Como nasce uma cidade

DE HOJE A 21 DE ABRIL DE 2012, A CADA QUINZE DIAS,O CORREIO VAI CONTAR COMO O PLANO PILOTO FOI CONSTRUÍDO,OBRA A OBRA, CONCRETO POR CONCRETO, ATÉ SER INAUGURADO

CONCEIÇÃO FREITAS

Será longa e concreta, feita de urbanismo, arquitetura e engenharia,a história que o Correio vai contar desta edição até 21 de abril de 2012.Oque se pretende registrar,duas vezes por mês, sempre aos sábados, é o surgimento do Plano Piloto obra a obra, tijolo por tijolo,numdesenho sólido,como diria Chico Buarque.

Há muitos modos de contar o tempo que durou a construção de Brasília. Pode-se começar pela aprovação, em 19 de setembro de 1956, da Lei nº 2.874, que criou a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), braço do governo federal responsável pelas obras da cidade. Ou pela primeira visita do presidente Juscelino Kubitschek ao local onde a cidade seria erguida, em 2 de outubro de 1956. Pode-se recuar vertiginosamente no tempo e começar pelos primeiros ecos do desejo de juntar o sertão e o litoral num só país. Os inconfidentes,Hipólito José da Costa, José Bonifácio de Andrada e Silva, os mudancistas, aMissão Cruls…

Oupode-se pegar outra estrada,a da ocupação do Planalto Central do Brasil desde a descoberta do ouro pelos bandeirantes ou antes,desde os índios Crixás e Caiapós,ou há dez mil anos, segundo registros arqueológicos da presença humanano território que recebeu a metrópole de 4 milhões de habitantes (contando-se osmoradores doGoiás mais próximo).

É esta a estrada que se vai percorrernaedição de hoje. Qualquer que seja a aritmética, ela terá que somar os dias, as horas e os minutos com que se construiu Brasília desde as primeiras barracas montadas pelo Exército, os feitos seminais do inquieto Bernardo Sayão, o recrutamento atabalhoado de roceiros das fazendas próximas,a chegada dos primeiros caminhões trazendo operários de Araxá (MG) e Rio de Janeiro para erguer o Catetinho.

A primeira parte de “ComoNasce uma Cidade” registra o que existia no Distrito Federal antes de oDistrito Federal existir. A última parte,em 21 de abril de 2012, vai mostrar o que havia na cidade quando ela foi inaugurada. Que obras estavamprontas, quais estavamem construção e, afinal, o que Juscelino e 60 mil homens conseguiramerguer em pouco mais de três anos.

Premonição cravada na terra

Corre vagarosa, miúda e longamente entre os antigos moradores de Planaltina, Brazlândia e Sobradinho a crença de que encostado no Distrito Federal há ouro à espera de garimpo. Ouro de verdade, o minério dourado que enlouquece os homens. A lenda nasceu de um texto escrito por um bandeirante do século 18 em que ele descreve um mapa de uma mina aurífera nas proximidades de Planaltina de Goiás, a 80 km da Rodoviária. Quem estuda a pré-história de Brasília e quem vive neste quadrante desde tempos remotos conhece o Roteiro do Urbano (veja na outra página). Dos antigos aos novos historiadores, todos passaram os olhos por esse documento e se deixaram envolver pela possibilidade de que, em algum lugar entre chapadões, córregos e lagoas, exista a pedra resplandescente.

A lenda do ouro doUrbano é apenas a ponta curiosa deumlongo fio que conduz a história deBrasília. Avinda de Juscelino Kubitschek e os demais para o sertão goiano, em 1956, é o trecho mais vistoso desse novelo e por isso mesmo obscurece narrativas deumtempo duzentas vezes maior que os 51 anos de Brasília. Registros de arte rupestre em Formosa e de artefatos feitos pelo homem em Taguatinga e no ParqueNacional de Brasília indicam que a capitaldoBrasilmodernoé habitadahámais de dez mil anos.Obrasiliense pré-histórico deixou cravadas na pedra e enterradas no chão as marcas de sua existência.

O território onde há meio século se ergue a capital do país vem sendo percorrido, visitado, estudado e tem sido habitado por grupos humanos diversos—índios, escravos, bandeirantes, sertanejos, desbravadores estrangeiros e brasileiros, tropeiros, roceiros, fazendeiros, mistura que resultou numa gente que o historiador Paulo Bertran chamou de “cerratense”.

Tanta diversidade histórica acabou soterrada pelo furacão modernista que aqui se instalou a partir de 1956, desde que Juscelino estufou o peito e decretou que“deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais…”. Estava decidida a versão predominante da história, a de que neste naco deGoiás havia tão-somente“solidão”.

Para dissolver o tufão e desvelar a história goiana aqui sedimentada ao longo dos séculos, pesquisadores de diversas áreas do conhecimento têm se dedicado a resgatar e reconstituir a ocupação do Planalto Central. Na Universidade de Brasília (UnB), historiadores, arquitetos e cartógrafos vão em busca de estradas do período colonial que cortava o DF ao norte; há mais de 30 anos, arqueólogos de Brasília e Goiânia furam o chão em busca de rastros da presença do brasiliense pré-histórico. O superintendente do Arquivo Público doDistrito Federal, Gustavo Chauvet, decidiu mudar o roteiro até agora estabelecido para a proteção da memória de Brasília. “Todos falam das ideias mudancistas, a ideia, a ideia ..., mas há uma outra vertente, que é a história da ocupação do território. O que vamos fazer é integrar as duas histórias”, diz Chauvet. A história da ideia vem de fora; a da ocupação vemde dentro.

Autor de extenso estudo sobre a ocupação remota da região, Chauvet pôs na capa do livro o mapa que mostra a formação territorial do DF que, para surgir, tirou terras de Formosa, Planaltina e Luziânia. Outra imagem que registra fortemente a existência deumpovo sertanejo habitando essas paragens é um mapa feito pela Comissão de Cooperação para aMudança da Capital Federal, composta por goianos em febril campanha pela interiorização do poder (veja na página ao lado). Assinado pelo engenheiro JoffreMozart Parada, pelo jornalista Zoroastro Artiaga e pelo médico e pecuarista Altamiro deMoura Pacheco, o mapa mostra que havia 96 fazendas no DF—número que marca a origem de todo o caos fundiário do quadradinho.

“Vastíssimo vale”

Desde sua morte, em 2005, o historiador Paulo Bertran tem se transformado numa espécie de referência mítica de um modo de contar a história de Brasília—a partir da história goiana, da dos índios e dos cerratenses, da ocupação da terra desde muito antes de o avião de asfalto e concreto aterrissar num majestoso vale rodeado por um anel de chapadas.Majestoso, aliás, é o adjetivo que AugusteGlaziou, botânico e paisagista francês, integrante daMissão Cruls, usou para descrever o que viu quando aqui aportou:“… cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama,Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros; impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale”.

O botânico referia-se ao domo que acolhe todo o Plano Piloto, de uma asa a outra, da Praça dos Três Poderes aos fundos da antiga Rodoferroviária. Domo, no vocabulário geológico, é uma elevação do solo com a forma acentuada de uma meia esfera. No dizer do professor Antonio Carlos Carpintero, da arquitetura da UnB, o Plano Piloto está deitado “no estufado de uma bacia”. A imagem figurativa é a de uma vasilha de formato circular, oval, de bordas altas, tal qual o utensílio doméstico. Com uma diferença, porém. A bacia onde se estende o projeto de Lucio Costa tem o fundo proeminente, “como se alguém a tivesse chutado por baixo”, descreve Carpintero

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Quando acompanhou Cruls, em 1892, Auguste Glaziou estava com 60 anos e já havia projetado e reformado diversos jardins imponentes no Rio de Janeiro. Não se deixou desanimar diante da vastidão do Cerrado. Depois que a expedição montou barracas nas proximidades do hoje chamado Córrego Acampamento (dentro do ParqueNacional de Brasília), o francês saiu a campo: “…quase que diariamente percorri, herborizando cá e lá, oraumaparte, ora outra, desse calmo território e dessas excursões voltava sempre encantado; cem vezes as repeti, quase sempre a pé para facilidade das observações, emtodos os sentidos e sem a menor fadiga, tão benéfica é aí a amenidade atmosférica”. Desses passeios, Glaziou concluiu que ali era o lugar perfeito para erguer uma cidade. “Nesse sítio, ainda, a extrema suavidade dos acidentes naturais do terreno não requer trabalho algum preparatório, nenhum para o arruamento ou delineação dos bulevares, nem para a edificação, numaou noutra direção.”

A vasta planície mantinhase esquecida.Todo o movimento entre Luziânia, Formosa e Planaltina, cidades prexistentes, fazia-se ao redor da área hoje ocupada pelo Plano Piloto. Sozinha, esperava por Brasília. Mais de 50 anos depois da passagem de Glaziou, técnicos norte-americanos da Donald J. Belcher & Associates aterrissaram, em 1954, no quadrilátero demarcado pelaMissão Cruls para esmiuçar a geologia e a topografia da região onde,quemsabeumdia, seria construída a nova capital.Definiramcinco áreas para que fosse escolhida aquela que abrigariaBrasília.

A descrição do Sítio Castanho, o escolhido, supera de longe a descrição dos demais. “A fisiografia deste sítio, a 25 quilômetros a sudoeste de Planaltina, é inteiramente diferente da dos outros quatro…”—assim começa a descrição quase lírica dos técnicos americanos. “A extensa planície, de suave declividade para os rios limítrofes, presta-se ao desenvolvimento de uma grande cidade de qualquer tipo possível, sem a obrigação de interromper acidentes topográficos”.

E mais adiante, quase num revelação premonitória: “Os vales em si poderiam ser desenvolvidos para edifícios públicos e a sede do governo”. A equipe de Belcher parecia torcer vivamente para que Brasília fosse construída no SítioCastanho.Na descrição do SítioVerde, há uma demonstração dessa suspeita: “Este sítio tem uma característica de grandeza somente compartilhada pelo Sítio Castanho”.Grandioso, majestoso—foram os adjetivos usados pelaMissão Cruls e pelo Relatório Belcher, os dois documentos científicos mais importantes da pré-história de Brasília.

Não é majestático apenas por sua topografia estufada e em suave declive. Parece ter sido desenhado a dedo por um anjo da guarda de Lucio Costa. O sítio era demarcado por dois córregos, o Bananal eoRiachoFundo,coma afluência doVicente Pires, doTorto, doVicente Pires, do Guará e dos demais fios de água que descem em direção a uma garganta borbulhante, a Cachoeira do Rio Paranoá. Se o chão onde existe o Plano Piloto parecia ter sido desenhado a dedo pela geologia para receber uma cidade, a leste do terreno havia uma depressão que, do mesmo modo, havia sido esculpida para receberumlago artificial, sem necessidade de nenhuma obra de engenharia, excetoumabarragem.

Assim percebeuobotânico francês,emsuas andanças encantadas,em1892, vale repetir.“Fechando essa brecha com uma obra de arte (…) forçosamente a água tomará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos, num comprimento de 20 a 25 quilômetros sobreumalargurade16 a 18.Alémdautilidadede navegação, a abundância de peixes, que não é de somenos importância, o cunho de aformoseamento que essas belas águas correntes haviam de dar à nova capital despertariam certamente a admiração de todas as nações.” O Plano Piloto era uma premonição cravada na Terra.

A LENDA DO OURO

Neto de um adolescente que serviu de guia para a Missão Cruls,o historiador Mario Castro já percorreu, várias vezes, o que pode ser o Roteiro do Urbano,uma delas com Paulo Bertran e o fotógrafo Rui Faquini.Dias antes de morrer, Bertran havia mais uma vez insistido com Castro para que os dois sobrevoassem a região e novamente tentassem decifrar as indicações topográficas deixadas pelo português Urbano Couto deMenezes que levariam a uma suposta mina de ouro entre Planaltina de Goiás e oDistrito Federal.

Obandeirante esteve nas proximidades do atual território do Distrito Federal em 1750. Era a segunda entrada nos sertões do Planalto Central. A primeira havia sido feita, em 1722, com Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera Filho, descobridor das minas de ouro de Goiás Velho, em 1725.Urbano voltou depois, guiando Manuel Rodrigues Tomar, em expedição que encontrou o ouro de Pirenópolis.

Daí em diante,Urbano Couto estaria fortemente ligado à história deste pedaço deGoiás. Está na memória de Taguatinga—a fazenda de mesmo nome, no mesmo lugar, pertenceu a Antonio Couto de Abreu, filho de Urbano. Está na história deVicente Pires, a cidade nascida de uma colônia agrícola que ficava à margem da Estrada do Urbano, uma das oito trilhas históricas que cortavam o norte do quadradinho, de leste a oeste, como registra Lenora de Castro Barbo, autora da dissertação Preexistências de Brasília. Há mais sinais da passagem de Urbano pelo Distrito Federal.Na extremidade norte do território, perto dos povoados de Córrego do Ouro e Catingueiro, havia uma fazenda chamada Santa Cruz do Urbano. Acredita-se que Urbano tenha morrido em Jaraguá (Goiás), aos 70 anos.

As três lagoas a que se refere o desbravador são, na interpretação do historiador goiano, a Formosa, a Bonita e a Bom-Sucesso.O“poço sem praia e sem alcance de fundo” seria, na versão deCastro,umalagoa atualmente poluída que fica nos arredores próximos da cidade goiana. De Planaltina deGoiás vê-se na direção do pôr do sol um“morro do feitio de uma canastra”.De lá, ainda seria necessário identificar outras referências para que, finalmente, se chegasse ao lendário Roteiro do Ouro do Urbano. MárioCastro conclui:“O Urbano é de verdade, o ouro é de verdade e o roteiro leva jeito de ser de verdade”.

Fotos: Arquivo Público do DF - Região onde o Plano Piloto foi construído. A foto do Arquivo Público do DF não identifica o local exato



Longa jornada de um sonho

Mais de 20 anos antes de Juscelino construir brasília, já havia brasileiros esboçando projetos para a nova capital. Cinco foram feitos entre 1927 e 1955. todos tinham em comum o desejo de forjar uma identidade nacional. Entre os projetistas, havia uma mulher

Conceição Freitas

Predomina fortemente na consciência nacional a ideia de que Juscelino Kubitschek decidiu construir Brasília depois, e só depois, de ouvir uma pergunta de um corretor de seguros num comício em Jataí (Goiás) quando ainda era candidato à Presidência da República. E que, a partir de então, fez as pedras voarem para que a nova capital fosse construída em menos de quatro anos. Não foi exatamente assim.

As pedras só puderam voar porque, muito antes de Juscelino ser eleito, muita gente trabalhou duro para dar concretude ao sonho ancestral de transportar a capital do país do litoral para o sertão. Brasília só ficou pronta em três anos e dez meses, um pouco mais ou um pouco menos, porque o terreno já estava escolhido, estudado e demarcado. Se sabia tudo sobre a topografia da área, se sabia onde e como buscar água para as obras, onde e como obter energia elétrica. Já se havia até ensaiado a construção de outras cidades no exato lugar onde a cidade definitiva seria erguida. E, mais importante: Juscelino já encontrou o lote desapropriado, a despeito das irregularidades resultantes dessa confusa desapropriação.

Consultem-se as últimas páginas de qualquer livro, dissertação ou ensaio sobre a história da mudança da capital e se verá na bibliografia — é inevitável — os relatórios Cruls e Belcher, extensos e minuciosos estudos técnicos feitos em 1892 e 1894 e 1954/1955. Há um terceiro conjunto de documentos, não tão conhecidos, que comprovam a tese: quando o goumert Juscelino foi preparar o jantar já encontrou o supermercado feito, as iguarias compradas, separadas, tratadas e os utensílios domésticos dispostos na bancada da cozinha. Faltava só acender o fogo e misturar os temperos. Não era pouco, mas não era tudo.

