Guardiães de tesouros

Fotos: Monique Renne/CB/D.A Press


Elin Dutra restaurou dois casarões em Pirenópolis


Olíbia e a filha Sílvia no interior do imóvel da família


Famílias dedicam tempo e dinheiro à conservação de imóveis com até 300 anos, erguidos nos ciclos do ouro e da cana-de-açúcar no Distrito Federal e Entorno

Renato Alves

Após conhecer meio mundo representando o Brasil, aos 70 anos, o diplomata gaúcho Elin Dutra decidiu fixar residência em Pirenópolis — desejo alimentado desde a primeira visita à cidade goiana distante 140km de Brasília. Na oportunidade, 25 anos atrás, ele se apaixonou pelo casario histórico e pela vida pacata do lugar. Tanto que, no mesmo dia, escolheu um casarão em frente à Igreja Matriz e resolveu comprá-lo. Passou anos restaurando-o até deixá-lo como o projeto original. E não parou por aí. Adquiriu outro imóvel antigo no município e também o restaurou para transformá-lo em pousada. A mudança definitiva, para o primeiro prédio, ocorreu somente há um mês, após ele se aposentar no Ministério das Relações Exteriores.

Elin Dutra é um dos tantos exemplos de brasileiros que lutam pela preservação de uma parte pouco conhecida da história do Distrito Federal e do Entorno. Eles dedicam um bom tempo e dinheiro à conservação de imóveis seculares. No caso do ex-embaixador brasileiro em cidades como Estocolmo (Suécia) e Cairo (Egito), ele agora aproveita ao máximo o tempo livre, a paisagem bucólica de Piri, a culinária e as músicas tradicionais do período colonial. “Sempre quis morar em uma cidade histórica. Primeiro, pensei em Olinda (PE), mas, quando aqui pisei pela primeira vez, para assistir a uma cavalhada, logo me apaixonei e fui convencido por um amigo a comprar o casarão onde hoje moro”, recorda.

Um alferes do Império construiu, em 1830, a residência agora pertencente a Dutra. Com a estrutura toda em madeira maciça, o casarão tem quatro amplos quartos, duas salas, cozinha, varanda, um grande quintal e até uma charmosa fonte. O diplomata gosta de receber amigos ao redor dela. “Aqui, nos reunimos para serestas, acompanhadas de comidinhas típicas, como pães de queijo e bolos.” Já a edificação em que Dutra montou numa pousada serviu de abrigo a vigários por mais de 100 anos e começou a ser erguida no século 18. Em vez dos turistas atuais, brasilienses em sua maioria, o imóvel hospedava religiosos católicos que peregrinavam pela região catequizando os índios. Época em que a cidade era um arraial e se chamava Meia Ponte.

Novos, mas antigos

Em Pirenópolis, de originais, como os casarões de Elin Dutra, restam cerca de 240 imóveis centenários, todos preservados no centro histórico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1988. Mas outros 250 imóveis também fazem o visitante ter a sensação de voltar no tempo ao andar pelas ruas de pedra do município com mais de 280 anos e 22 mil habitantes. Mesmo construídos recentemente, os casarões de fachadas em cor branca, janelões coloridos e grandes portas de madeira têm as mesmas características do ciclo do ouro e dos tempos dos engenhos de cana-de-açúcar. O que, para alguns especialistas, não passa de uma mera cópia do estilo colonial, integrantes do Iphan consideram um estímulo à preservação do patrimônio histórico.

O chefe do instituto em Pirenópolis, Paulo Sérgio Galeão, é um dos defensores da construção de imóveis em estilo colonial na área tombada. “Esses prédios não agridem o tombamento. Pelo contrário, ajudam a preservar a história”, ressalta. Ele lembra ser permitido fazer novas construções em qualquer centro histórico tombado do país, desde que a obra seja apresentada ao Iphan e aprovada por um dos técnicos do órgão. Além dos moradores e forasteiros, o órgão do governo federal também tem feito a parte dele em Pirenópolis. Os mais antigos e importantes prédios da cidade estão restaurados e abertos ao público. Entre eles, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, construída em 1750 e transformada em museu de arte sacra. A Casa de Câmara e Cadeia, por sua vez, abriga exposições de artes.

No entanto, mesmo bem conservada, a principal atração turística, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, tem pouco do modelo original. Culpa do incêndio ocorrido em setembro de 2002, que destruiu quase toda a estrutura, móveis e imagens do prédio erguido entre 1728 e 1732, o mais antigo do Centro Oeste. O Iphan o reconstruiu por completo quatro anos depois.

Herança muito bem protegida

Na mais antiga cidade do Distrito Federal, o que há de precioso está preservado graças à luta de uma família de pioneiros. Os Guimarães abriram mão de um dos seus mais valiosos imóveis para destiná-lo a um museu público, que conta a história dos seus ancestrais, de Planaltina e de Goiás nos tempos do ouro e dos escravos e foi tombado pelo Governo do Distrito Federal em 1987.

O primeiro registro da presença dos Guimarães no Planalto Central brasileiro data de 1736. A chegada deles à região do atual Distrito Federal está documentada no Arquivo Histórico Ultramarino, em Portugal. Portanto, os Guimarães andavam em lombo de burro e acampavam na isolada Região Centro-Oeste do Brasil muito antes de Planaltina ser reconhecida como distrito, em 1859.

Do então Distrito de Mestre d’Armas, quando Planaltina pertencia a Goiás e servia de ponto de parada para os tropeiros carregados de ouro, restam apenas 29 imóveis, todos no Setor Tradicional. O mais imponente, que pertencia aos Guimarães e onde hoje funciona o Museu Histórico e Artístico de Planaltina, fica em frente à Praça Salviano Guimarães, um oásis na violenta Planaltina do século 21.

Neta do coronel Salviano, a procuradora aposentada Olíbia Terezinha Guimarães, 78 anos, é uma das mais preocupadas com a manutenção do casarão da família, entregue ao governo local por meio de uma venda com valor irrisório. “A nossa família sempre teve a consciência da importância de preservar a memória dela e do Distrito Federal”, destaca.

Filha de Olíbia, a historiadora Sílvia Helena Guimarães conserva a memória da família por meio de pesquisas. Uma delas resultou no livro Os Monteiro Guimarães na história do Planalto Central, lançado há dois anos. Em documentos recuperados por ela, há a comprovação da presença dos Guimarães nas terras da nova capital há ao menos 265 anos.