Três séculos de história e tradição

Fotos: Monique Renne/CB/D.A Press


Como os antepassados, os irmãos Palmira e Luís vivem da extração na margem do Rio das Almas, em Pirenópolis


No ParkWay, o Brasília Country Club conserva a antiga sede da Fazenda Gama, com mais de 150 anos


Herdeiro de senhores de engenho, o casal Benedito e Zilda Gonçalves leva uma vida parecida com a dos avós: ele só anda de botinas e ela ainda cozinha no fogão a lenha, em uma propriedade da Cidade Ocidental


Existem ao menos 390 edificações centenárias localizadas no Distrito Federal e em cinco cidades goianas do Entorno. São obras ainda frequentadas e habitadas por descendentes das famílias que viviam no Planalto Central antes da construção da nova capital

Renato Alves

Esqueça os candangos e os grandes empreiteiros dos anos 1950. Muito antes dos caminhões cruzarem a poeirenta Brasília em construção, portugueses se apoderavam das terras hoje ocupadas pelo Distrito Federal e pelos municípios goianos do Entorno. Seus escravos africanos erguiam casas, lojas e igrejas. Eles eram a base de uma sociedade que tinha no topo os ricos donos de imensas fazendas e suas submissas mulheres. As propriedades rurais, tomadas por gado e cana-de-açúcar, alimentavam pequenas cidades e vilas, habitadas por padres, militares, comerciantes, artesãos e funcionários públicos. Os núcleos populacionais estavam ligados por trilhas e raras estradas de terra, percorridas por tropeiros em lombo de burro e carros de boi. Muitos viajavam em busca de ouro.

Cenário comum a Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Pernambuco e ao Rio de Janeiro dos séculos 18 e 19. Porém, no quase isolado Planalto Central, a vida era mais difícil, principalmente para quem tinha poucas posses. Realidade pouco alterada até o começo da construção de Brasília, mas ainda desconhecida da maioria dos brasilienses e dos demais brasileiros. Para recuperar essa parte da história do país, uma equipe do Correio passou uma semana visitando cidades e fazendas centenárias dos arredores da capital. Percorreu mais de 1 mil km em estradas de asfalto, de terra e em trilhas. No caminho, encontrou os originais de documentos datados de até 300 anos, casarões centenários intactos e em ruínas, povoados e fazendas que parecem ter parado no tempo, descendentes de poderosos latifundiários e de escravos, pesquisadores e moradores que lutam para preservar a memória da região.

O resultado dessa apuração o leitor confere a partir de hoje, na série “Brasília colonial”. As reportagens vão revelar a riqueza secular dessas terras e o que ainda resta delas. Tesouro pouco explorado turisticamente pela maioria dos atuais donos e ainda nem mapeado completamente pelo governo ou pela comunidade científica. Em seu levantamento, o Correio contou ao menos 390 edificações com mais de 100 anos e em estilo colonial, em um raio de até 200km de Brasília. São igrejas, casarões, presídios desativados e antigos armazéns. No DF, os prédios ficam em Planaltina e no Park Way. Em Goiás, eles estão nas áreas rurais e urbanas de Cidade Ocidental, Corumbá, Formosa, Luziânia e Pirenópolis.

Em busca de ouro

Os primeiros povoamentos ao redor do atual Distrito Federal surgiram em função da colonização das terras dos índios da etnia Goyá (grafia antiga) e da corrida ao ouro no Brasil. Mais antigo dos núcleos urbanos da região, Pirenópolis, distante quase 140km de onde seria erguida a nova capital do país, começou a ser ocupado em 1727, quando um grupo de bandeirantes portugueses, vindo de São Paulo, ali fundou as Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte.

Os desbravadores já sabiam da existência do ouro, tanto que, logo após montar acampamento, se lançaram à cata do precioso metal no leito do Rio das Almas. Eles passavam o dia revirando e lavando o cascalho das margens até poder apurar o ouro com bateia, em um dos mais antigos métodos de garimpagem. Oriundos do norte de Portugal, região do Porto, e da Galícia, em sua maioria, os portugueses logo trataram de construir casas e igrejas, formando um arraial. A ainda imponente Igreja Matriz, cartão-postal do município, eles construíram por volta de 1728 a 1731.

No mesmo período, bandeirantes rumavam para o que viria a ser Corumbá, a vizinha mais próxima de Pirenópolis. Também atraídos pelo ouro, fixaram acampamento na margem esquerda do Rio Corumbá e, em 8 de setembro de 1730, fundaram o arraial de Nossa Senhora da Penha do Corumbá. Ergueram ranchos de pau a pique, com chão de terra batida e cobertura de palhas de buriti. Um deles virou capela. Os outros serviam de moradia aos bandeirantes e a seus escravos. Coube aos negros plantar roças de cereais para abastecer o arraial. Acima dessas plantações, havia uma clareira na mata ciliar, onde hoje está a Praça da Matriz, que servia de pasto aos cavalos dos pioneiros de Corumbá.