Para o diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB), Andrey Rosenthal Schlee, o embaçamento da história anterior à chegada de Juscelino não foi uma decisão de má-fé. “O momento era outro. A pressão política era enorme. Para construir Brasília, foi necessário montar uma estratégia legitimadora, que levou a uma desvalorização ou apagamento da história anterior a Brasília”. Foi preciso reforçar “a ideia de uma terra virgem, sem vida, antes da construção da capital”. Daí, ele acredita, ter sido necessária a invocação do sonho de Dom Bosco, que, segundo registros históricos, não traz indicações de ter sido exatamente como a versão do governo JK passou a propagar. Não importa se verdade ou nem tanto, era preciso um santo para sacralizar a obra.

Foi assim que o projeto vencedor do concurso do Plano Piloto, assim como os outros 26 concorrentes, puderam se abastecer nos estudos de Cruls, Belcher e das comissões lideradas pelo marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Os estudos conduzidos por Pessoa culminaram em um projeto de capital, a que ele deu o nome de Vera Cruz. A Brasília de Pessoa foi idealizada por três profissionais da melhor qualidade, Raul Penna Firme, José de Oliveira Reis e Roberto Lacombe, todos eles professores da Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil. Vera Cruz, se construída, seria tão geometricamente moderna quanto Brasília (veja info). Teria dois eixos que se cruzavam e um lago a leste da cidade.

Antes, porém, de Vera Cruz, quatro outros projetos de nova capital do Brasil foram elaborados entre 1927 e 1955 (veja info). Vale ressaltar que só em 1956 foi realizado o projeto oficial para a escolha do Plano Piloto. Desse conjunto, três escolheram o vale entre os córregos do Torto e do Riacho Fundo para desdobrar a cidade planejada, o de Vera Cruz, o da engenheira Carmen Portinho e o de Planópolis (localizado um pouco mais a oeste, próximo de onde é hoje a Epia—Estrada Parque Indústria e Abastecimento).

Os cinco projetos têm, entre si, forte parentesco: “Trazem em seus desenhos e memoriais a expressão do anseio de construção de uma identidade nacional”, diz Jeferson Tavares, professor de urbanismo das Faculdades Metropolitanas Unidas (SP) e pesquisador do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Tavares foi um precursor das pesquisas que revelaram a existência de outros projetos para Brasília anteriores a 1956. Esses projetos pioneiros, tanto quanto os apresentados no concurso oficial, “constroem, espacialmente, o desejo de uma cidade que integre o território, sintetize as artes nacionais e se consuma como expressão de seu povo.”

OS PROJETOS

PLANÓPOLIS/1927
girando em circunferência

Quando, em 1922, o presidente Epitácio Pessoa, mandou fincar a pedra fundamental da nova capital em Planaltina, o intendente Deodato do Amaral Louly criou alguns loteamentos no município: o de Planópolis (na Fazenda Bananal), o de Planaltinópolis (nas fazendas Monjolo, Bom Sucesso e Lambari), a Vila Federal (na fazenda Bom Sucesso), o de Platinópolis (na fazenda Pipiripau), a Sociedade Anônima Planalto Central de Goiás (na fazenda Salvia) e o loteamento de Nossa Senhora de Fátima (na fazenda Mestre d’Armas). O professor Andrey Schlle, responsável pelo levantamento, acredita que todos esses parcelamentos tenham sido criados no final da década de 1920.

O loteamento de Planópolis está registrado no Cartório de Registro de Imóveis de Planaltina. Não se sabe quem desenhou o projeto, mas pode-se aferir que foi alguém com algum conhecimento de topografia e urbanismo. Planópolis inspira-se em outras cidades planejadas, como Washington, por exemplo. De traçado geométrico, é composto por duas malhas, umaortogonal e outra diagonal. Uma grande circunferência corta essas malhas e dentro dela está alojado o plano piloto de Planópolis. O centro desse plano é ocupado pela estação ferroviária.

BRASÍLIA/1929
Morando em casco de tartaruga

Não se sabe muito sobre o autor do projeto Brasília, Cidade História da América, Theodoro Figueira de Almeida. Feito em 1929, como parte das comemorações do centenário do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, foi publicado no ano seguinte no jornal A Ordem, do Rio de Janeiro, e em 21 de abril de 1960, pelo Correio Braziliense. A Brasília de Theodoro tem a forma de um casco de tartaruga, imagem usada pela professora de arquitetura Sylvia Ficher em estudo sobre as Brasílias de antes do concurso de 1956.

A Brasília de 1929 tem uma trama urbana quadriculada, com grandes avenidas que terminam em grandes praças e toda ela contornada por grandes alamedas e estradas. O desenho, diz Jeferson Tavares, incorpora “a forma tradicional de cidade fechada, com grandes eixos monumentais e uma malha diagonal sobrepondo-se à malha reticulada a exemplo de Versalhes, Washington e Belo Horizonte”. O projeto de Theodoro é dividido em setores, zoneamento ainda superficial diante do que surgiria com o urbanismo moderno.

O projeto representa um período “em que suscitavam, na sociedade, discussões em torno da construção dos valores nacionais. Nesse período, fim dos anos 20, a intelectualidade brasileira começava a esboçar aquilo que, a partir dos anos 50, formaria as principais obras sobre a identidade nacional.” Sendo assim, o projeto “valoriza os fatos históricos na sua reprodução em forma de traçado urbano”. Personalidades brasileiras e americanas e datas nacionais dão nome a ruas e praças. “Assim, a Nova Capital Federal deveria exaltar a ideologia dos símbolos nacionais, dialogando com as vertentes metodológicas do seu período e enaltecendo os dados históricos”, escreveu Tavares, em sua dissertação de mestrado. “A história seria, portanto, o principal elemento da construção de uma cidade voltada para o futuro”.

A nova capital teria uma grande praça, da República, ao centro. Numa das extremidades, a Praça do Cruzeiro. Na extremidade oposta, a Praça Isabel, a Catholica. A principal avenida se chamaria José Bonifácio, em homenagem a um dos mais ilustres defensores da interiorização da capital. Um dos parques se chamaria D. Pedro I e haveria uma esplanada de nome Santos Dumont. E a universidade se chamaria Brasílica.

Entre os homenageados com nomes de lougradouros na Brasília de Theodoro estavam os previsíveis Tiradentes, Rondon, Castro Alves e José Bonifácio e os inesperados Adam Smith e Grahan Bell.

O que se sabe de Theodoro Figueira de Almeida é que ele foi historiador e ocupou a secretaria da Presidência do governo Hermes da Fonseca (1910/1914).

CARMEN PORTINHO/1936
a nova capital de uma mulher

Vinte anos separam o projeto da engenheira Carmen Portinho do de Lucio Costa. Também os separa a motivação que os levou a projetar uma nova capital para o país. Portinho o fez como lição de casa: Seu “Anteprojeto para a futura capital do Brasil no Planalto Central” foi apresentado como dissertação do curso de pós-graduação em urbanismo da antiga Universidade do Distrito Federal. Era exigência para que a ela fosse concedido o título de urbanista. Foi a primeira mulher brasileira a ter o diploma de urbanismo — documento que foi assinado por Mário de Andrade.

Carmen Portinho deixou marcas significativas de sua presença no mundo. Nascida em Corumbá (MT), ainda criança se mudou com a família para o Rio de Janeiro. Terceira mulher a se formar em engenharia no país, foi ativista dos direitos políticos femininos. Junto com a zoóloga Bertha Luiz, bateu na porta de Getúlio Vargas, ainda em 1930, para reivindicar o direito das mulheres ao voto. Casada com Affonso Eduardo Reidy, um dos mais importantes arquitetos brasileiros, Carmen Portinho fez parte dessa vanguarda. Portanto, conheceu e conviveu com Lucio Costa e Oscar Niemeyer.

Simpatizante, segundo alguns, do trotskismo, a urbanista não se casou de papel passado. Diz-se que essa foi mais uma de suas atitudes revolucionárias.

Para a professora de arquitetura Eline Maria Pereira Caixeta, da Universidade Federal de Goiás, o projeto de Portinho para a nova capital do país, feito em 1938, “foi base para a introdução do discurso moderno da cidade funcionalista no Brasil”. Em texto que procura comparar os dois projetos, o da urbanista e o de Lucio Costa, Eline Caixeta associa o desenho de Portinho ao de um transatlântico. Teria de ser um território maior que um avião — Portinho planejou uma capital para 2 milhões de habitantes.

Assombroso, porém explicável, é verificar que a urbanista pousou seu projeto de cidade no mesmo lugar onde, 18 anos mais tarde, Lucio Costa aterrissaria Brasília — no extenso vale contido pelos córregos do Torto e Riacho Fundo. Para escolher o lugar onde plantaria seu projeto de cidade, Carmen Portinho foi buscar ajuda no Relatório da Missão Cruls (1892/CONFERIR). Deve ter passado, pode-se supor, pela descrição que o botânico Auguste Glaziou faz do local onde se assenta o Plano Piloto (“… cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, riacho Fundo, Bananal e outros; impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale”). Como diz Jeferson Tavares, Portinho “cola o projeto dela junto aos rios, ela acompanha as curvas de nível, se insere na topografia de uma forma muito racionalizada”.

Dos cinco projetos feitos antes do concurso oficial de 1956, o da engenheira é “o mais bem acabado”, diz Portinho. “É um projeto que pesquisa soluções. Está mais próximo das matrizes européias e norte-americanas de urbanismo. Carmen Portinho visualizava tudo em três dimensões, tanto que fez maquetes do projeto. Ela tinha o domínio do produto final, coisa que os demais não tinham.”

O transatlântico projetado pela engenheira era setorizado de acordo com usos e densidades específicas. Zonas residenciais, centro de negócios, centro cívico, centro cultural, parques, zona de transporte, setor de hotéis e embaixadas, zona industrial, como relata a professora Eline Caixeta em Brasília: a cidade dos desejos, reflexões acerca das cidades projetadas por Carmen Portinho e Lucio Costa. A Brasília de Portinho tinha autoestradas elevadas, como uma imensa trama de viadutos. Também tinha superquadras, de 700m x 200m. Os prédios tinham pilotis e no teto, em vez de telhas, “praias artificiais, solários…”. Descreve Portinho: “Os espaços verdes estendem-se por toda a cidade, rodeando não só os edifícios da zona residencial como também os localizados nos centros de negócios, cívico, culturais e desportivos.” Carmen Portinho morreu em 2001, aos 98 anos.

JALLES MACHADO/1948
Ligando o sertão ao país

O projeto de 1948, de Jalles Machado de Siqueira, não é exatamente um esboço de cidade. É uma proposta de malha rodoviária ligando todo o país à capital federal, quando ela fosse construída. Mineiro radicado em Goiás, deputado federal pela UDN, topógrafo, fazendeiro, construtor de usinas hidrelétricas, Jalles Machado esboçou um extenso plano viário, com vias perimetrais e radiais, e propunha meios de se conseguir recursos para as obras rodoviárias e de construção da cidade a partir da combinação de capital público e privado. Com o projeto, Machado pretendia reforçar a ideia de se transferir a capital para Goiás. Mostrava, com o entrelaçamento viário, que a cidade não ficaria isolada do restante do Brasil, como temiam os que se opunham à ideia.

Meses antes de apresentar seu projeto, Jalles Machado subiu à tribuna da Câmara Federal e defendeu a construção de uma rede rodoviária para ligar o Planalto Central a todo o território nacional. “As vias de transporte serão, não tenhamos dúvida, a varinha de condão com que operaremos o milagre de tornar o Brasil uma potência, pois com elas elevaremos a nossa produção e o nosso nível de vida à altura de nossa grandeza territorial e demográfica”. Machado também foi precursor da ideia de se ligar o Norte ao Centro-Oeste. Ele apresentou à Câmara o projeto da rodovia Anápolis-Belém, mas a proposta foi considerada infactível, por razões técnicas, políticas e econômicas. Nem se sabia como enfrentar a Floresta Amazônica, nem se sabia de onde retirar recursos e nem havia disposição política para tanto.

VERA CRUZ/1955
Um Plano Piloto quadriculado

Menos de um ano antes da publicação do edital que lançou o concurso para a escolha do Plano Piloto de Brasília, três dos mais respeitáveis engenheiros brasileiros da época, Raul Penna Firme, Roberto Lacombe e José de Oliveira Reis, esboçaram um projeto urbanístico para a nova capital. O grupo originalmente encarregado de projetar a cidade incluía o paisagista Roberto Burle Marx e os arquitetos Affonso Eduardo Reidy e Stelio de Moraes. Esses três, mais Penna Firme e Reis haviam sido formalmente convidados pelo marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, presidente da Comissão de Localização da Nova Capital Federal, para projetarem a cidade.

Mas Burle Marx, Reidy e Moraes não compareceram às reuniões, “embora mais de uma vez fosse solicitada a sua cooperação”, registrou o marechal no livro Nova Metrópole do Brasil, publicado pela Imprensa do Exército, em 1958. “Em vista disso fomos obrigados a convidar o professor Roberto Lacombe para integrar a subcomissão”. Começados os trabalhos, surgiu a ideia de se convidar “um urbanista estrangeiro” para “orientações gerais”. Tratava-se do arquiteto franco-suíço Le Corbusier, um dos formuladores dos preceitos da arquitetura moderna.

A reação de Pessoa foi nacionalista: “Discordamos da ideia por conhecermos a comprovada autoridade dos técnicos brasileiros, bastante capazes de assumirem a responsabilidade da execução dos trabalhos de planejamento da nova capital. Seria mesmo a primeira oportunidade para que os engenheiros brasileiros, que tanto têm contribuído para o progresso, o desenvolvimento e a beleza das nossas grandes cidades, realizassem, no setor de urbanismo, uma obra de grande envergadura”, decidiu o marechal.

Mãos à obra, portanto.

À nova metrópole, o marechal deu o nome de Vera Cruz, primeira designação dada à suposta ilha descoberta pela armada do português Pedro Álvares Cabral. “Vera Cruz significa, pois, uma veneranda tradição de nossa Pátria, envolve-nos carinhosamente sob o manto da fé, relembra-nos o primeiro nome dado ao nosso país — o título que, num momento de alegria, de exaltação e de vitória, aflorou aos lábios do grande descobridor, ao contemplar os sinais da terra brasileira.”

A nova cidade foi esboçada em um “Estudo Preliminar para a cidade de Vera Cruz, futura capital do Brasil”. Em vários sentidos, tratava-se de um projeto pioneiro, segundo ensaio dos professores de arquitetura Andrey Schlee e Sylvia Ficher, da Universidade de Brasília (UnB). “Primeiro, porque assume a presença do lago Paranoá, dando-lhe a devida importância na organização urbana”, escrevem Schlee e Ficher. Como no projeto de Carmen Portinho e no de Planópolis, a nova capital surgia no imenso vale contornado pelos córregos Torto, Bananal, Riacho Fundo e Vicente Pires.

Vera Cruz é projeto de cidade formado por grandes quadras — cada uma com, aproximadamente, um quilômetro de lado. Dois eixos principais se cruzam em viaduto bem no centro da cidade — no sentido leste-oeste, a Avenida Independência; e, no sentido norte-sul a Avenida Bandeirantes (ou do Comércio). Cruzamento que garante “o caráter monumental dos espaços que abrigam suas funções primordiais”. Duas amplas avenidas partem de uma rotatória, em formato de V. Na base do V, situa-se o Panteão Nacional. O vão do V forma uma praça triangular, onde se localiza a Tribuna Pública. O V termina nas margens do lago e antes de nele chegar abriga um parque onde estão localizadas as universidades, as áreas esportivas e os jardins zoológico e botânico.

