Símbolo de poder e riqueza

Fotos: Monique Renne/CB/D.A Press


Telma Machado, da quarta geração de donos da Babilônia: tradições culinárias de Goiás do século 19


No interior do casarão, a capela ainda é a original.
No altar, há a imagem de Nossa Senhora da Conceição



Fazenda bicentenária em Pirenópolis conserva a arquitetura e os costumes de quando era a maior empresa agrícola de Goiás. Casarão erguido por escravos guarda relíquias do século 19

Renato Alves

Nenhuma propriedade traduz melhor os tempos do ouro e da cana-de-açúcar no Distrito Federal e no Entorno do que a Fazenda Babilônia. Na área rural de Pirenópolis (GO), ela faz jus ao nome devido à sua grandiosidade. Descendentes dos antigos donos ainda preservam o que de melhor a fazenda sempre teve. A fachada e todos os cômodos estão como há mais de 200 anos. Ao redor, em seus fogões a lenha e suas imensas mesas de madeira maciça, eles cultivam, cozinham e comem os mesmos pratos feitos e consumidos pela família do senhor de engenho e seus escravos.

A fazenda teve origem como um engenho de cana-de-açúcar batizado de São Joaquim, no fim do século 18, quando os proprietários não moravam nela. Entre 1800 e 1805, escravos construíram o imponente casarão em estilo colonial, com o dinheiro do comendador Joaquim Alves de Oliveira. Em pouco tempo, ele transformou a propriedade na maior empresa agrícola de Goiás do século 19. Na época, toda a fazenda ocupava uma área do tamanho de 50 mil campos de futebol. O comendador era dono do povoado Minas de Meia Ponte, a atual Pirenópolis. Com a agricultura e o comércio, transformou o lugarejo em uma das principais cidades goianas, tornando-o o centro comercial do estado.

Com quase 300 mulas, a tropa de Joaquim de Oliveira levava produtos da Babilônia e de outras propriedades de Goiás ao restante do Centro-Oeste. A caravana trazia nessas viagens produtos essenciais, como sal e ferro, e outros tantos lucrativos ao comendador, como tecidos finos e armas. Com a patente de tenente-coronel comandante, ele editou o primeiro jornal do Centro-Oeste, a Matutina Meiapontense — que circulou de 1830 a 1835 —, montou a primeira biblioteca do estado e levou um professor para educar a população local.

Exageros

Dos tempos áureos, a Babilônia mantém impecavelmente conservado o casarão sede. Grossos esteios e vigas de madeiras, com paredes de adobe e pau a pique (leia Glossário), sustentam o prédio de 2 mil metros quadrados. Algumas vigas medem dois palmos de largura e atravessam vãos de até 15m. Coberto com telhas-coxa, o telhado é feito de caibros roliços, com cerca de 20cm de diâmetro, próximos uns dos outros. Encaixes precisos e cavilhas de madeiras unem o madeirame. Até as dobradiças das portas são feitas de madeira. Havia carência de metal no início do século 19, devido à dificuldade da importação por causa do custo da longa viagem.

Os pregos usados na construção, principalmente nos assoalhos, são quadrados, feitos manualmente em bigornas. Muros de pedras ainda cercam o casarão. Erguidos pelos escravos, eles também circundam o curral, outras construções da propriedade e cruzam boa parte do pasto.

Na sede da fazenda, destaca-se ainda a capela — toda original —, na varanda, que acompanha toda a frente da casa. O altar, estreito e ao fundo, é encimado por um pequeno nicho onde se encontra a imagem de Nossa Senhora da Conceição sobre um retábulo de madeira. Chamam atenção ainda os diversos espelhinhos redondos, correntes pintadas e meias-luas, provavelmente herança dos artistas escravos africanos.

Na parede contígua à casa, há uma janela treliçada com vista para a sala. “Da sala vê-se o altar. Era também uma maneira de contemplar as mulheres, que assistiam às missas acomodadas na sala. Os homens assistiam em pé, na varanda. Apenas o padre ficava dentro no interior da capela”, conta Telma Lopes Machado, 62 anos, integrante da quarta geração de proprietários da Babilônia. O comendador morreu em 1851. Com a decadência da cana-de-açúcar e do algodão, em função dos altos custos com o transporte das mercadorias, os herdeiros decidiram se desfazer da propriedade. Revendida, ela chegou à família de Telma, que faz de tudo para manter a propriedade produtiva e de forma original.

Senzala


Dos tempos do comendador, desapareceu a senzala, que abrigava os escravos. Ninguém sabe a data da sua extinção. A única certeza é a de que o prédio existiu. Há vestígios perto do muro de pedras e um desenho colorido de Tonico do Padre (Antônio da Costa Nascimento, um artista local), de 1864. Arqueólogos goianos fizeram escavações há oito anos e encontraram restos da senzala e dos seus ocupantes. Com base em documentos guardados na sede, também dá para se ter uma ideia de sua dimensão. Era a única da região toda arruada, servida de água e sanitários — na verdade, latrinas.

Telma e os parentes ainda guardam outras relíquias. Uma delas é a imagem de Nossa Senhora da Conceição, com 21cm de altura, esculpida por José Joaquim de Veiga Valle. Nascido em Pirenópolis em 1806 e morto na Cidade de Goiás, em 1874, ele é a maior referência da arte sacra goiana e o mais importante artista do estado até o século 19. Para manter viva a história da Babilônia, Telma e três ajudantes preparam quitutes da tradicional cozinha goiana, feitos em fogões a lenha e oferecidos aos visitantes. Alguns, como doces preparados em tachos de cobre, levam um dia para ficar prontos.

Em uma área equivalente a 1.020 campos de futebol, a Babilônia atual mantém criações de cerca de 1,2 mil cabeças de gado leiteiro e de corte. O que se planta serve de alimento aos donos, aos 14 empregados e aos turistas que pagam pelo café sertanejo, com até 40 itens. Com toda essa riqueza, a propriedade acabou tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1965, quase 25 anos depois do centro histórico de Pirenópolis. O órgão entregou a propriedade como nova, em 2008, após quase dois anos de restauro.