Igrejas separadas

Uma década depois, à procura de novas minas de ouro, o bandeirante Antônio Bueno de Azevedo partiu de Paracatu (MG), acompanhado de amigos e escravos, em direção a Goiás. Mas não tinha direção certa. Em 13 de dezembro de 1746, enquanto descansava às margens de um córrego, viu pepitas de ouro. No dia seguinte, ergueu um cruzeiro e dedicou as minas e o povoado à Santa Luzia, futura Luziânia. A notícia logo se espalhou. Em menos de um ano, o arraial tinha mais de 10 mil habitantes. Uma enormidade para a época.

Como em Pirenópolis, a primeira grande edificação de Luziânia foi a Matriz, que começou a ser erguida em 1765, sendo inaugurada em 1767. Mas só a população branca podia frequentá-la. Com isso, os negros começaram a erguer, em 2 de junho de 1769, a Igreja do Rosário. Os dois templos continuam de pé, mas apenas o dos negros mantém a estrutura original. Após um ano de trabalho, o prédio foi reaberto, completamente restaurado, em setembro do ano passado. Ele fica no ponto mais alto da Rua do Rosário, onde se concentram os prédios históricos da cidade, hoje com mais de 160 mil habitantes.

Mas, muito antes de atingir essa população, Luziânia viveu uma fuga em massa, devido ao declínio dos garimpos. A população caiu de 10 mil habitantes, no pico da mineração, para pouco de mais de 2 mil, ao fim da exploração do ouro. A minoria branca ficou nas poucas casas do vilarejo e nas sedes das fazendas, que viviam da produção de cana-de-açúcar e da criação de gado. Os escravos que não trabalhavam nas propriedades rurais formaram comunidades em volta delas. A mais famosa, a do Mesquita, fica na área rural da Cidade Ocidental, a cerca de 50km de Brasília e a 25km de Luziânia, onde descendentes dos senhores de engenho e dos escravos conservam a cultura dos ancestrais.

Fogão a lenha

Em pequenas chácaras e ainda grandes fazendas, brancos e negros criam galinhas e porcos soltos, fazem doces e todo tipo de comida em fogões a lenha. “Não gosto da cidade, gosto das coisas antigas”, afirma Benedito Gonçalves Soares, 78 anos, herdeiro de uma das mais tradicionais famílias da região. Ele e dois dos seus irmãos mantêm duas fazendas com características originais. Em ambas, os casarões, com mais de 200 e 300 anos, foram recentemente restaurados. As propriedades ficam no limítrofe de Goiás com o DF, ao lado de onde surge um dos mais modernos e caros condomínios da capital.

A fim de satisfazer o marido, Benedito, Zilda Rodrigues Gonçalves, 76 anos, acorda cedo para fazer, diariamente, bolos e biscoitos, sempre no fogão alimentado a lenha. “Gostaria de morar na cidade, mas meu marido não sai daqui por nada”, pondera ela, descendente de uma das mais poderosas famílias de Luziânia. “Meus bisavós tinham uma fazenda grande, com um casarão de 300 anos e uma senzala, mas depois venderam e acabaram com tudo”, lembra.

Zilda, Benedito e os filhos contam com a ajuda de descendentes de escravos para manter a casa e toda a propriedade em ordem. Os negros, em sua maioria, moram no povoado Mesquita, reconhecido recentemente como área remanescente de quilombo.

Centro cultural e econômico

Diferentemente das Minas Gerais, o ciclo do ouro em Goiás durou pouco. O que ocorreu em Luziânia se repetiu em Pirenópolis, com milhares de garimpeiros indo embora. No entanto, a antiga Meia Ponte manteve um núcleo urbano considerado populoso para a época porque era importante centro de distribuição de mercadorias entre o longínquo Centro-Oeste e o rico Sudeste, nos séculos 18 e 19. Além da cana-de-açúcar, fazendas pirenopolinas produziam algodão para exportação nos anos 1800. Com isso, atraíam comerciantes e intelectuais, o que tornava a sua vida mais glamorosa que nos demais povoamentos goianos.

Ainda no século 19 e com o nome de Meia Ponte, Pirenópolis tornou-se o berço da música e da imprensa goianas. Lá surgiu o primeiro jornal do Centro Oeste brasileiro, o Matutina Meiapontense. Somente em 1890, a cidade passou a se chamar Pirenópolis — o município dos Pireneus, nome dado à serra que a circunda. Mesmo com a inauguração de Goiânia e de Brasília e a consequente povoação do Centro-Oeste, a cidade ficou isolada durante grande parte do século 20, sendo redescoberta nos anos 1970, quando começou a virar destino turístico.