FONTES DE PESQUISA
» Affonso Eduardo Reidy, da Coleção Arquitetos Brasileiros, organização de Nabil Bonduki, Editora Blau/Instituto Lina Bo e M.M.Bardi
» Brasília: a cidade dos desejos, reflexões acerca das cidades projetadas por Carmen Portinho e Lucio Costa, ensaio de Eline Caixeta publicado na revista Visualidades, da UFG
» Brasília, memória da construção, L.Fernando Tamanini, Projecto Editorial, 2ª edição, 2003
» Brasília, o enigma da esfinge, a construção e os bastidores do poder, Luís Carlos Lopes, Editora Unisions e Editora da Universidade/UFRGS, 1996
» Carmen Portinho, o moderno em construção, Ana Luiza Nobre, editora Relume-Dumará
» História de Brasília, Ernesto Silva, Linha Gráfica Editorial, 1999
» Nova metrópole do Brasil, José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Imprensa do Exército, 1958
» Os projetos para Brasília e a construção da identidade nacional, Jeferson Cristiano Tavares, www.docomomo.com.br
» Por toda a minha vida, Geraldo Edson de Andrade, editora Eduerj, 1999
» Revista Veja, Brasília, 50 anos, editora Abril, novembro de 2009
» Vera Cruz, futura capital do Brasil, l955, Andrey Schlee e Sylvia Ficher, ensaio apresentado no 9º Seminário de História da Cidade e do Urbanismo, FAU/USP, 2006

Comissão de Localização da Nova Capital do Brasil/Divulgação
Este é o projeto de Congresso Nacional, feito pelo arquiteto Raul Penna Firme para a cidade de Vera Cruz


Com quantos goianos se faz uma utopia

2 de outubro de 1956. Juscelino e comitiva vêm conhecer o local onde Brasília seria construída. A rude infraestrutura que o recebeu havia sido montada para outro presidente, Café Filho, que não veio. E, ao contrário do que todos ali imaginavam, aquele ermo era aparente

Conceição Freitas

Três apontamentos sobre Brasília que pouco se lê ou se ouve falar:

1 — Quando Vinicius de Moraes escreveu que “no princípio era o ermo”, ele não enxergou o homem sertanejo que há séculos habitava “as antigas solidões” e que, portanto, não eram tão solitárias assim. Ao compor, com Tom Jobim, a pedido de Juscelino, a Sinfonia da Alvorada, o poeta não teve olhos para ver o que havia de vida cultural, religiosa e produtiva dentro e fora do retângulo do Distrito Federal. Nem ele nem os demais que vieram construir a nova capital.

2 — Quando Juscelino, a 2 de outubro de 1956, desceu pela primeira vez nas terras onde Brasília seria construída, a pista de pouso de 2,7 metros, riscada no Cerrado, e o barracão comprido de vigas tortas e cobertura de palha de buriti tinham sido construídos para receber um outro presidente, Café Filho. A pista de pouso próxima à Fazenda do Gama e o cruzeiro tosco fincado no ponto mais alto do terreno haviam sido preparados para a visita do presidente que sucedeu Getúlio Vargas.

3 — Quando Antônio Soares Neto, o Toniquinho, fez a célebre pergunta a Juscelino, no comício em Jataí (GO), em 4 de abril de 1955, o candidato a presidente da República já estava plenamente informado do movimento mudancista goiano e foi ao interior do estado para lançar a sua meta-síntese, construir Brasília e transferir os Três Poderes. Durante a Constituinte de 1946, JK havia lutado fervorosamente para incluir na nova Carta a mudança da capital. Há quem sustente que Toniquinho apenas cumpriu um papel num cenário já previamente desenhado.

Meio século depois de inaugurada a cidade, a versão mais conhecida da construção de Brasília vem sendo revisitada por novos historiadores interessados em desfazer mitos sedimentados nos últimos 55 anos. Um desses pesquisadores, Luiz Ricardo Magalhães, defendeu e teve aprovada a sua tese de doutorado em história pela Universidade Federal de Goiás, em dezembro passado, na qual investigou o modo de vida dos moradores de Formosa e Planaltina nos cem anos que antecederam a construção de Brasília.

A tese, que será editada em livro ainda neste semestre, tem um título revelador em si mesmo: Sertão planaltino – cultura, religiosidade e política no cadinho do modernismo. Nascido em Formosa, Magalhães experimentou, desde muito jovem, a sensação de inexistência, de invisibilidade, que foi imposta aos moradores dos três municípios pelos que aqui chegavam trazendo os tratores e a modernidade para construir a nova capital. “Sempre estranhei essa coisa de dizer que Brasília foi inventada a partir de JK, mas a vida foi passando. Até que fui trabalhar na Administração de Planaltina e via uma cena recorrente: advogados vindos do Rio e de São Paulo, representando herdeiros das terras do Distrito Federal.”

Acendeu-se em Luiz Ricardo a luzinha da inquietação investigativa e, historiador formado, decidiu pesquisar a história de dois dos três municípios (Planaltina, Formosa e Luziânia) que cederam suas terras para a formação do DF. Luziânia, ele explica, merece uma tese só para ela. Descobriu que, desde 1922, quando da instalação da pedra fundamental da nova capital em Planaltina, muitos loteamentos foram criados. Mais de cem mil, dos quais quase 60 mil só no Plano Piloto. “Até em Paris e Buenos Aires se vendeu lote”, conta Magalhães. “Comecei a perceber que Brasília foi a materialização de uma utopia nacional, mas uma utopia muito própria dos planaltinos.” Planaltinos, explica o historiador, é um termo criado pelo jornalista goiano Zoroastro Artiaga (1891/1972) para definir a gente dos três municípios formadores do Distrito Federal.

Foi uma visita nobiliárquica que inoculou nos planaltinos a ideia de que a nova capital do país um dia seria plantada num lugar muito próximo a eles. Francisco Adolfo de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro (1816/1878), esteve em Formosa (GO) em 1877. Na estada de 15 dias, o visitante conclui que o triângulo formado por três lagoas (Feia, Formosa e Mestre d’Armas) era o melhor lugar para se instalar a nova capital. A partir daí, os goianos das três cidades começaram a projetar no horizonte a possibilidade de serem vizinhos da Presidência da República. “As elites letradas passaram a ter um projeto de sociedade vinculado à mudança da capital. Havia comissão mudancista em Formosa e Luziânia e clubes mudancistas em Planaltina.” Em sua investigação histórica, Luiz Ricardo Magalhães recupera a riqueza cultural, religiosa e política que brotava nos três municípios. “Havia uma jazz band em Planaltina. Na década de 1950, surge em Formosa o Jornal do Planalto. “Não era um panfleto. Tinha o acabamento de um Correio Braziliense, com fotos e tudo. Durou dez anos.”

Quem, entre muitos, compartilha da mesma inquietude de Magalhães diante da versão mais propagada da história da mudança da capital é o ex-deputado distrital e atual assessor de assuntos internacionais do GDF, Salviano Guimarães. Para mostrar que havia uma elite culta em Planaltina, Guimarães conta: “Meu avô só não formou dois filhos. Formou todos os outros – médico, dentista, advogado, as mulheres eram todas professoras. Não formou um porque ele fugiu do colégio e o outro porque teve de parar de estudar para cuidar dos irmãos quando meu avô morreu”.

Havia gado, engenhos de cana, de arroz e de café, plantio de moinhos, fábrica de cal, indústrias extrativistas, fabricação de marmelada e goiabada, produtores de charque, carne de sol, banha, toucinho e curtumes, conforme quantifica minuciosamente o agrônomo Antonio de Arruda Câmara em estudo produzido em 1948 para a Comissão de Estudos para a Localização da Capital.

O exemplo serve para dissolver a ideia de que, antes de Brasília, o que havia aqui era uma população rarefeita e chucra. Não se trata, explica Guimarães, de retirar de Juscelino os seus muitos méritos, mas de devolver aos goianos os muitos méritos que tiveram na transferência da capital. “Juscelino percebeu que Brasília poderia significar um chamamento nacional. Com a morte de Getúlio [Vargas], o povo estava desesperançado, o país estava em situação de descrédito. Ele, então, teve a ideia de instigar o orgulho nacional e faz de Brasília a sua grande pregação. Juscelino sabia que as nações são construídas com ideias e desafios.”

O PRESIDENTE ERA OUTRO
Praticamente toda a franciscana estrutura que esperava Juscelino Kubitschek e sua comitiva em 2 de outubro de 1956, dia da primeira visita presidencial ao sítio de Brasília, havia sido preparada para receber Café Filho. Quem conta é Adirson Vasconcelos, autor de mais de uma dezena de obras sobre a história da cidade: “Em 1955, Bernardo Sayão abriu uma pista de pouso e um rancho para passageiros, o chamado aeroporto Vera Cruz, onde hoje é a Rodoferroviária. Ele também abriu uma trilha ligando o aeroporto à Fazenda do Gama. Tudo isso para receber Café Filho, que acabou não vindo conhecer o sítio de Brasília.”

Um vice-governador, um secretário de Fazenda e um engenheiro — Bernardo Sayão, Peixoto da Silveira e Joffre Mozart Parada — foram os que fincaram a primeira cruz de madeira no ponto mais alto da região, onde hoje é Praça do Cruzeiro. Isso também em 1955. “Era uma cruzinha quase de graveto. Tem até uma foto mostrando Sayão e Peixoto debruçados sobre a cruz para fincá-la no Cerrado”. Alguns meses depois, uma cruz de pau-brasil foi colocada no lugar. Anos mais tarde, ela foi levada para a Catedral de Brasília e em seu lugar outra foi fincada.

TONIQUINHO JK
Aos 85 anos, morando em Goiânia, o advogado Antônio Soares Neto mantém genuíno sotaque goiano, imutável bom humor e inesgotável disposição para repetir pela milionésima vez a pergunta que fez a Juscelino em 4 de abril de 1955, durante o primeiro comício do candidato do PSD (Partido Social Democrático) à Presidência da República. Toniquinho JK, como é conhecido e como vem impresso no cartão de visitas, é frequentemente homenageado, está em todos — ou quase todos — os livros sobre a história de Brasília, mas não se irrita quando lhe perguntam se, afinal, Juscelino não tinha já tudo preparado na cabeça. “Ele disse que não foi isso não. Quando ele abriu a palavra no comício, houve aquele silêncio. Goiano, sabe como é, é tímido. Criei coragem, e com o coração saindo pela boca, levantei o dedo e fiz a pergunta.”

Havia um elo familiar e afetivo que ligava os dois principais personagens desse cenário. Chamava-se Serafim de Carvalho, líder político pessedista da região de Jataí, primo de Toniquinho e amigo de Juscelino desde os tempos de Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Advogado ainda em atividade, Toniquinho conta que houve várias reuniões preparativas para receber o candidato a presidente da República. Naquele tempo, a mudança da capital era uma espécie de epidemia febril que acometia os goianos. Um candidato era mais uma chance de trazer a modernidade para bem perto.

O historiador Ronaldo Costa Couto, autor de Brasília Kubitschek de Oliveira, acredita na sinceridade de Toniquinho. “O que ele diz é espontâneo, é verdadeiro”. Ao mesmo tempo, Couto pondera que Juscelino não caiu feito um patinho na pergunta do goiano. “JK quis que a pergunta fosse feita. Ele era um político com uma habilidade extraordinária. Ele não iria começar do nada sua campanha em Jataí, uma cidade muito pequena à epoca, sem nenhuma projeção nacional.” Couto lembra que Juscelino já havia defendido, na Constituinte de 1946, a transferência da capital primeiro para o Triângulo Mineiro e depois passou a apoiar a ideia de trazer os Três Poderes para o Planalto Central.

Há um depoimento bastante revelador no Arquivo Público do Distrito Federal. É de Jeronymo Coimbra Bueno (1909/1996), ex-governador de Goiás, ex-senador pela UDN (União Democrática Nacional), defensor candente da mudança da capital. Ele contou ao Arquivo Público, em 1990, que esteve com Juscelino — antes do comício de abril de 1955 — para conseguir dele o apoio ao compromisso de mudança da capital. Engenheiro e urbanista, Coimbra Bueno havia construído Goiânia na década de 1930, e queria construir Brasília, mas se desentendeu com Juscelino quanto ao prazo. JK pensava em uma obra para menos de quatro anos e Coimbra Bueno já vinha de uma experiência penosa. “Só que eu achava… com o que sofremos para construir Goiânia, que não foi brincadeira, em menos de cinco anos… Eu falei: “Se for construir Brasília [nesse mesmo tempo], é uma loucura”. E numa declaração de rara sinceridade: “E, de fato, nesse ponto, eu entreguei os pontos”.

Mas esse desentendimento só aconteceria mais adiante. Naquele abril de 1955, Coimbra era um dos principais líderes da frente goiana para a construção de Brasília. Vê-se, mais uma vez, que os goianos levantaram a bola para Juscelino chutar. E não apenas eles. A transferência da capital era um projeto geopolítico das forças armadas, como revela o historiador e arquivologista Luís Carlos Lopes em Brasília, o enigma da esfinge. “A possível interiorização da capital foi discutida pelo Estado Maior das Forças Armadas e pelo Estado Maior do Exército”, escreve Lopes na página 80. Ainda Lopes: “Para eles [os militares] interiorizar a capital era um modo de melhor defender o país em caso de guerra.”

Havia outras razões militares, acredita Salviano Guimarães. Com a retumbante reação popular ao suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1955, as Forças Armadas perceberam que manter a capital do país numa cidade como o Rio de Janeiro era um risco para a segurança nacional. “Bastava o presidente sair do Catete [o palácio] para estar no meio da rua.”

Em resumo: antes de Juscelino fazer o gol, outros jogadores armaram as jogadas e lançaram a bola ao artilheiro, os militares e os goianos fundamentalmente. E foi um carioca travestido de goiano, Bernardo Sayão, que, em abril de 1955, desceu no sítio destinado a Brasília, com 200 homens e um comboio de tratores e caminhões. Ele à frente, guiando um jipe, e trazendo a caravana que iria abrir o campo de pouso, fincar a cruz de graveto no ponto mais alto da Larga do Bananal (como era chamada a região onde foi construído o Plano Piloto) e descer para a Fazenda do Gama. “Em quinze dias, pusemos o aeroporto em ordem para descer qualquer avião, até DC-3. Era para o presidente Café Filho vir com o senhor cardeal — e não sei mais quem — rezar e assistir à primeira missa em Vera Cruz.”

Café não veio, afastou-se do governo. Juscelino foi eleito e pousou em Brasília a 2 de outubro de 1956 para daí em diante fazer o inimaginável.

