Patrimônio ameaçado

Fotos: Monique Renne/CB/D.A Press


Catador de latinhas, Pedro d,Abadia mora sozinho em um casarão em ruínas, no centro histórico de Planaltina: família prefere que o imóvel seja comprado para restauração


Em Luziânia, há apenas 29 imóveis tombados, muitos em péssimo estado

A maioria dos imóveis centenários do Distrito Federal e do Entorno se perdeu. O que resta corre o risco de desabar por falta de cuidado dos donos, pois eles não têm dinheiro e são alvo da especulação imobiliária

Renato Alves

Manter de pé a história do Distrito Federal e do Entorno custa caro. Sem verba, leis tornam-se insuficientes para proteger imóveis centenários, cada vez mais raros na região. A quem não tem dinheiro e apoio oficial, resta assistir ao patrimônio pessoal e nacional desaparecer com o tempo. Dessa forma, cidades e povoados perderam todo o casario antigo. A maioria dos que ainda tem algum desses bens pode contá-los nos dedos.

O motorista de ônibus Jarbas Camelo de Mendonça, 54 anos, passa a maior parte do dia fora de casa porque teme a queda repentina do imóvel, com cerca de 150 anos, em Luziânia (GO). “Como pode ver, parte do casarão não tem telhado, a madeira está apodrecendo e as paredes, de adobe, precisam de reforma, pois estão encharcadas. Mas não temos dinheiro para tudo isso”, comenta.

Ele e os irmãos calculam ser necessários mais de R$ 150 mil para uma reforma completa. No entanto, a renda familiar não passa dos R$ 4 mil mensais, quantia que tem de sustentar mais de 10 pessoas. “A casa é tombada, não podemos derrubá-la. Mas, com o tempo, vai cair sozinha. Já avisamos à prefeitura e ao governo do estado, mas eles dizem que não podem ajudar”, queixa-se Antonino, 65 anos, irmão de Jarbas.

Para dar segurança à mãe, Elisa Gomes Curado, 95 anos, os filhos decidiram erguer um cômodo anexo à antiga casa. Mas a vontade da família era vender todo terreno, avaliado em R$ 250 mil, e construir uma ampla, segura e confortável residência para a matriarca, descendente de escravos, que tem 16 filhos e 75 netos.

O centenário imóvel da família fica na Rua do Rosário, uma das mais valorizadas e antigas de Luziânia, fundada como Santa Luzia em 13 de dezembro de 1746 por bandeirantes em busca de ouro. Mas, do período colonial, restam apenas 29 casarões, grande parte na Rua do Rosário e nas proximidades dela. Há 10 anos, eram 41, todos tombados por lei municipal ou estadual.

A prefeitura reconhece a perda histórica, mas alega poder fazer pouco. “A maioria dos bens tombados é particular. Cabe ao dono preservá-la. O município não tem muita verba para ajudar. O que se pode fazer é comprar ou alugar alguns desses imóveis. No momento, ela tem quatro locados e está em processo de compra de um”, argumenta a diretora de Cultura de Luziânia, Diane Gonçalves da Silva.

Em ruínas

Mais antiga cidade do Distrito Federal, Planaltina também já perdeu a maior parte do acervo histórico e cultural. E ainda vê ameaçado o pouco que sobra de quando pertencia a Goiás e tinha ruas de pedra e casarões imponentes. De todas as antigas construções, somente a Igreja de São Sebastião e o Museu Histórico e Artístico de Planaltina são tombados pelo Governo do Distrito Federal.

Mesmo assim, construído por escravos e concluído em 1870, o templo católico está comprometido, com rachaduras nas paredes. Instrutores de autoescola que usam o estacionamento público ao lado para aulas práticas fazem do interior do edifício uma extensão do escritório de suas empresas, usando e abusando também do deteriorado banheiro da igreja.

A ameaça ao templo e toda a descaracterização do centro histórico incomodam principalmente os mais antigos moradores da cidade. “Essa igreja é o pouco que resta dos tempos em que Planaltina era uma cidade tranquila e bonita”, observa José de Castro, 70 anos, que faz questão de passear ao redor do edifício centenário toda manhã, na companhia do filho Marcos Paulo, 25.

Pedro d’Abadia Gonçalves, 61 anos, sonha ver restaurado o casarão em que mora sozinho. Mas, com os cerca de R$ 500 mensais que ganha catando e reciclando latinhas, não consegue nem sequer trocar as telhas. Com isso, em época de chuva, o imóvel com mais de 100 anos vive alagado. As infiltrações castigam as paredes de adobe e o madeirame das portas e janelas. Uma das paredes caiu há 15 dias.

Antes que ela toda venha abaixo, Pedro e os irmãos pretendem vender a casa de seis cômodos, localizada na antiga Rua 13 de Maio, no Setor Tradicional de Planaltina, onde estão todos os poucos imóveis centenários da cidade. “A gente queria vender a casa para alguém com dinheiro para reformá-la toda. Ficaria linda pintadinha e com o telhado novo”, comenta Pedro.

Nem tão formosa

Distante 70km de Brasília e com quase 300 anos, Formosa é outro triste exemplo da falta de preservação. Por muito tempo, casarões em estilo barroco, erguidos com madeiras nobres e telhas importadas, conservavam a história da região. Mas esse patrimônio está em extinção. Em janeiro de 2003, a prefeitura fez um levantamento das casas centenárias no município. Contaram apenas 15. No mesmo ano, duas foram demolidas. Ambas para dar lugar a prédios residenciais, em volta da principal praça, em frente à Catedral Imaculada Conceição.

A destruição só teve fim quando o então promotor de Defesa do Patrimônio, Frederico Augusto de Oliveira Santos, concluiu um processo de tombamento dos prédios históricos. Com o desmanche do casarão ao lado da catedral, onde funcionava uma sapataria, o promotor entrou com uma ação civil pública de R$ 400 mil contra os donos do imóveis destruídos e a prefeitura. Fez também um pedido de liminar para o tombamento dos prédios históricos, a proibição de demolições e a construção de imóveis com mais de um pavimento ao redor da praça da catedral.

A juíza Grace Corrêa Pereira, da comarca de Formosa, acatou os pedidos do promotor. Fixou como pena uma multa diária de R$ 10 mil para quem desobedecer à decisão. Mandou ainda enviar uma cópia do seu despacho para o governo de Goiás, para o estado fazer um levantamento das casas antigas de Formosa e tombar as com valor histórico, cultural e paisagístico. Por meio da ordem judicial, mantiveram-se em pé 13 casarões.