Resgate histórico

Fotos: Monique Renne/CB/D.A Press


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Durante a reforma da igreja construída por escravos há mais de 260 anos, em Pirenópolis, restauradores encontraram pinturas ornamentais nas paredes e no teto. Eles ainda devolveram o brilho às cores e ao ouro do altar principal

Renato Alves

Daqui a dois meses, visitantes e moradores de Pirenópolis (GO) poderão apreciar de perto uma das maravilhas dos tempos do Brasil colônia. Em restauração desde novembro de 2010, a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim será reaberta às celebrações religiosas e ao turismo. Além de toda a estrutura reformada e pintada, a edificação, de quase 260 anos, teve os mais singelos e belos detalhes totalmente recuperados. Inclusive alguns desconhecidos por historiadores, técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e até pelos mais antigos frequentadores do templo.

Sob camadas de reboco e tinta branca, restauradores contratados pelo Iphan encontraram pinturas decorativas nas paredes laterais do altar-mor e em grande parte do forro de madeira. Os técnicos não conseguiram identificar o responsável pelos trabalhos, pois o autor não deixou assinatura. Mas sabem que as obras têm ao menos 200 anos. “É um grande achado para a cidade, pois, desde o incêndio da Igreja Matriz, quando todos os seus elementos artísticos foram destruídos, Pirenópolis não tinha mais templo com todas as características originais”, ressalta o arquiteto Sílvio Cavalcante, do Iphan.

Raspando as paredes laterais para uma nova pintura, os restauradores encontraram três camadas de desenhos com traços diferentes. Eles decidiram manter e recuperar a última obra, a mais antiga. “Na época, era comum cada padre mandar pintar a igreja a seu modo, seguindo o estilo predominante. Principalmente em Goiás, restaurar pinturas antigas era muito difícil e caro, pois os artistas moravam no Rio de Janeiro, em São Paulo ou na Europa. Nesse caso, mantivemos a pintura mais antiga, porque é a mais harmônica com o teto e o altar”, explica Dulce Senra, chefe da equipe de restauração.

Púlpito e janelão

Os técnicos recuperaram também o brilho das cores das tintas e do ouro dos ornamentos do altar principal e do púlpito, elemento marcante desse templo. O púlpito era muito comum nas igrejas católicas coloniais, mas a maioria acabou destruída após a inutilidade nas missas. Uma espécie de minipalco, todo suspenso e trabalhado, o púlpito servia para o padre fazer a leitura do Evangelho e um sermão na língua nativa, pois, naquela época, as celebrações eram em latim.

Construída entre 1750 e 1754 por escravos vindos da Bahia, sob ordens de um português, a Igreja do Bonfim tem outra particularidade, na parte mais alta do altar principal: um janelão, com pintura sacra, que pode esconder a imagem mais ao fundo. “Esse elemento é muito raro em qualquer região do país”, destaca Sílvio Cavalcante. A imagem que ficará no retábulo-mor, de Jesus crucificado, em talha de madeira e tamanho natural, também está sendo restaurada.

A Igreja do Bonfim conserva ainda quatro sinos centenários. O mais velho foi fabricado em 1756. Dois são de 1803. Outro é de 1886, de excelente sonoridade, premiado com selo do imperador D. Pedro II. Tombado pelo Iphan em 1988, o edifício, que fica em uma colina por onde passa a maior parte dos turistas rumo às disputadas cachoeiras de Pirenópolis, será aberto a missas e à visitação pública após o término do restauro, previsto para abril ao custo de R$ 590 mil. Além de ponto de parada para pedidos de bênção ao Senhor do Bonfim, o templo é palco de algumas das manifestações folclórico-religiosas do município, hoje com 22 mil habitantes e quase 300 anos.