LIVROS E TEXTOS CONSULTADOS

» A epopeia da construção de Brasília, Adirson Vasconcelos, 1989, edição do autor
» A mudança da capital, Adirson Vasconcelos, edição do autor, 1978
» Arquivo Brasília, de Lina Kim e Michael Wesely, CosacNaify, 2010
» As cidades satélites de Brasília, Adirson Vasconcelos, edição do autor, 1988
» Brasília Kubitschek de Oliveira, Ronaldo Costa Couto, Record, 2006
» Brasília, o enigma da esfinge, Luís Carlos Lopes, editora Unisinos, 1996
» De Plano Piloto a metrópole, a mancha urbana de Brasília, Jusselma Duarte de Brito, Brasília Histórica, 50 anos, Editora Sinduscon, 2010
» História de Brasília, Ernesto Silva, Editora CDL, 1999
» Meu pai, Bernardo Sayão, Léa Sayão, 1994
» Mil dias para uma cidade, Adirson Vasconcelos, edição do autor, 1963
» Terras no Distrito Federal — experiências com desapropriações em Goiás (1955/1958), dissertação de Darcy Dornelas de Farias/UnB
» Primórdios de Brasília,
Altamiro de Moura Pacheco,
Gráfica e Editora Líder, sem data


AGRADECIMENTOS
» Adirson Vasconcelos
» Arquivo Público do Distrito Federal
» Fábio Fonseca
» Jornal O Popular
» DA Press

Arquivo Público do Distrito Federal/Reprodução
Um passeio campestre na futura Brasília em outubro de 1956: Juscelino (de chapéu); ao fundo, de terno branco, o governador de Goiás, Juca Ludovico; o general Nelson de Mello; o médico e pecuarista goiano Altamiro de Moura Pacheco (de lenço branco na lapela). Os goianos apresentavam ao presidente o terreno da nova capital


Mirem-se no exemplo

Nos três primeiros meses de construção de Brasília, se fez muito mais do que em quatro anos de preparativos para a Copa do Mundo. Representantes de arquitetos e engenheiros comentam que falta ao Brasil de 2011 a seriedade e o compromisso com o país que havia em 1956

Conceição Freitas

A construção de Brasília em três anos e dez meses é a imagem invertida da confusa lentidão com que o país se prepara para receber atletas, turistas, autoridades e jornalistas de todo o planeta daqui a três anos. São grandes as diferenças entre o Brasil de 1956 e o de 2011: "Naquele tempo, havia planejamento, havia vontade política e havia um sonho", diz o presidente do Crea/DF (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura), Francisco Machado. "Existia seriedade e compromisso com o país", completa o presidente nacional do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), Gilson Paranhos. Também existia, cita Paranhos, respeito pelos profissionais da arquitetura e engenharia: "Juscelino ouvia Lucio Costa, ouvia Oscar Niemeyer, ouvia Israel Pinheiro. Hoje, a presidente [Dilma Rousseff] não nos ouve". Naquele tempo, Niemeyer fez um palácio de tábuas para o presidente da República. "De tábuas! Fosse hoje, seria feita ma obra imensa, cara e demorada".

Mesmo com os atrasos e as confusões nos preparativos para a Copa e as Olimpíadas, arquitetos e engenheiros estrangeiros, especialmente dos países em crise, estão conectados com a realidade brasileira tentando descobrir se há mercado de trabalho para eles. Não há semana em que o Instituto de Arquitetos do Brasil não receba e-mails ou visita de portugueses e espanhóis pedindo informações sobre o mercado de trabalho no país.

Com os dois países enfrentando graves crises políticas e econômicas, os profissionais de arquitetura e engenharia da Europa ibérica querem vir para a ex-colônia. Em recente palestra numa feira de construção civil em Barcelona, o presidente do IAB, Gilson Paranhos foi crivado de perguntas sobre as obras para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Querem saber se, afinal, o país estará preparado para receber os dois mais importantes torneios esportivos do mundo. Paranhos reconheceu que o Brasil está enfrentando problemas seríssimos no andamento das obras, e citou Brasília. "Fizemos uma capital em menos de três anos, com o cimento vindo de avião e o resultado disso é hoje patrimônio da humanidade". Falta ao Brasil do começo do século 21 "amor à coisa pública, integração, transparência e vontade de fazer as coisas bem feitas", completa o presidente do Crea/DF.

Se, em quatro anos de preparativos para a Copa a as Olimpíadas, as obras continuam claudicando, ao fim dos três primeiros meses de construção da nova capital (outubro, novembro e dezembro de 1956), o balanço foi o seguinte:

* Estava pronto o Palácio de Tábuas (o Catetinho);
* Foi inaugurada a primeira obra de alvenaria, a Ermida dom Bosco;
* A rodovia Anápolis-Brasília começou a ser demarcada;
* A Cidade Livre foi demarcada, três avenidas paralelas à Anápolis-Brasília.
* O Aeroporto Comercial começou a ser construído.
* Israel Pinheiro, Joffre Mozart Parada e Oscar Niemeyer escolheram o local onde o Palácio Residencial (Palácio da Alvorada) e o Hotel de Turismo (Brasília Palace Hotel) seriam construídos.
* Oscar Niemeyer concluiu os projetos do Palácio Residencial e do Hotel de Turismo;
* Foram construídos o primeiro galpão da Novacap, o primeiro restaurante da companhia, as primeiras casas de madeiras para engenheiros e técnicos e os primeiros alojamentos para os operários.
* Ergue-se um posto de saúde, pequeno cômodo de madeira, para receber o primeiro médico candango, Edson Porto.

Passaram-se pouco mais de dois meses entre a posse de Juscelino e o envio do projeto de lei que criava a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). Perdeu-se muito tempo esperando a votação no Congresso (cinco meses). Mas, depois de a Lei 2.874 ter sido votada, aprovada e sancionada, em 19 de setembro, surgiu um sentimento de urgência coletiva. Depois da primeira visita de Juscelino ao sítio da nova capital, o relógio do cerrado passou a contar o tempo no ritmo da batida do martelo.

O que aconteceu no sítio da nova capital desde a vinda de Juscelino, a 2 de outubro de 1956, até a posse de Jânio Quadros, em 31 de janeiro de 1961 foi mais que uma mudança radical na utilização do tempo. "Foi um surto coletivo", diz a gerente de documentação do Arquivo Público do Distrito Federal, Sandra Torres, 51 anos, filha de pioneiros e brasiliense de nascimento. Há 17 anos, Sandra se ocupa da história da construção de Brasília. Conhece cada documento, desde os mais importantes, como o Relatório Belcher (estudo aerofotogramétrico e topográfico do Distrito Federal), até a mais insignificante nota fiscal emitida pela Novacap. É inacreditável, comenta a pesquisadora, a rapidez com que as coisas aconteciam. "Era um ritmo inimaginável para os dias de hoje".

Não havia diferença entre o dia e a noite, tempos de chuva e os de sol. Todos os relatos históricos dos três primeiros meses da construção revelam que foram dias de aguaceiro. O engenheiro Bernardo Sayão que deixara o cargo de vice-governador de Goiás para ser diretor da Novacap, passou boa parte do tempo tomando providências para desatolar os caminhões carregados de alimentos, de material para sobrevivência no cerrado e de material de construção. "Quando vim de Anápolis para Brasília, em dezembro de 1956, havia uma fila sem tamanho de caminhões atolados. Eu mesmo tive que descer umas doze vezes para descarregar parte do jabá que estava na carroceria para que o caminhão pudesse desatolar pra gente continuar a viagem. Foram quatro dias e quatro noites desse jeito", conta o hoje engenheiro Ronaldo de Alcântara Velloso, 75 anos, à época topógrafo contratado pela Novacap para fazer as medições das primeiras obras da cidade.

Ainda não estava chovendo tanto quando os operários construíram o Catetinho. A obra, concluída em dez dias, serviu de empuxo para as que viriam. Se, dizia Juscelino, foi possível erguer um palácio de tábuas em menos de duas semanas então a cidade seria construída em três anos e dez meses. Mas não foi assim, num gesto quase mágico, que o barraco de madeira sobre pilotis apareceu no cerrado bruto. Nem foi num bar que amigos de JK decidiram construir uma casa para acolher o presidente em suas visitas às obras. E nem Niemeyer rabiscou o palácio modernista de madeira numa mesa cheia de amigos.

O Catetinho começou a nascer em 2 de outubro de 1956, no voo que levava Juscelino e sua comitiva de volta ao Rio. Com sua autoridade presidencial, JK disse que queria ter um lugar em Brasília de onde pudesse acompanhar a construção da cidade desde o começo. O ministro da Guerra, Henrique Lott, que o acompanhava, sugeriu que o Exército montasse algumas barracas de campanha próximo aos canteiros de obras. Juscelino retrucou: queria um abrigo mais seguro e confortável, onde pudesse dormir. João Milton Prates, diretor de Comunicações e Transporte da Novacap e amigo de Juscelino, anotou o desejo do presidente e, junto com Niemeyer, decidiu procurar alguém que tivesse condições de construir uma casa naquele lugar e naquelas condições. Era o engenheiro José Ferreira de Castro Chaves, o Juca Chaves, construtor e dono do Juca’s Bar, que ficava no Hotel Ambassador, no Rio. "Chega caminhão lá? Se chegar, a gente constroi", disse Juca à dupla.

O engenheiro conta, em depoimento ao Arquivo Público do Distrito Federal, em 1989, que levou Niemeyer para conhecer barraca de obras na rua Barão da Torre, no Rio. "Uma construção desse tipo é muito fácil de fazer", disse Juca ao arquiteto. "Oscar fez o sistema construtivo, mas com as linhas de elegância dele e criou uma coisa que me deu um bocado de dor de cabeça…", conta o engenheiro. Houve, sim, os encontros de amigos de JK no Juca’s Bar, em volta de uma garrafa de uísque, quando se discutia as providências para a construção do palácio de tábuas. Mas houve muito esforço, também. Juscelino, em Por que construí Brasília, se aproveitou do cenário etílico para propagar a ideia boêmio-romântica de que seus amigos, reunidos num bar, decidiram construir o Catetinho e que Niemeyer fez o projeto bebericando uísque. É o próprio Juca Chaves, às páginas 4 e 5 de seu depoimento ao Arquivo Público, quem desmonta essa versão: "Diz o Juscelino que [o projeto] foi feito no próprio Juca’s Bar, ele que pensa."

Os operários ainda martelavam os pregos nas tábuas do Catetinho quando o engenheiro Atahualpa Schmitz da Silva Prego chegava de jipe com a mulher, Nely, para construir o aeroporto comercial de Brasília. Funcionário da Companhia Metropolitana de Engenharia, Atahualpa chegou ao sítio da nova capital em 22 de outubro de 1956. Sobre suas primeiras impressões no sobrevoo que fez da área destinada ao Plano Piloto, ele escreveu em livro a ser publicado: "Aproximava-se a nossa frente, a uns dez quilômetros, o gigantesco cenário que segundo dr. Sayão [Bernardo Sayão], era o chapadão escolhido para edificar a capital. Com a tarde cinzenta prenunciando chuva, os cerrados com pouca iluminação se mostravam infindáveis, dando impressão de impenetráveis na sua cor verde escura. Os campos eram de verde mais claro. Nas grandes áreas compridas, de baixa cota, a mata mais alta e mais linheira serpenteava nas margens dos córregos e riachos, e se diferenciava do arvoredo retorcido dos campos cerrados."

O Catetinho estava pronto, a CMC e a Coenge, construtora que participou da obra do aeroporto, já haviam chegado a Brasília, o primeiro comboio de caminhões Fenemê (da Fábrica Nacional de Motores, FNM) chegara do Rio de Janeiro em 11de dezembro, trazendo a estrutura metálica do galpão onde a Novacap se instalaria, mas faltava o principal: braços para pegar no pesado. Bernardo Sayão conseguira atrair pouco mais de uma centena de homens das redondezas de Goiás, mas eles não tinham nem documentos de identidade nem nenhuma qualificação. Eram roceiros. Adirson Vasconcelos conta, em Mil dias para uma cidade, que Sayão agiu rapidamente: em dezembro, foi até Ceres, cidade a 300km de Brasília, reuniu o povo na praça e convocou os homens a participarem da construção da nova capital. Sayão havia fundado a cidade de Ceres, nos anos 1940, durante a Marcha para o Oeste, programa expansionista do presidente Getúlio Vargas.

Quando 1956 terminou, havia quase mil homens acampados em Brasília. A pedido de Israel Pinheiro, Oscar Niemeyer havia projetado uma singela construção de alvenaria, em forma de pirâmide, com 5 metros de base e 10 metros de altura. A primeira edificação de concreto inaugurada em Brasília vinha reforçar a versão de que um padre italiano prenunciara, em sonho, o surgimento de uma nova civilização no Planalto Central do Brasil. Em 31 de dezembro de 1956, a Ermida Dom Bosco, na encosta de um dos morros que iriam margear o futuro lago. Era preciso muita fé para construir Brasília.

BIBLIOGRAFIA

A epopéia da construção de Brasília, Adirson Vasconcelos, edição do Autor, 1989
Arquivo Brasília, Lina Kim e Michael Wesely, CosacNaif, 2010
Brasília Kubitschek de Oliveira, Ronaldo Costa Couto, Record, 2006
Brasília, memória da construção, L.Fernando Tamanini, 2ª edição, Projecto Editorial, 2003
Diário de Brasília, 1956/1957, documento copiado do original
História de Brasília, Ernesto Silva, CDL, 1999
Mil dias para uma cidade, Adirson Vasconcelos, edição do Autor, 1963
Minha experiência em Brasília, Oscar Niemeyer, editora Revan, 2006

AGRADECIMENTOS
Arquivo Público do Distrito Federal
D.A Press

O QUE SE FEZ EM TRÊS MESES

4 de outubro de 1956 — Bernardo Sayão arma a sua barraca. Ao lado, outra barraca, grande, é construída para os operários.
10 de outubro — O engenheiro Joffre Mozart Parada chega a Brasília.
16 de outubro — Começa a construção da rodovia Anápolis/Brasília.
17 de outubro — Amigos de Juscelino decidem construir um palácio de tábuas na nova capital.
18 de outubro — Dez homens deixam Belo Horizonte em três caminhões FNM carregados de comida, móveis e material de construção. Viagem dura quatro dias.
22 de outubro — Dez operários começam a construir o Palácio de Tábuas.
25 de outubro — Chega a segunda frota de caminhões. Traz comida, ferramentas, móveis e objetos para a casa presidencial, uma geladeira incluída.
28 de outubro de 1956 — Um DC-3 traz a Brasília os equipamentos para a instalação da estação de rádio da Panair, empresa de aviação.
31 de outubro de 1956 — Os técnicos da Panair conseguem completar a primeira transmissão de rádio para a Panair do Rio de Janeiro. Já havia no sítio da nova capital 232 operários acampados em barracas de lona do Exército.
6 de novembro — Concluído o Catetinho.
1º de novembro — Israel Pinheiro, Oscar Niemeyer e Marco Paulo Rabelo escolhem o lugar onde será construído o Palácio Residencial, o Hotel de Turismo e o Aeroporto Comercial.
2/3 de novembro — Escolhido o local para o edifício provisório da administração da Novacap. Também foi feita a limpeza das áreas das primeiras construções a abertura das estradas de serviço. Chegam os primeiros tratores da Coenge para a construção do aeroporto.
10 de novembro — Inaugurado o Catetinho.
2 de dezembro — Oscar Niemeyer apresenta, em maquete, o projeto do Palácio Residencial.
16 de dezembro — Fica pronto o traçado da Cidade Livre, de três avenidas paralelas ao traçado da BR-060 e a Avenida Contorno
31 de dezembro de 1956 — Fica pronta a Ermida Dom Bosco. Já havia quase mil trabalhadores em Brasília.

