinicius Sassine
Enviado especial

Fotos: Iano Andrade/CB/D.A Press

Sofrimento coletivo
Moradores do povoado de Nova Vista portadores do mal de Chagas: uma enfermidade existente em um terço das casas da localidade

A doença de Chagas é uma realidade em 40 das 120 casas que formam o povoado de Nova Vista, em Posse (GO). Os moradores doentes têm acesso a um posto de saúde instalado no distrito, mas a unidade só consegue oferecer atendimento e medicação para hipertensão arterial. O diagnóstico de Chagas, para boa parte deles, ocorreu em razão da pesquisa do instituto norte-americano Texas Biomedical.

O Correio reuniu e conversou com 20 moradores de Nova Vista que têm a doença. A agente de saúde do povoado, Ana de Sousa Almeida, de 52 anos, consegue custear um tratamento especializado. Uma raridade no local. Ana sabe que tem Chagas há 10 anos. Desenvolveu megaesôfago e uma cardiopatia. Para se tratar, vai a Goiânia uma vez por semana, um percurso de mais de 500km. “Não tenho plano de saúde. Então junto um dinheirinho e faço as consultas por órgão. Numa semana o coração, na outra o esôfago.” Quase todos os moradores perderam pais ou irmãos em decorrência das complicações da doença. “Sei que vou morrer do mesmo jeito”, diz Ana.

Na região do Bacopario, também zona rural de Posse, famílias inteiras foram acometidas pelo mal. Jesumar Rosa da Conceição nasceu no Bacopario, tem 32 anos, vai ser pai pela segunda vez e há cinco anos está na fila do INSS para obter aposentadoria por invalidez. A doença de Chagas o obrigou a parar de trabalhar. “Só planto um milho para comer.” A mãe de Jesumar morreu com Chagas, aos 48 anos. O avô também.

O sogro e a sogra de Jesumar têm a doença. “Descobri quando os gringos vieram aqui. Mas doença de Chagas a gente não trata, não”, diz Salvelena dos Santos Silva, 50. O marido dela, Regino Pereira da Silva, 57, só descobriu o problema há dois anos. Já sentia o coração “batendo forte”. O diagnóstico veio com os “gringos”. Regino parou de trabalhar. “Ainda teimo, mas não aguento mais. O médico disse que meu coração está bem estragado.” A mulher e o filho de Jesumar escaparam do protozoário Trypanosoma cruzi, que transmite a doença. O bebê que nascerá nos próximos meses precisará de acompanhamento contínuo. (VS)