Nos tempos do ouro e do couro

Fotos: Monique Renne/CB/D.A Press


Em seu museu, o ex-marceneiro Leônidas Pires guarda documentos, moedas e outros objetos de quando a cidade se chamava Arraial dos Couros


Um dos poucos casarões centenários ainda de pé no município goiano vizinho do Distrito Federal

Diferentemente das demais cidades do Entorno, onde a mineração atraiu os portugueses, Formosa surgiu e cresceu com a pecuária

Renato Alves

Há quase 300 anos, os bandeirantes passaram pela primeira vez por onde hoje é Formosa. Na área vizinha ao atual Distrito Federal, depararam-se com uma comunidade indígena do povo Crixá. O encontro entre portugueses e nativos está descrito na expedição de Anhanguera (leia Para saber mais), em 1722.

No mesmo documento, porém, há relatos da presença de estrume de vaca naquelas terras, o que indicaria a passagem do homem branco, nordestinos brasileiros ou europeus, vindo da Bahia, trazendo gado. A comprovação oficial dos primeiros não índios no local, por meio de papéis guardados em Portugal, data de 1739. Eles estabeleceram fazendas de criação de gado, atividade que ainda move o município distante 70km de Brasília.

Fora a presença de bois e vacas em pastos, pouco resta da Formosa do período colonial. Casarões com mais de 100 anos não passam de 10. A maior parte da memória está preservada apenas em documentos, moedas e utensílios guardados em um museu, num antigo mas muito bem conservado imóvel. O nome, Museu Couros, remete ao período de povoamento de Formosa. Desbravada pelos moradores do Arraial de Santo Antônio (Luziânia) que fugiam da malária, Formosa virou ponto de passagem de tropeiros e comerciantes. Eles acampavam em barracas de couro para vender seus produtos. Daí veio o nome de Arraial dos Couros, segundo uma das histórias contadas por moradores.

Mas não há consenso entre pesquisadores sobre a origem do nome Couros. Além da versão dos barracos, alguns apontam que os moradores vendiam peles de animais selvagens, enquanto outros dizem que vendiam couro de vaca. Essa e outras curiosidades estão documentadas no empoeirado arquivo do museu, o único que preserva a memória local. Ele foi idealizado e construído pelo ex-marceneiro Leônidas da Silva Pires, com doações de empresários e outros simpatizantes da sua casa. Hoje com 53 anos e um cargo na prefeitura de Formosa, ele recebe como ajuda do governo municipal somente a cessão de dois funcionários para cuidar da segurança e da limpeza do casarão onde ficam os objetos antigos.

Produção artesanal

Para manter o museu aberto, Leônidas Pires e voluntários organizam eventos ao longo do ano. O maior deles resgata uma tradição dos tempos do Império. Realizada sempre em junho, há 14 anos, a Feira da Moagem mostra aos visitantes como era a produção artesanal de alimentos na região nos séculos 18 e 19. Entre outras atrações, fiandeiras vão transformando o algodão em tecido, um trabalho centenário que requer muita habilidade nas mãos e nos pés. A partir da mandioca, mostra-se o processo de feitura de farinha, beiju, goma e puba. Garapa, melão, rapadura, batida, puxa-puxa, açúcar mascavo e pinga também já têm espaço cativo no evento. “Esse resgate é o maior objetivo do museu”, ressalta Pires.

Além de preservar objetos seculares, Pires é um bom contador de histórias. “Em 1726, o rei de Portugal mandou colocar aqui um posto fiscal para evitar o contrabando de ouro sem pagar o quinto devido ao reino português”, destaca. Naquela época, Santa Luzia — o segundo nome de Luziânia — era sede do julgado — o juiz municipal —, ao qual estavam vinculados dois arraiais: Arraial dos Couros e Arraial do Angico, na atual região de Brazlândia. Santa Luzia era um dos julgados mais extensos de Goiás e tinha 278 casas. O Arraial dos Couros era constituído por 148 habitantes, 50 imóveis e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Mercês e Abadia. Havia ainda 39 fazendas de gado e seis engenhos de açúcar.

Somente em 1843, Formosa foi elevada à categoria de vila e passou a se chamar Vila Formosa da Imperatriz . Em 1877, virou cidade, finalmente consolidando-se com o nome atual. No mesmo ano, o visconde de Porto Seguro fez uma viagem ao Planalto Central para conhecer melhor a região e apontar, com mais propriedade, um local adequado à transferência da capital do Rio de Janeiro para o Centro-Oeste.

Em 28 de julho de 1877, o visconde escreveu, de Formosa, um ofício ao então ministro da Agricultura, conselheiro Tomás José Coelho de Almeida. Nele estava o relato do êxito da viagem e da pesquisa, indicando o triângulo formado por três lagoas — entre elas, a Lagoa Feia — como um dos melhores locais para a transferência da capital. Para dar continuidade ao levantamento do visconde e sua equipe, a Missão Cruls chegou ao Planalto em 1892 e, entre outras coisas, destacou as belezas naturais de Formosa, como o Salto do Itiquira, que continua a encantar os visitantes.

Desbravador de Goiás

Nascido em Parnaíba (SP) em 1672, Bartolomeu Bueno da Silva ficou mais conhecido como Anhanguera. Atraído pelo ouro das Minas Gerais, morou em Sabará a partir de 1705 e, depois, em São João do Pará e em Pitangui. Devido a uma série de conflitos, teve que voltar à capitania de São Paulo e se fixar em Parnaíba. Em 1720, pediu licença ao rei de Portugal para retornar a Goiás, onde seu pai, o primeiro Anhanguera, encontrara amostras de ouro.

Em 1722, sob seu comando, a bandeira seguiu rumo ao Centro-Oeste. Por quase três anos, ele explorou os sertões goianos em busca da lendária Serra dos Martírios. Em 1725, encontrou ouro no Rio Vermelho, próximo à antiga capital de Goiás, a hoje Cidade de Goiás. Voltou à região um ano depois, quando, na qualidade de capitão-mor regente das minas, fundou o arraial de Santana, elevado em 1739 à categoria de vila como Vila Boa de Goiás. O rei concedeu-lhe sesmarias e a cobrança de direitos sobre a passagem de rios que conduziam às minas goianas.

No entanto, a pretexto de que Anhanguera havia sonegado as rendas reais, o direito de passagem lhe foi retirado em 1733. Na medida em que se organizava a administração estatal de Goiás, a autoridade do sertanista era limitada pelos delegados régios. Ao morrer, em 1740, o segundo Anhanguera estava pobre e reduzido a um exercício de mandato quase decorativo.