Mario Fontenelle/Arquivo Público



Provisória, desobediente

A Cidade Livre não estava nos planos de Israel Pinheiro que acabou cedendo aos argumentos de Bernardo Sayão e permitiu que se abrissem três largas e paralelas avenidas para que nela se instalassem os estabelecimentos provisórios que iriam atender aos candangos e aos visitantes

Conceição Freitas

Para construir a nova capital do país foi necessário criar uma outra cidade, mais próxima do canteiro de obras do que as já existentes Planaltina e Brazlândia. Era uma cidade provisória, desobediente, desnorteante. Houve certa hesitação de parte de Israel Pinheiro, o super-poderoso engenheiro que comandava a Novacap, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital. Mas outro engenheiro, Bernardo Sayão, conseguiu convencer o chefe a abrir três avenidas paralelas, entre os córregos Vicente Pires e Riacho Fundo. Ficou decidido que o núcleo pioneiro, de 3 km², seria dividido em lotes e que eles seriam entregues em regime de comodato. O comerciante teria 30 dias para construir, em madeira, o seu estabelecimento. De graça, sem pagamento de impostos. Uma cidade livre. Que teria de ser demolida quando a capital fosse inaugurada.

Na virada de 1956 para 1957, já havia na cidade provisória cinco empreendimentos comerciais — um restaurante, duas padarias, um açougue e um hotel, o Brasília. Em 15 fevereiro já havia mais um hotel, o Souza, mais uma padaria, um bar e dois armazéns. Até então, a Novacap referia-se àquelas vias largas e longas como Cidade Provisória e Cidade Pioneira. Era o carvão em brasa para a explosão que viria, o prenúncio do que aconteceria na capital do país. A cidade seria ocupada por uma leva infindável de brasileiros, movimento que ficou registrado na memória de Mercedes Ribas Parada, 85 anos, viúva do engenheiro Joffre Mozart Parada: "Quando eles pulavam dos paus-de-arara, subia uma nuvem de poeira e eu ficava olhando lá de casa."

Janeiro de 1957 trouxe também a Revista Brasília, mídia oficial da Novacap, prescrita na mesma lei que criou a companhia. Em sua primeira edição, a revista informa as possibilidades de acesso à nova capital. Podia-se chegar de avião, de trem ou por rodovias. Havia dois campos de pouso na cidade (a pista do aeroporto comercial, o hoje Juscelino Kubitschek de Oliveira, estava sendo construída). Quatro companhias aéreas já faziam voos para Brasília: o Lóide Aéreo, a Vasp, a Cruzeiro do Sul e o consório Real-Aerovias-Nacional. Era possível vir de trem, do Rio de Janeiro, passando por Belo Horizonte, Goiânia até Anápolis. Ou por terra: do Rio, passando por São Paulo, Uberlândia, Goiânia e Anápolis.

Aí começava o nó: no começo de 1957 não havia estrada de Anápolis a Brasília. Vinha-se por Corumbá, numa estrada que dava acesso ao então povoado de Brazlândia. Parava-se na Fazenda do Torto e dela se descia para a Cidade Livre. O Torto era uma espécie de entroncamento rodoviário que recebia os primeiros candangos. Se, no último trimestre de 1956, Sayão havia tido dificuldade para contratar mão-de-obra e precisou ir a Ceres (GO), convocar os goianos que o acompanharam na criação da colônia agrícola, em 1957 a campanha de divulgação de Brasília já surtia efeitos. A Novacap ainda tentou ordenar de algum modo a migração para Brasília. Em janeiro, pediu ao Estado de Goiás que tornasse público que ninguém deveria vir para a nova capital em busca de emprego sem passar antes pelo escritório da companhia em Goiânia. Durante vários dias, o aviso foi publicado nos jornais da capital de Goiás.

A mão-de-obra chegava, os empreendedores pioneiros montavam seus pequenos comércios, e a 17 de fevereiro de 1957 inaugurava-se o restaurante do Saps (Serviço de Alimentação da Previdência Social), próximo ao galpão da Novacap, na Candangolândia. "Para os acampamentos das demais companhias construtoras que trabalham na área de Brasília, as refeições são enviadas em grandes marmitas térmicas modernas e fechadas", registrava a revista. No almoço, a ração era composta de arroz, feijão, batata e "nem sempre, carne", como apurou a pesquisadora Paula Francineti da Silva (ver Leituras). À noite, sopa. "Não há moscas no ambiente", informava a revista Brasília, em seu segundo número.

Havia moscas, sim, conta o médico Edson Porto, o primeiro a chegar a Brasília. Não se sabe exatamente quando, mas aconteceu uma endemia de diarréia na Cidade Livre. "Eu sempre ia a Luziânia comprar enteroviofórmio, até que um belo dia não encontrei mais nenhum comprimido. Ai o farmacêutico, o Moura, me disse: ‘Teve um senhor aqui que comprou todo o estoque’. Descobri que o cozinheiro do Saps, um italiano, tinha comprado os medicamentos. Ele estava colocando o enteroviofórmio no feijão para prevenir a diarréia. Costumo dizer que ele foi o primeiro sanitarista de Brasília", conta Porto.

Ex-prefeito de Rialma (GO), parceiro de Bernardo Sayão na Colônia Agrícola Nacional, em Ceres, José Carlos de Souza, 90 anos, tem uma versão para o surgimento da Cidade Livre. Souza foi um dos primeiros a chegar ao canteiro de obras da nova capital, veio em novembro de 1956, viu chegar um avião "carregado de tábuas"e acompanhou Sayão nos preparativos para a inauguração do Catetinho. Passada a festa, o engenheiro perguntou se Souza queria emprego em Brasília. "Não, doutor Sayão, quero fazer um hotel". Imaginava uma pequena edificação de madeira para receber os que chegavam e não tinham onde se alojar, mas não se havia pensado, até então, em permitir o surgimento de nenhuma cidade que não fosse a nova capital.

"Israel Pinheiro não queria a Cidade Livre. Foi uma briga entre Sayão e ele. Eu ouvi eles conversando pelo rádio da Fazenda do Gama. Doutor Sayão perguntava: ‘Onde vão ficar os operários que forem chegando atrás de emprego?’. Com muito custo, Israel concordou em fazer a Cidade Livre", relata José Carlos de Souza, hoje morando em Luziânia. Enquanto Joffre Mozart Parada traçava as três vias paralelas do futuro Núcleo Bandeirante, Souza foi providenciar a mudança da família e a compra de material de construção. "Em dezembro de 1956, já estávamos debaixo de uma barraca de lona, na Avenida Central, eu, minha mulher e quatro filhos, todos com menos de 12 anos. Todo dia aparecia gente querendo um prato de comida porque não havia lugar pra comer." O Hotel Souza foi o segundo a ser construído na Cidade Livre. Seis meses depois, os cinco primeiros estabelecimentos se multiplicaram vertiginosamente. Em julho de 1957, havia 342 edificações de madeira que abrigavam de agências bancárias a prostíbulos.

Das lembranças que os candangos e os visitantes guardam do tempo da construção, a erupção vulcânica da Cidade Livre é uma das mais recorrentes. Quem passou pela Cidade Livre nunca dela se esqueceu. Tão forte impressão já mereceu um romance, Cidade Livre, de João Almino, lançado no ano passado (veja trecho). Depois de levar Brasília para dentro de seus quatro primeiros livros de ficção, o autor achou que havia chegado a hora de tratar do tema "através da dimensão concreta da fundação da cidade". Nada mais concreto que a realidade desordenada e mutante da Cidade Livre.

Assim estava Brasília, em fevereiro de 1957:

# A pista do aeroporto comercial, de 3,3 mil metros de comprimento por 45 de largura, já estava pronta para receber o revestimento asfáltico
# Começam as obras do Palácio Residencial (Palácio da Alvorada) e do Hotel de Turismo (Brasília Palace Hotel)
# Começam as obras da estrada que liga o aeroporto ao Cruzeiro
# Começam as obras da estrada que liga o aeroporto ao Palácio Residencial e ao Hotel
# Começam os estudos de campo da rodovia Brasília-Belo Horizonte
# Realiza-se concorrência administrativa para obra da rodovia Brasília-Anápolis
# Na Candangolândia já existe um galpão da Novacap, mais de 200 barracas de lona e algumas casas em construção
# A Cidade Livre já tem mais de uma dezena de estabelecimentos comerciais

FICÇÃO E LIBERDADE

"Papai, tia Francisca, eu e já então tia Matilde estávamos entre as quatrocentas pessoas a viver, quando de sua inauguração em fevereiro de 1957, na cidade que surgia do loteamento em terras das fazendas Bananal, Vicente Pires e Gama e cujas principais avenidas foram abertas pela Novacap apenas poucos meses depois de nossa chegada. Em 1957 papai começava a me treinar como guia daquela cidade, a Cidade Livre — livre principalmente porque isentava os comerciantes de pagar impostos. Os visitantes me achavam engraçado porque eu sabia tudo sobre a cidade, em meados daquele ano conhecia cada uma de suas trezentas e quarenta edificações, suas casas e seus armazéns de secos e molhados, viria com o tempo a conhecer seus restaurantes, lojas de tecidos, barbearias, tinturarias, marcenarias, acougues, farmácias, suas duas escolas, seus cinemas, seus bares, pensões e hotéis de madeira, que anunciavam o conforto em colchões de molas, bem como, na praça central, a igreja católica São João Bosco, que Valdivino ajudara a construir, onde o corpo de Bernardo Sayão um dia seria velado e onde eu confessava minhas fantasias com a tia Francisca ao padre Roque Viliati."

Cidade Livre, João Almino

LEITURAS

Brasília, o enigma da esfinge, Luís Carlos Lopes, Editora Unisinos/Editora UFRS, 1996
Cidade Livre, João Almino, Record, 2010
Cotidiano e polícia: a vida social e a intervenção policial durante a construção de Brasília (1956/1960), Paula Francineti da Silva, dissertação de mestrado, história/UnB, 1994
De Plano Piloto a Metrópole, a mancha urbana de Brasília, Jusselma Duarte de Brito, série Brasília Histórica 50 anos, UnB/Sinduscon
Diário de Brasília, 1956/1957
Mil dias para uma cidade, Adirson Vasconcelos, edição do autor, 1963
Os pioneiros da construção de Brasília, volumes 1 e 2, Adirson Vasconcelos, edição do autor, 1992
Revista Brasília, números 1 e 2, Novacap, janeiro e fevereiro de 1956

AGRADECIMENTOS

Arquivo Público do Distrito Federal
D.A. Press

LEIA EM 30 DE JULHO
O topógrafo que ajudou a demarcar o Eixo Monumental, o Eixão e o Marco Zero mora até hoje em Brasília. Os bastidores da escolha do projeto do Plano Piloto.

Divulgação/Arquivo Público do Distrito Federal
Candangos na Cidade Livre - Núcleo Bandeirante


Demarcando o sinal da cruz

Aos 75 anos, ainda em plena atividade, o engenheiro Ronaldo de Alcântara Velloso relembra um momento crucial da história do Plano Piloto: a demarcação do Eixo Monumental, do Eixo Rodoviário e da Estaca Zero. Velloso guarda um tesouro: uma cópia da caderneta em que Joffre Mozart Parada calculou as coordenadas da nova capital

Conceição Freitas

Brasília não nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse. Ou seja: o Plano Piloto não foi riscado no Cerrado incólume a partir do cruzamento dos dois eixos em ângulo reto. Na prática, a cidade que Lucio Costa inventou com 3.895 palavras começou a surgir na cruz fincada no ponto mais alto da região, a hoje Praça do Cruzeiro. De lá, os topógrafos e os tratores foram descendo, uns atrás dos outros, no rumo leste, até alcançar o lugar onde seria demarcada a Praça dos Três Poderes. Só então, o engenheiro Joffre Mozart Parada demarcou a Estaca Zero, o sinal da cruz, e daí foi fixando, ponto a ponto, o Eixo Rodoviário Sul. E, depois, o Eixo Rodoviário Norte.

O mito segundo o qual Brasília nasceu na Rodoviária cai por terra com o depoimento do engenheiro agrimensor Ronaldo de Alcântara Velloso, um dos topógrafos a demarcarem os dois eixos que, cruzados, definem o corpo da cidade. Aos 75 anos, Velloso continua em atividade profissional numa empresa de engenharia de pavimentação asfáltica com sede na Cidade do Automóvel. Está tão ativo quanto suas lembranças dos nove meses, entre dezembro de 1956 e setembro de 1957, nos quais participou da demarcação da área onde se instalariam a Novacap, a Cidade Livre e o Plano Piloto, pela ordem.

Do escritório da Novacap no Rio de Janeiro chegavam, via rádio, as coordenadas que determinavam o local exato onde a cidade seria demarcada em relação ao Sol e em relação às curvas de nível, marcas que indicam a declividade do terreno. Os engenheiros da equipe de Lucio Costa, chefiados por Augusto Guimarães Filho, determinaram também se a cidade ficaria mais próxima ou mais distante do futuro lago. Dito de outro modo, eles aterrissaram o Plano Piloto no terreno que lhe foi destinado a partir de um desenho em escala 1/25 000. Esticaram uma imagem do tamanho de uma folha de cartolina até a escala de uma cidade real.

Em Brasília, Joffre Parada recebia as coordenadas gerais e calculava as coordenadas específicas; colava palmo a palmo, por assim dizer, o imenso Plano Piloto. Os primeiros cálculos da nova capital estão guardados num armário de metal na sala de Ronaldo Velloso. É uma cópia amarelada do caderno original, que o engenheiro deixou com o topógrafo para que ele pudesse pôr a cidade no chão. São equações, gráficos, números decimais, sinais aritméticos, triângulos, croquis, tudo escrito com a letra caprichada, a lápis, de Joffre Parada. O Plano Piloto está ali, matematicamente calculado.

Demarcação

O mineiro Ronaldo Velloso estava demarcando a Cidade Livre quando Parada o chamou para tarefa muito mais importante, definir com estacas o local onde seria construído o Plano Piloto. "O escritório da Novacap no Rio mandou pra gente o azimute (ver glossário). Esse ângulo foi determinado no Rio de Janeiro. Brasília partiu do Cruzeiro, onde tem um marco de coordenadas do IBGE. Com uma equipe de uns 10 homens, fomos descendo com o teodolito locando o Eixo Monumental até a Praça dos Três Poderes. Depois, então, determinaram-se as asas, o Marco Zero. É chamado de Zero porque pra um lado era a Asa Sul e pra o outro, a Asa Norte."

Se de dia os topógrafos iam marcado a piquete o Eixo Monumental, de noite Joffre Parada ia calculando a cidade. "A máquina calculadora era uma Facit daquelas que tinham uma manivela que ia pra frente e pra trás. Os cálculos eram feitos com 11 decimais. Era uma conta imensa, uma trabalheira. Hoje um cálculo que a gente faz em um minuto, naquela época demorava duas horas. Doutor Joffre calculava as coordenadas (ver glossário). Dava pra gente os ângulos e as distâncias e a gente ia locando e ele vinha conferindo."

A demarcação do Plano Piloto começou 35 dias depois do anúncio do vencedor do concurso do Plano Piloto, Lucio Costa. O resultado da disputa saiu em 16 de março de 1957. Em 2 de abril, o arquiteto já estava em Brasília, em sua primeira das pouquíssimas visitas ao futuro Plano Piloto. Veio com Juscelino Kubitschek e se aborreceu porque havia uma placa, preparada para recebê-lo, onde estava escrito: Avenida Monumental. Imediatamente, Joffre Parada mandou corrigir o erro e apareceu uma tábua onde se escreveu: Eixo Monumental.