Hoje, Pirenópolis é famosa pelo turismo e pela produção do quartzito, a “pedra de Pirenópolis”. Ambos movem a economia local. Mas muito do período da corrida ao ouro ainda se mantém vivo na cidade. Ela não experimentou o boom populacional de Luziânia nas últimas três décadas e preservou grande parte do seu casario. “A cidade tem 250 imóveis com vários níveis de preservação que remontam do período colonial, art decô e eclético, além de 250 que chamamos de falsos históricos, híbridos, que remetem à aparência do colonial”, destaca o chefe do escritório técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Pirenópolis, Paulo Sérgio Galeão.

Além da arquitetura, Pirenópolis tem muitos costumes de quase 300 anos atrás, como a exploração de minério à margem do Rio das Almas, que corta o centro histórico. Em vez de ouro, pirenopolinos passam o dia retirando areia. Dessa forma, como os seus antepassados negros, os irmãos Luís e Palmira Rodrigues, de 70 e 77 anos, respectivamente, sustentam a família. “A nossa vida sempre foi assim, meu filho. A gente tira areia, anda de charrete, cozinha com lenha, mata galinha. Igual aos nossos pais e nossos avós”, lembra Palmira, que divide as funções com o marido e dois filhos.

Fuga da malária


Engenho centenário e carro de boi preservados em fazenda de escravos, em Pirenópolis

A cerca de 70km de Brasília, Formosa tem uma história bem diferente das demais cidades centenárias do DF e do Entorno. Desbravada pelos moradores do Arraial de Santo Antônio (atual Luziânia), que fugiam da malária, Formosa virou ponto de passagem de tropeiros e comerciantes. Eles acampavam em barracas de couro para vender seus produtos. Com isso, o lugarejo ganhou o nome de Arraial do Couro. Só em 1843, foi elevado à categoria de vila, passou a se chamar Vila Formosa da Imperatriz e, em 1877, virou cidade, finalmente consolidando-se com o nome de Formosa.

A Missão Cruls, destacada para delimitar o quadrilatério que seria usado para a construção de uma nova capital do Brasil, passou por lá 15 anos depois. Encontrou o município em seu apogeu. Formosa era porta de entrada para o Nordeste brasileiro. Fazendeiros enriqueciam com criação de gado. As riquezas naturais, como a Lagoa Feia e o Salto do Itiquira, encheram os olhos dos pesquisadores. Por muito tempo, casarões em estilo barroco, erguidos com madeiras nobres e telhas importadas, conservavam a história da região. Hoje, só restam 14, espalhados pela cidade de quase 100 mil habitantes.

De Formosa, os integrantes da Missão Cruls seguiram para Planaltina. Naquele tempo, o ainda Distrito de Mestre D’Armas, criado oficialmente em 1859 e pertencente a Goiás, servia de ponto de parada para os tropeiros que levavam o ouro da Cidade de Goiás, Pirenópolis e Corumbá à Região Sudeste. A Missão Cruls, quando lá desembarcou, em 1892, encontrou um próspero povoado, com casarões de encher os olhos. Daquela época, restam 29 imóveis, incluindo a pequena Igreja de São Sebastião, todos no Setor Tradicional.

Moradores ergueram o templo em 1811, como oferta para acabar com a mesma epidemia que assolava a região e provocava uma fuga em massa para o Arraial do Couro. Grande parte dos cerca de 200 habitantes do povoado havia adoecido naquele ano. A população fez, então, uma promessa a São Sebastião, o santo protetor contra as pestes. Passado o surto, uma das famílias da cidade cumpriu o prometido e doou a terra onde foi construída a Igreja de São Sebastião, à base de adobe e palha. Além de Planaltina, no Distrito Federal, somente o Park Way tem vestígio dos tempos do ouro na região. Instalada no interior do hoje Brasília Country Club, a Casa Velha, antiga sede da Fazenda Gama — uma das propriedades desapropriadas para construção do DF — é mais conhecida por ter sido a primeira construção a receber o então presidente Juscelino Kubitschek, durante sua primeira vinda ao Planalto Central, em 2 de outubro de 1956. Ali, o presidente bossa-nova tomou um legítimo café goiano e posou para a histórica fotografia em frente ao casarão de mais de 150 anos, cercado pelos moradores, assessores, porcos, galinhas e pintinhos devorando milho.

Conveniência

O território onde se localizava Mestre D’armas pertenceu, de início, à Vila de Santa Luzia, hoje Luziânia. Depois, foi transferido para Couro (Formosa) em 20 de junho de 1837. Sucessivas anexações e desanexações ocorreram, a partir de então, provocadas por manifestações da população local, levando o povoado a se adequar às preferências do poder dominante.

Expedição pioneira Liderada pelo astrônomo Luiz Cruls e sobre lombo de burro, a Missão Cruls trabalhou de 1892 a 1894, identificando a zona constitucionalmente pré-definida e demarcando uma área de 14.400km², que incorporava antigas fazendas de Goiás, pertencentes às cidades de Planaltina e Luziânia.