Em 20 de abril, 16 homens, entre topógrafos, ajudantes de topógrafos e motoristas, pousaram para uma foto histórica, no Cruzeiro, ao lado de Joffre Parada. "Naquele dia, íamos cravar o primeiro marco do Plano Piloto", conta Velloso, diante da foto pendurada na parede de sua sala de trabalho. Daqueles três meses intensos que se seguiram, o engenheiro guardou lembranças indeléveis. "Do teodolito, eu via emas e veados que se aproximavam do local que estava sendo desmatado, como se quisessem entender o que estava acontecendo." Como o teodolito aproxima a imagem 28 vezes, o que Velloso via pela lente era uma aparição idílica num mar de Cerrado. O engenheiro guarda também recordações menos líricas. Lembra-se de um dos poucos contatos que teve com o presidente da Novacap, Israel Pinheiro. "Ele e Juscelino de vez em quando passavam lá na picada. Um dia, eu estava parado assim, em pé, Israel me viu e falou: ‘Ô rapaz, o que é que você está fazendo aí?’. Eu respondi: ‘Sou topógrafo, estou locando’. E ele me deu uma patada: ‘Então trabalha, não fica aí olhando’".

Precisão

A equipe de topógrafos, ajudantes de topógrafos e mateiros descia fincando os piquetes de 20 em 20 metros e em seguida os tratores abriam as vias. "Era tudo muito rápido e, apesar das dificuldades, conseguimos umas precisões muito boas." Mas houve erros. Velloso conta que já havia demarcado e desmatado uns 400 metros do Eixão Sul quando veio uma contra-ordem do Rio. "Mandaram parar o desmatamento e subir a demarcação mais ou menos um quilômetro." O jornalista Adirson Vasconcelos, autor de mais de uma dezena de livros sobre Brasília, confirma o erro: "No primeiro cálculo, a asa ia cair no lago".

Não houve grandes movimentos de terra na demarcação dos dois eixos. O terreno foi só descascado e nem essa tarefa foi das mais complicadas. "Era um cerrado ralo", lembra Velloso, como aquele que existe até hoje ao lado da Catedral Rainha da Paz, no Parque das Sucupiras. Foram feitas escavações no cruzamento dos dois eixos para que o terreno pudesse receber a Plataforma Rodoviária. "Houve uma movimentação de terra de mais ou menos seis ou sete metros de profundidade. A terra tirada de lá foi levada para levantar o terreno da Praça dos Três Poderes em três ou quatro metros. Havia uma máquina muito grande que ficava escavando a terra e a esteira dela ia enchendo os caminhões. Eram uns 350 caminhões que jogavam a terra na praça. E a equipe de lá já ia aterrando e compactando." Também houve grande movimentação de terra na obra do 28, o Congresso Nacional, para a construção do edifício sob as duas cúpulas.

Para demarcar o Eixão Sul e depois o Norte, os topógrafos primeiro locaram três retas, uma depois da outra (ver reprodução da caderneta de Joffre Parada), em angulações diferentes, curvadas na direção oeste. Depois, foram demarcando a curvatura do Eixão Sul. Em seguida, os topógrafos locaram as superquadras, de 360 em 360 metros. Para evitar o efeito da refração, provocado pelo calor do sol nos aparelhos (quando a imagem fica tremida), eles trocavam o dia pela noite. Esperavam escurecer e iam para o Cerrado, com uma lanterna amarrada ao teodolito, para continuar as demarcações. "Cheguei a pegar 2 graus à noite." Numa dessas investidas noturnas, quando o Eixo Monumental estava pronto para receber a imprimação (ver glossário), Velloso foi contemplado com mais uma aparição: "Era noite de lua. Olhei de longe e vi aquele Eixo Monumental branquinho cortando o Cerrado escuro. A maioria das pessoas não ia sentir nada, mas para um engenheiro, aquela imagem era apaixonante".

GLOSSÁRIO

Azimute — É o posicionamento de determinado ponto na Terra em relação ao Norte.

Coordenadas — Cada uma das coordenadas esféricas (longitude e latitude) de um ponto no globo terrestre que tem como referência o Equador e um meridiano de origem.

Imprimação — É a aplicação de uma camada de material betuminoso sobre a superfície a ser asfaltada para impermeabilizar a área e aumentar a aderência ao revestimento.

Teodolito — Instrumento de precisão usado em topografia para medir ângulos horizontais e verticais.

NÚMERO



Em março de 1957, já existem em Brasília 2.013 pessoas, sendo 1.369 homens, 248 mulheres e 396 crianças. O recensamento extra-oficial foi feito por Ernesto Silva.

LINHA DO TEMPO

MARÇO/ABRIL de 1957

12 de março — Instala-se a Comissão Julgadora do concurso para o Plano Piloto. A Comissão se reúne no Salão de Exposições do Ministério da Educação e Cultura para avaliar os 26 projetos concorrentes

16 de março — Anunciado o vencedor do concurso, o projeto nº 22.

2 de abril — Lucio Costa visita Brasília pela primeira vez. Vem com Oscar Niemeyer, Juscelino e comitiva, entre os quais os jornalistas Raymond Cartier, da revista Paris-Match e L.Kessel, da Life. Juscelino inaugura a estação de passageiros do aeroporto comercial. Percorre as obras numa caminhonete Vemag, a primeira fabricada no Brasil. Vai à Cidade Livre. Depois do almoço, JK conversa longamente com Lucio Costa.

7 de abril — Ao meio-dia, aterissa no aeroporto o primeiro avião comercial. Um Curtiss-Comander da Companhia Lóide Aéreo prefixo PPLDS.

20 de abril — Uma equipe de topógrafos liderada pelo engenheiro Joffre Mozart Parada começa a demarcar o Eixo Monumental.

Mário Fontenelle/ArPDF
Marco Zero de Brasilia, cruzamento do Eixo Rodoviário com o Eixo Monumental, o sinal da cruz do Projeto Lúcio Costa, em terra aberta por tratores


Tudo ao mesmo tempo

Enquanto os operários erguiam o Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel, Niemeyer desenhava o Congresso Nacional, os topógrafos demarcavam a cota mil do Lago Paranoá e a Novacap assinava contrato com empresa norte-americana para a construção dos ministérios

Conceição Freitas

Na noite de 20 de junho de 1957, o termômetro do canteiro de obras acusava 3º C, um gelo para os novos candangos que chegavam do Nordeste. Os do Centro-Oeste estavam acostumados às baixas temperaturas das madrugadas de inverno no Planalto Central. Em julho, eram 13 mil as almas que haviam chegado para construir a nova capital. O Plano Piloto de Lucio Costa já estava desenhado no chão: dois eixos em sinal da cruz, um deles arqueado a oeste. Na ponta leste de um dos eixos, já estava desenhado no chão um triângulo equilátero com o bico apontando também para oeste: era a Praça dos Três Poderes.

Oito meses depois do início das obras, já havia longa malha de caminhos de terra ligando os canteiros de obras entre si e dando acesso à Cidade Livre, à Candangolândia, ao aeroporto e à Ermida Dom Bosco. Engenheiros e topógrafos mediam a cota mil do futuro Lago Paranoá. O engenheiro Ronaldo de Alcântara Veloso, um dos que demarcaram os dois eixos, relata que a área a ser coberta pelas águas do rio Paranoá e de seus afluentes foi demarcada na cota mil, ou seja, mil metros acima do nível do mar. "Foram marcando o perímetro até fechar a área. Aí o trator desmatava o contorno e então já se sabia até onde a água iria."

Enquanto engenheiros e operários erguiam o Palácio Residencial (o Alvorada) e o Hotel de Turismo (Brasília Palace Hotel) e os topógrafos e tratoristas faziam a demarcação e o arruamento da W-3 Sul para construção das primeiras 500 casas, Oscar Niemeyer traçava uma de suas mais importantes obras de todo o seu vasto portifólio: o Congresso Nacional. A edição de julho de 1957 da Revista Brasília apresenta o croqui e a descrição do novo projeto de Niemeyer para Brasília (àquela altura, ele já havia desenhado a Ermida Dom Bosco, o Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel).

O arquiteto explicou sua intenção arquitetônica: "O objetivo de reunir as duas casas num só edifício visa dar solução mais racional e econômica ao problema, sem prejuízo da independência que lhes é indispensável (...)". Ao mesmo tempo em que, num só bloco, "Senado e Câmara constituirão um conjunto monumental capaz de dominar, como desejável, as demais construções da cidade". Mais adiante, conclui a descrição: "Ao fundo, contrariando a linha horizontal da Esplanada, erguem-se os blocos administrativos, que são os mais altos de Brasília".

Gastos

Por esse tempo, os brasileiros começavam a acreditar que Brasília era uma oportunidade de trabalho. As estradas de acesso ao canteiro de obras ainda estavam sendo abertas e a nova capital ainda era um ponto incerto na geografia do Brasil, mas os candangos chegavam de carona de caminhão, a pé, de burro e a cavalo. Em junho de 1957, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) estimava em não mais de 12 bilhões de cruzeiros (R$ 3,9 bilhões atualizados) os gastos com a construção de Brasília, dinheiro que a empresa pretendia obter com a "venda dos lotes da nova capital, sem pesar em nada, absolutamente nada, no Orçamento da União".

Não foi assim que aconteceu. Os brasileiros que podiam comprar terrenos em Brasília não se dispuseram a arriscar seus investimentos numa cidade tão improvável. Só quem investia aqui é quem não tinha alternativa a não ser a de aplicar a força dos braços em busca de prosperidade. Criaram então as Obrigações Brasília, títulos públicos para estimular a venda dos terrenos. Era uma espécie de financiamento garantido pelo governo.

Não dava para esperar pela fé dos investidores. Em junho de 1957, Juscelino sancionou a Lei nº 3.166, que autorizava a abertura de crédito especial de 400 milhões de cruzeiros destinados à pavimentação dos trechos de duas rodovias ligando Brasília a Santos, passando pelo Triângulo Mineiro até Anápolis. Se, para construir as superquadras a Novacap recorreu aos milionários institutos de previdência, para abrir rodovias, ele precisava de crédito especial (ver quadro).

Foram os superpoderosos institutos de aposentadoria e pensão que construíram a primeira leva de blocos das superquadras. Eles não apenas ergueram os prédios sobre pilotis como disputaram quem construiria a primeira cumeeira, quem concluiria o primeiro edifício, quem teria a honra de receber Juscelino para a primeira inauguração de um bloco das SQS.

Empreiteiras

As obras da nova capital foram responsáveis pelo começo da ascensão de um segmento até hoje fortemente presente na vida política brasileira, as empreiteiras. Como escreveu Samuel Wainer, em Minha razão de viver: "Só a construção de Brasília já bastaria para assegurar a alegria de dezenas de homens do ramo, mas houve mais". Em meados de 1957 já estavam em Brasília a Construtora Rabello, a Pacheco Fernandes, a Coenge, a Metropolitana e a ECG (Empresa de Construções Gerais).

Uma operação casada entre o governo brasileiro e o norte-americano permitiu que o Brasil conseguisse um empréstimo de US$ 10 milhões "pelo prazo de 15 anos e a juros de 5,5% ao ano". Em princípio, nada mau. Havia uma contrapartida: a Novacap assinaria contrato com a Raymond Concrete Pile Company of the Americas para a construção da Barragem do Paranoá e o fornecimento e montagem das estruturas metálicas de 16 ministérios. O compromisso da Raymond, representada no Brasil pela Companhia Planalto, era de erguer dois edifícios por mês, num total de sete meses.

"O sistema de estrutura metálica" — explicava a Revista Brasília — "importa em economia de tempo e de custo, em relação ao sistema de concreto armado". Àquela altura, os brasileiros ainda não tinham domínio da técnica de estrutura metálica e, ao mesmo tempo, a companha siderúrgica de Volta Redonda não tinha condições de fornecer as peças à nova capital. "As necessidades de Brasília absorveriam 50% da produção da usina, prejudicando, sobretudo, a linha de fabricação de trilhos e outros materiais de primeira importância e urgência para o desenvolvimento nacional."

O contrato com a Raymond iria resultar num fracasso que quase pôs a perder os planos de Juscelino de inaugurar Brasília em 21 de abril de 1960, assunto que será tratado em edição posterior.

Para se contrapor às acusações da oposição, a Revista Brasília informava que "a quase totalidade do material de construção para Brasília tem sido transportada por via terrestre". Esclarecia que "o transporte aéreo se reduziu a uma carga de 140 toneladas, em aparelhos da FAB, na fase inicial das instalações urgentes e quando as grandes chuvas tornaram as estradas intransitáveis". Foram feitas, também, informava a mídia oficial da Novacap, "outras três ou quatro viagens" para transportar mercadorias "que habitualmente são conduzidas pelo ar".

Do lado extra-oficial da história, a Cidade Livre inchava como uma feira nas primeiras horas da manhã. Em junho de 1957, já haviam nela cinco bancos, seis hotéis, vários restaurantes, padarias, armazéns, farmácias, matadouro, lojas de material de construção, empresa de transporte urbano e até uma agência de automóveis. Em 6 de julho, foi inaugurado o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira, o HJKO, hoje transformado em Museu Vivo da Memória Candanga. O hospital tinha 50 leitos, duas salas de cirurgia, dois apartamentos, aparelhos de raio-X, laboratório, ambulatório, sala de ortopedia, farmácia, maternidade, berçário, gabinete dentário. Ainda segundo a Revista Brasília, o HJKO tinha acessórios esterilizadores, incubadora para nascimentos prematuros, ressuscitador e bombas de oxigênio.

Era preciso um pronto-socorro eficiente, dado o acelerado crescimento da população candanga e o ritmo enlouquecido das construções. Em julho de 1957, o esqueleto do Palácio da Alvorada estava pronto. Em pouco mais de três meses de obras, os operários haviam conseguido chegar à cumeeira.

LEITURAS



Acervo digital Folha de S. Paulo
Brasília, memória da construção, volumes 1 e 2, L. Fernando Tamanini, Projecto Editorial
Brasília, o enigma da esfinge, Luís Carlos Lopes, Editora UFRJ/EditoraUnisinos
De Plano Piloto a Metrópole, a mancha urbana de Brasília, Jusselma Duarte de Brito, Editora Sinduscon
Diário de Brasília, 1957, Serviço de Documentação da Presidência da República
Olhares sobre o Lago Paranoá, Fernando Oliveira Fonseca (organizador), GDF/Semarh
Revista Brasília, números 6 e 7

AGRADECIMENTOS
D.A Press
Arquivo Público do Distrito Federal

Arquivo Pessoal. Brasil. Brasília - DF
Andaimes na fachada do Palácio da Alvorada durante sua obra de construção.


Revolução na terra vermelha

Um ano depois do efetivo início das obras, o Plano Piloto começava a se esboçar no cerrado. Entre agosto e outubro de 1957, já dava para reconhecer as linhas mestras (e as colunas) do Palácio da Alvorada, lançava-se a pedra fundamental da Igrejinha e as superquadras começavam a surgir

Conceição Freitas

A terra se movia com crescente nervosismo e contínuas mutações. A paisagem da noite anterior não era a mesma do dia seguinte. O caminho de volta para casa podia não ser o mesmo da ida, tal a rapidez com que o ambiente sofria alterações. Como se as eras de transformação da Terra tivessem se concentrado num só lugar e num só tempo. Visto de longe, o intenso movimento de terra sugeria um vulcão expelindo lavas de poeira. Só na Praça dos Três Poderes, o aterramento do terreno moveu 700 mil m³ de terra, o que corresponde a 140 mil viagens de caminhão. Como se o Brasil estivesse convulsionado em revolução, jornais e revistas de Nova York, Beirute, Buenos Aires, Bonn, Oslo, Hamburgo, Bruxelas e Paris publicavam reportagens e artigos sobre "um das maiores obras não só do século 20, senão de todos os tempos", como escreveu o argentino La Nación.

O açodamento de Juscelino – construir, inaugurar e transferir a nova capital no seu governo – tinha um pé na sensatez: ou ele começava e terminava o que havia se proposto ou dificilmente seria feita a mudança da capital. Como declarou o editor José Olympio, dono da editora homônima: "Ou vai ou racha" (Veja íntegra nesta página). Um ano depois de visitar pela primeira vez o sítio da cidade, Juscelino sancionava a Lei 3.273, que fixou em 21 de abril de 1960 a data da transferência da capital do Brasil.

Em um ano, Oscar Niemeyer já havia projetado: o Catetinho, o Palácio da Alvorada, o Brasília Palace Hotel, a Igrejinha de Fátima, o Congresso Nacional, as habitações da Fundação da Casa Popular, o modelo-padrão dos blocos das superquadras, o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal e a Escola Júlia Kubitschek (que até então não tinha esse nome). Mas ainda não havia se mudado para Brasília, o que só aconteceria em meados de 1958. Os primeiros projetos de Niemeyer para Brasília foram feitos no escritório da Novacap no Rio de Janeiro.

Para responder às denúncias de que havia material de construção para as obras, a Novacap informava, a 10 de agosto de 1957, que o básico estava sendo obtido nas proximidades de Brasília. A areia era retirada ou da lavagem do cascalho que existe em larga escala na regiões ou sugada com dragas e escavadeiras em bolsões do córrego Bananal. Assegurava, também, que uma olaria já estava em funcionamento para a fabricação de tijolos maciços e de tijolos furados. "Para fabricar os tijolos, relatava a revista Brasília, "é utilizada argila de grande plasticidade."

Não foi assim tão fácil quanto a Novacap propagava. O engenheiro Cláudio Oscar de Carvalho Sant’Anna (1925-2009), um dos donos da Kosmos Engenharia, chegou a Brasília em agosto de 1957 com a disposição de participar da construção das superquadras. "Verificamos que a cidade não tinha absolutamente recurso nenhum. Não havia uma olaria, não havia pedra britada, não havia areia, não havia tijolo, não havia absolutamente nada", ele contou ao Arquivo Público do Distrito Federal. Dois meses depois, a revista Brasília publicava a foto de uma olaria da Novacap em atividade — fileiras de tijolos secando ao sol. As construtoras se viravam como podiam. "A Kosmos, por exemplo, teve que comprar máquinas para fazer os blocos e fazia então um pedrisco, cimento, areia, fazia o bloco de cimento. Durante a fase inicial, nossas construções foram feitas com bloco de cimento", contou Cláudio Sant’Anna, em longo e detalhado depoimento.

Naqueles primeiros meses de efetivo começo das obras, havia carência de pedra britada. "No Rio de Janeiro, onde eu tinha a minha experiência de trabalho, a pedra britada é de altíssima qualidade, porque é produzida à base de granito. Toda a serra do Rio é constituída de granito e gnaisse (rocha formada há 600 milhões de anos, resultante da colisão das placas tectônicas). O gnaisse é um produto fácil de ser quebrado, a pedra é fácil de ser britada, e tem uma resistência muito boa". Em Brasília, era diferente. Não havia nenhuma jazida de granito ou de gnaisse. "Existiam os afloramentos de quartzito, duríssimo, e calcário daquelas fábricas de cimento em Sobradinho."

Para as primeiras concretagens dos blocos das superquadras, a Kosmos usuou de um recurso pré-histórico: empreitava operários para quebrar a pedra à mão, (a chamada pedra marroada), e comprava o material em caixotes de 1m³. "Parecia o tempo da construção das pirâmides do Egito", compara o emgenheiro. As pedras chegavam em blocos graúdos e era preciso, então, picotá-las. Sant’Anna instalou uma britadeira no canteiro de obra. "Mas o quartzito era tão duro que as mandíbulas do britador se desgastavam em 24 horas. À noite, quando ele trabalhava, a gente via aquelas fagulhas saindo da pedra dura, pareciam fogos de artifício."

Achou-se, então, uma saída inusual na construção civil brasileira, ainda segundo Cláudio Sant’Anna: usar o cascalho tirado dos rios. As dragas sugavam a areia do leito das águas, em seguida ela era peneirada. A parte fina era usada como areia e o seixo rolado era utilizado na fabricação do concreto. Para conseguir a própria areia, os operários da Kosmos Engenharia desceram o rio Corumbá, numa jangada feita com tambores vazios de óleo diesel até localizar pontos de razoável profundidade onde uma draga pudesse ser montada. "Era um esforço muito grande", relata Sant’Anna.

Oscar Niemeyer acabara de visitar a Itália e França. Estava sob o efeito que tinham lhe causado a Praça de São Marcos e o Palácio dos Doges, ambos emVeneza, e a Catedral de Chartres, em Charthes, "obras que causam um impacto indescritível pela beleza e audácia com que foram realizadas, sem contribuírem para a emoção razões técnicas ou funcionais", escreveu o arquiteto em Minha experiência em Brasília. "É a beleza plástica apenas que atua e domina, como uma mensagem permanente de graça e poesia", revelou Niemeyer, deixando muito claro a seus críticos que sua intenção primordial, ao projetar as obras de Brasília, era a beleza, não a funcionalidade.

Em outubro de 1957 havia no Núcleo Bandeirante:


13 hotéis
5 agências bancárias
4 agências de companhia de aviação
4 farmácias
Igrejas de 4 religiões
2 churrascarias
2 serrarias
2 bombas de gasolina
Vários restaurantes
Muitos açougues
Padarias
Armarinhos
Serrarias
Alfaiatarias
Casas de automóveis
Casas de peças de automóveis
Oficinas mecânicas
Carpintarias
Fábrica de móveis
Um mercado
Estação Rodoviária
Consultório médico
Ao todo, 340 estabelecimentos comerciais.

DEPOIMENTOS

"Sem ter a pretensão de que a minha opinião possa influir no espírito daqueles que já conhecem a região, direi aos que lá não estiveram: com orgulho posso dizer que conheço o nosso Brasil, pois já pisei em todos os seus Estados e muitos foram por mim percorridos e apreciados, podendo, portanto, afirmar que a região de Brasília é belíssima; clima seco e saudável; temperatura fresca, principalmente à noite; a topografia do terreno é suficientemente acidentada, para não ser monótona, e plana o bastante, para que não apareçam grandes ladeiras ou desmontes dispendiosos e feios; há pequenos vales que apesar do tempo de estiagem, que ainda perdura por lá, são verdes; as partes mais altas, cobertas por vegetação rasteira, mostrando flores de variadas cores e árvores de pequeno porte, que atingem cinco metros de altura, com seus galhos retorcidos, desprovidos de folhas, como é a flora dos planaltos; em outros vales, as árvores são mais frondosas e formam um conjunto mais compacto; as duas enormes asas da grande água que, será a figura esquemática da futura cidade, situam-se em duas encostas quase simétricas, levemente inclinadas e caídas para a monumental pra dos Três Poderes [na verdade, as asas inclinam na direção contrária à praça). Sou um enamorado da natureza e, por isso talvez suspeito para julgá-la; acho, entretanto, que, naquele lugar, poderá surgir uma grande e bela cidade!"

Trecho do relato do engenheiro Haroldo Graça Couto, à época presidente do Sindicato da Construção Civil do Estado do Rio de Janeiro, depois de visita a Brasília, no segundo semestre de 1957.

"Acredito cem por cento na realidade de Brasília, porque era e é uma velha aspiração brasileira, reafirmada agora em termos de realidade. E creio, mesmo, que estão errados muitos dos meus amigos, que acham estar o governo fazendo a coisa com excessivo açodamento. Estou, neste particular, com o presidente Juscelino: a questão de Brasília foi colocada no seu programa no sentido de ‘ou vai ou racha’. Aliás, creio que nenhum presidente brasileiro seria capaz de levar por diante esse plano segundo um esquema a longo prazo. E aconselho os descrentes a lerem o livro Planalto Central do Brasil, do cientista Luis Cruls."

José Olympio, editor da editora de mesmo nome

AGO/SET/OUT-1957

5 de agosto — A procedência dos trabalhadores que chegaram a Brasília é de 60% de Goiás, 13% de Minas, 11% de SP, 10% do Norte e Nordeste e 5% do Sul.
6 de agosto — O presidente do Ipase (Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores do Estado) informa que já tem três quadras em Brasília, nos quais vai construir mil apartamentos em obras que devem começar ainda em agosto.
7 de agosto — O primeiro grupo de famílias japonesas já está em Brasília (NOME DAS FMAÍLIAS). Já começaram o preparo da terra e das sementeiras. São especializados em horticultra e no preparo de pomares.
17 de agosto — Distribuídas as obras das superquadras 104, 105, 106, 107, 108, 206, 208, 304, 305, 306 e 307 entre os institutos de pensão: O Iapi vai erguer 500 apartamentos. O IAPB, 300. O IAPC, 108 apartamentos e 180 casas; e o Ipase, 1.000 apartamentos.
30 de agosto — Inaugurada a linha aérea Rio-BeloHorizonte-Brasília do Consório Real-Aerovias.
30 de agosto — A Cidade Livre já tem 300 casas de madeira, 11 hotéis, farmácias, comércio atacadista e varejista, 5 bancos, agências de passagem, restaurantes, churrascarias, cinema.
31 de agosto — JK percorre, em pequeno avião da Novacap, 130 km em construção da rodovia Brasília-Anápolis.

SETEMBRO
2 de setembro — A Novacap aprova normas para arrendamento de áreas na zona rural de Brasília, em lotes de 5 a 50 hectares, para agricultura, e de até 100 hectares paa criação. Cada lote será entregue a uma família em arrendamento por até 30 anos.
3 de setembro — JK autoriza Novacap a realizar concorrência administrativa para a execução de serviços de terraplenagem e obras de arte no trecho ferroviário Brasília—Foz do Rio Saia Velha, comum às linhas Brasília-Pirapora e Brasília-Colômbia.
7 de setembro — Inauguração da linha aérea do Lóide Aéreo com um DC-4.
13 de setembro — O Iapi já começou a construir o primeiro edifício dos 22 que pretende construir.
17 de setembro — Criada a Companhia de Guardas de Brasília/GEB
19 de setembro — Chegam a Brasília dez operários especializados em mecânica, motores Diesel, hidráulica e construções, selecionados na Europa pelo Comitê de Migrações Européias.
20 de setembro — O Brasil recebe empréstimo de US$ 10 milhões do Banco de Exportação e Importações dos Estados Unidos para financiamento da compra de estruturas de aço para os edifícios de Brasília.
27 de setembro — Inaugurada a sucursal da CEF. No mesmo dia, foram abertas 297 contas.

OUTUBRO
1º de outubro — JK sanciona, no Palácio do Catete, a lei que fixa em 21 de abril de 1960 a data para a mudança da capital federal.
18 de outubro — O ministro da Educação, Clovis Salgado, inaugura a primeira escola de Brasília. Desenhado por Oscar Niemeyer, foi construído em apenas 20 dias e possui cinco salas, cozinha, refeitório, instalações sanitárias e um parque de recreação. Trezentos alunos ocupam cinco classes.
26 de outubro — Lançada a pedra fundamental da Igrejinha. Será a primeira obra de alvenaria a ser concluída.

Igrejinha

Nascida do cruzamento da fé cristã com a ousadia da arquitetura moderna, a Igrejinha de Fátima é um dos monumentos mais estimados de Brasília. Do projeto inicial de se construir um templo religioso na unidade de vizinhança com capacidade para 800 fieis, a Igrejinha se transformou num estojo de joias da arquitetura, do paisagismo, da arte e da religião. O projeto arquitetônico é de Oscar Niemeyer, o de paisagismo, de Burle Marx, as portas e os azulejos do revestimento externo são de Athos Bulcão, e os afrescos internos eram de Alfredo Volpi. Hoje são de Galeno.

Três pilares de forma triangular sustentam os três vértices da laje abrindo um avarandado em toda a borda do edifício. Um outro triângulo, colado ao chão, forma o adro (elemento arquitetônico que define a área externa dos templos religiosos). O triângulo da laje aponta para o trîangulo do adro e os dois se sobrepõem a certa altura. Uma escadaria faz a ponte entre o tempo e a calçada que margeia a entrequadra.

A obra lembra outra igrejinha célebre da arquitetura moderna, a capela de Ronchamps, na França, projetada por Le Corbusier em 1950. A de Niemeyer ganha em leveza, como se tivesse sido adaptada para os calores e securas do Planalto Central. Quando começou a florescer no cerrado, a Igrejinha não estava sozinha. O Instituto de Assistência e Previdência dos Bancários (IAPC) começara a erguer o primeiro bloco da 108 Sul.

A Igrejinha foi rapidamente esboçada e construída a pedido de dona Sarah Kubitschek para pagamento de promessa feita a Nossa Senhora de Fátima. Costuma-se dizer que foi construída em 100 dias, mas, do lançamento da pedra fundamental à inauguração, passaram-se 216 dias.

Leituras

A epopeia da construção de Brasília, Adirson Vasconcelos, Edição do Autor, 1989

A igrejinha de Oscar Niemeyer, Francisco Lauande, www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/11.125/3888

Diário de Brasília, 1957/1958, Presidência da República

Guiaarquitetura Brasília, Sylvia Ficher e Geraldo Sá Nogueria Batista, Empresa das Artes

Guia de Urbanismo, Arquitetura e Arte de Brasília, Andrea da Costa Brata e Fernando A.R.Falcão

Igrejinha, cinquenta anos, Edite Antão de M. Leal, www.igrejinhadefatima.org

Mil dias para uma cidade, Brasília, José Adirson de Vasconcelos, Edição do Autor, 1963

Minha experiência em Brasília, Oscar Niemeyer, Editorial Vitoria

Programa de História Oral do Arquivo Público do Distrito Federal

Revista Brasília, números 8, 9 e 10, Novacap

AGRADECIMENTOS

Arquivo Público do Distrito Federal

D.A.Press


A estrada que descobriu um Brasil

"E as turmas avançam pela mataria, colhendo surpresas sobre surpresas: ao invés de uma planície escondida, sob a copa cerrada das árvores gigantes, o que tem sido descoberto nessa "entrada" civilizadora, é uma região acidentada, com montes e vales nunca antes suspeitados. Uma desconcertante surpresa geológica, se nos permitem a expressão… Um mundo novo, um mundo desconhecido, dentro do Brasil"

(Texto de Maurício Vaitsman, distribuído pela Agência Nacional, em 25 de setembro de 1958)

Conceição Freitas

A construção da capital foi a mais vistosa das conquistas brasileiras nos anos 50, mas não nasceu sozinha. A concentração de máquinas, operários, arquitetos, engenheiros, artistas, a visita constante de políticos, jornalistas e celebridades estrangeiras reduziu o brilho de outra aventura épica que se desenvolvia ao largo do sinal da cruz, mas que fazia parte do conjunto da obra de interiorização do território continental brasileiro: a construção de uma estrada que ligaria, pela primeira vez, o extremo norte ao restante do país, Belém do Pará a Brasília, a Amazônia ao Cerrado, o caboclo ao sertanejo, a borda ao coração do Brasil.

Belém-Brasília e Bernardo Sayão são quase sinônimos num dicionário de feitos épicos da história recente do país. A rodovia ganhou o nome do engenheiro, um ano depois de sua morte num clarão aberto para dar passagem à estrada. A linha que parte de Anápolis, sobe o Goiás, avança pelo Tocantins (que à época não existia), invade o Maranhão e desemboca no Pará estava traçada no peito do engenheiro desde que, na década de 1940, ele liderou a Marcha pelo Oeste, empreendimento de Getúlio Vargas para ocupar o interior do território brasileiro.

Mais de uma década antes da eleição de Juscelino Kubitschek e de sua decisão de construir e mudar a capital, Bernardo Sayão já havia aberto uma estrada entre Ceres e Anápolis, 142 km pioneiros, desbravados em 1944. Doze anos mais tarde, vice-governador eleito de Goiás, o engenheiro continuava tentando ligar os pontos da extensa linha reta que aproximaria Brasília de Belém, o Norte do restante do país. Brasília ainda era vaga promessa de Juscelino, a Companhia Urbanizadora de Brasília (Novacap) ainda nem havia sido criada, e Bernardo Sayão já estava em Belém do Pará projetando um fio de estrada sobre os mistérios da floresta e a claridade do Cerrado.

Em carta a um amigo, Mário Braga, datada de 26 de abril de 1956, ele relata: "Cá estou pela primeira vez, saboreando por antecipação, o que será um futuro difícil de prever, a ligação Goiás-Belém. Este porto, que é o maior do sententrião brasileiro, é impressionante pela situação em que se encontra. Cercado de água em abundância ou mata densa, como dizem os aviadores da selva bruta. A selva é tão fechada e alta, que ninguém sabe o que está sob a mesma; e, se cair um avião, por maior que seja, ela abre o o seio, recebe-o e torna-se a fechar, para a curiosidade mundana."

Ao escrever suas memórias sobre os feitos do período, Juscelino invoca para si a ideia de abrir a Belém-Brasília. Não se pode dizer que ele não tenha imaginado a ligação entre os dois pontos, mas se esqueceu de dizer que Sayão também cultivava o mesmo projeto e já o tinha executado, num pequeno trecho, nos anos 1940.

Escreve JK em Por que construí Brasília: "Lançadas as bases de Brasília, era tempo de estender o olhar pelo mapa e visualizar, mais uma vez, a presença do grande cruzeiro de estradas, que faria a integração nacional. Era a velha obsessão que me perseguia. A ligação do Brasil por dentro! Quando sobrevoava a Amazônia, figurava na mente a linha reta que vincularia Brasília a Belém. Seria uma linha, rasgada na floresta e estendida sobre rios caudalosos, que levaria a civilização a regiões só palmilhadas por índios. Havia chegado a hora de transformar a obsessão em realidade. Ia surgir a Belém-Brasília", escreveu à página 97.

A rigor, o risco imaginário ligando distantes Brasis havia sido esboçado no Plano Geral de Viação Nacional, elaborado pelo primeiro governo de Getúlio Vargas, antes do Estado Novo. Era a Rodovia Transbrasiliana, destinada a conduzir Belém do Pará a Livramento, no Rio Grande do Sul, cortando assim os estados do Pará, Maranhão, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Quase 6 mil km de estrada, de uma ponta a outra do país. Mas embrenhar-se na Amazônia continuava sendo um vago projeto contido nas intenções.

Se Juscelino não foi o primeiro e único a idealizar a Belém-Brasília, como fica sugerido em suas memórias, é certo que ele deu a Sayão as ferramentas para a empreitada. Em 19 maio de 1958, criou a Comissão Executiva da Rodovia Belém-Brasília, a Rodobras, empresa responsável pela construção dos 2,2 mil km de estrada, dos quais 550 eram de selva até então impenetrável. Para vencer a imponência selvagem e emaranhada da Amazônia foi necessária uma frente de mateiros e topógrafos que a imprensa designou à época de "suicidas", dados os riscos que aqueles homens corriam diante das muralhas verdes que escondiam feras, índios e doenças.

Como relatou o repórter Alberto Homsi, de O Globo, em setembro de 1958: "O que esse punhado de brasileiros está fazendo é difícil de descrever. Estão, às custas de imensos sacrifícios, descobrindo o Brasil para os brasileiros. Ali existe de tudo, inclusive batalhões "suicidas", constituídos por aqueles que, como os topógrafos, avançam em picadas vinte ou mais quilômetros dentro da mata e ali passam meses sem ver a luz do sol, aguardando os suprimentos e as mensagens que lhes cheguem de paraquedas". Boa parte dos desmateiros eram garotos nordestinos, de 18 a 20 anos.

Dez meses antes, em 7 de novembro de 1957, Juscelino havia sobrevoado o traçado da rodovia, vindo de Belém em direção ao Rio de Janeiro. Estavam com ele Bernardo Sayão e o superintendente do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, Waldir Bouhid. A essa altura, a ponta norte da estrada já estava aberta e asfaltada em 40km, entre Belém e Guamá e, na ponta sul, já tinham sido cortados e encascalhados 700km a partir de Anápolis em direção ao norte.

A obra consumiu 3,4 mil homens, em três frentes de trabalho (com bases em Belém, Imperatriz (MA) e Anápolis), mais de 1,5 mil máquinas, entre caminhões, tratores, aplainadeiras e solidificadoras e onze construtoras. Duas frentes de trabalho, a de Imperatriz e a de Anápolis, partiram uma em direção à outra, e o encontro das duas passou a ser esperado com a ansiedade de quem aguarda o primeiro pouso na Lua.

Para a turma que saía do Centro-Oeste, era moleza. Para a que saía do Norte, a partir de Imperatriz (MA), era uma tarefa incomparavelmente mais árdua do que a de construir palácios no cerrado. "Essa é a frente de trabalho mais rude e difícil que se possa imaginar. É toda a agressividade da selva da Amazônia jamais penetrada pelo civilizado que está sendo vencida pelo esforço patriótico dos técnicos e trabalhadores brasileiros", escreveu Vaitsman.

Se não foi fácil enfrentar a floresta, não menos difícil foi conseguir juntar as duas pontas da estrada. Houve um desvio de quilômetros, conforme relata a revista virtual O Empreiteiro (www.oempreiteiro.com.br). Foi preciso demorada revisão de trajeto, a partir de levantamentos aéreos, para finalmente se conseguir a ligação. É este, aliás, o nome de uma vila onde se deu o encontro das duas frentes, Ligação, no município de Dom Eliseu, no sul do Pará.

Se para os do Sul e Sudeste, a Belém-Brasília era uma "estrada das onças", destinada a cortar territórios inabitados, para os do Norte era a primeira ponte entre os insulados e o restante do país. A Belém-Brasília mudou o lugar de moradia dos nortistas — da rarefeita demografia ribeirinha à intensa, conflituosa, ecologicamente incorreta e urbanamente eufórica civilização à beira do asfalto. Dezenas de cidades foram surgindo a partir da rodovia. Ao todo, segundo estimativa da extinta Rodobrás, a influência da estrada se estendeu por 4,8 milhões de km².

Três meses antes da inauguração de Brasília, a Caravana da Integração Nacional percorreu toda a estrada. Cinquenta e seis carros, de fabricação brasileira, (da Willys, da Vemag, da Wolkswagen, da Chevrolet e da Mercedes Benz) chegaram à nova capital. Enfrentaram vias pavimentadas, trechos quase intransitáveis, dormiram em barracas, atravessaram rios em balsas e, dez dias depois, chegaram a Brasília.

A estrada existia. Num clarão no meio da selva, em 15 de janeiro de 1959, 16 dias antes do encontro das duas frentes de trabalho, havia tombado o engenheiro Bernardo Sayão, que hoje dá nome à rodovia. A estrada e o homem encadeados na história.

Datas

Novembro e dezembro de 1957 e janeiro/1958

7 de novembro de 1957 — JK sobrevoa o traçado previsto para a Belém-Brasília, vindo de Belém em direção ao Rio.

14 de novembro — Ateia-se o primeiro fogo ao forno reversível de tijolos de cerâmica da Novacap em Brasília. O forno faz parte de um conjunto de quatro, sendo que o segundo já se acha em fase de conclusão e os dois últimos estão sendo construídos. A capacidade é de 20 mil tijolos furados ou de 25 mil tijolos simples.

14 de novembro — O presidente Juscelino autoriza o DNER a conceder à firma Andrade Gontijo a execução de serviços de reconhecimentos parciais, exploração, projeto e locação do eixo de todo o trecho da ligação BH-Brasília.

16 de novembro — Convênio entre o Ministério da Agricultura e o Estado de Goiás encarrega o governo goiano a construir a linha de transmissão Cachoeira Dourada-Anápolis, na importância de Cr$ 35 milhões. A linha facilitará o abastecimentode enérgia elétrica a Brasília.

30 de novembro — Cinco empreiteiras executam serviços de terraplenagem e pavimentação da rodovia Brasília-Anápolis, Outras cinco constroem as pontes. As obras da ligação Brasília-BH, tendo como pontos de passagem obrigatória Luziânia, Cristalina, Paracatu, João Pinheiro, Três Marias, Felixlândia e Sete Lagoas, já começaram. Está sendo executado otrecho Brasília/Luziânia.

2 de dezembro — A Novacap decidiu instalar um Centro de Abastecimento em Brasília, conjunto monumental onde se concentrará todo o comércio atacadista de gêneros alimentícios e de armazéns, silos e frigoríficos, bem como de um mercado livre para atender Brasília.

6 de dezembro — Chegam as primeiras doações ao zoo: guariba, jaó, gaviãozinho, raposa do campo, tatu-galinha, elefante, mutum, juriti e lagarto teiú.

14 de dezembro — Israel declara a jornalistas paulistas que já aplicou cerca de Cz$ 1 bilhão nas obras de terraplenagem, abertura de avenidas e na construção do Palácio da Alvorada e de um grande hotel. Até 1960, serão aplicados cerca de Cz$ 6 milhões e 10 milhões de dólares.

24 de fevereiro — O ministro da Guerra reivindica e JK concede uma área de 60 hectares destinada ao Colégio Militar.

31 de dezembro — Balanço da Novacap anuncia que, em 1957, a Divisão de Construção e Pavimentação da Novacap abriu 237 km de estradas internas, com 1.397.000 m² de área desmatada e 470.600 m³ de terraplenagem. A piscina do Alvorada está pronta. A concretagem da capela terminou. Foram instalados elevadores e troncos de rede telefônica. A terraplenagem dos arredores do palácio, as instalações da cozinha e da lavandeira também estão concluídas. Está pronto o acabamento do Brasília Palace Hotel. Elevadores, troncos telefônicos, cozinha e lavanderia também estão prontos. A fundação e o estaqueamento do Congresso Nacional já estão sendo feitos. Começou o asfaltamento do Eixo Monumental. Começaram os estudos de sondagem dos edifícios dos ministérios, cuja construção começará em julho de 1958.

18 de janeiro de 1958 — Israel Pinheiro informa ao Itamaraty que a Novacap autorizou a reserva de áreas, no Plano Piloto, destinadas às sedes das embaixadas estrangeiras.

Leituras

Dez dias na Belém-Brasília, Afranio Melo, Cadernos Belém-Brasília, Rio de Janeiro, 1960

Diário de Brasília, Serviço de Divulgação da Presidência da República, 1960

Meu pai, Bernardo Sayão, Léa Sayão, Edição do Autor, 1994

Por que construí Brasília, Juscelino Kubitschek, coleção Brasil 500 anos, Senado Federal, Brasília, 2000

Revista O empreiteiro (www.revistaoempreiteiro.com.br)

Revista Quatro Rodas, número 61, agosto de 1965

Rodovia Belém-Brasília, a rodovia da unidade nacional, e suas implicações de ordem técnica, econômica e política, Comissão Executiva da Rodovia Belém-Brasília, 1960

Rodovia da Unidade Nacional: o processo de urbanização no entorno da Rodovia Belém-Brasília, Rafael Araújo Pacheco, trabalho final de graduação em geografia na Universidade Federal de Uberlândia, 2009

AGRADECIMENTOS

Arquivo Público do Distrito Federal

D.A.Press

Arquivo Família Bernardo Saião
Construção da rodovia Belém-Brasília, A Rodovia da Unidade Nacional.


A construção da sabedoria de morar

"Creio que houve sabedoria nesta concepção: todos os prédios soltos do chão sobre pilotis, no gabarito médio das cidades europeias tradicionais — antes do elevador —, harmoniosas, humanas, tudo relacionado com a vida cotidiana; as crianças brincando à vontade ao alcance do chamado das mães, com a escola primária na própria quadra; no acesso a cada quatro delas, um núcleo comercial com "lojas de bairro", e nas demais entrequadras, alternando-se, escola secundária, igreja, clube, cinema, supermercado." (Registro de uma vivência, Lucio Costa, Empresa das Artes, 1995)"

(Texto de Maurício Vaitsman, distribuído pela Agência Nacional, em 25 de setembro de 1958)

Conceição Freitas

Há pelo menos um (certo) consenso entre arquitetos e urbanistas que investigam erros e acertos do projeto de Lucio Costa para Brasília: as superquadras são o que de melhor o urbanismo moderno produziu para a nova capital. Dito de modo acadêmico: "Ao se considerar as soluções urbanísticas distintivas de Brasília, aquela de maior sucesso e mais consagrada em termos de organização físico-espacial é encontrada, sem dúvida, nas chamadas superquadras, grandes quarteirões de 280mx280m cada um, distribuídos ao longo das asas Sul e Norte", escreveram Sylvia Ficher, Francisco Leitão, Geraldo Nogueira Batista e Dionísio Alves de França em Blocos Residenciais das Superquadras do Plano Piloto de Brasília.

Lucio Costa tinha consciência, tanto quanto Juscelino, de que a superquadra era fundamental para a transferência e consolidação da nova capital. Além disso, informa a arquiteta Maria Elisa Costa, sua filha, sabia que a ideia não serviria exclusivamente a Brasília, "poderia ser empregada alhures". Passado meio século, as construtoras tentam imitar, sem sucesso, o projeto original. "A meu ver, diz Maria Elisa, a superquadra é mesmo um achado. Conseguiu introduzir um modo novo de convívio urbano que, embora inovador, não assustava as pessoas". Ela observa que a parte que Lucio Costa mais detalhou no projeto do Plano Piloto foi "a sequência das áreas de vizinhança ao longo do Eixão, que ele chamava de Eixo Rodoviário-Residencial".

Para começar logo a construir as superquadras e visto que não era de competência da Novacap erguer moradias para os habitantes da nova capital, o presidente Juscelino Kubitschek encontrou uma saída à mão: usar os recursos dos milionários institutos de aposentadoria, que à época respondiam pelos benefícios previdenciários dos trabalhadores públicos e privados. Como explica Luis Fernando Tamanini, em Memória da Construção: "Esses institutos viviam e sobreviviam de uma receita que provinha de três fontes: do desconto mensal feito no salário do trabalhador, da contribuição compulsória do patrão e de uma contribuição do governo igual à soma das outras duas."

O governo nunca havia pago a sua parte. Juscelino propôs saldar as dívidas com os institutos, mas o dinheiro teria de ser usado para construir os blocos das superquadras. O patrimônio construído pertenceria às instituições, mas seriam arrendados à União que os destinaria aos servidores públicos transferidos para Brasília, ainda segundo Tamanini. Foi desse modo que, em agosto de 1957, chegavam a Brasília os primeiros caminhões, operários e engenheiros que viriam erguer as primeiras superquadras da nova capital.

No mesmo mês oito, o engenheiro e empresário Cláudio Sant’Anna chegou à cidade em construção. Dono da Kosmos Engenharia, sediada no Rio de Janeiro, veio para erguer blocos de apartamentos do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários (IAPC). Único empreiteiro que morou desde então e até o fim da vida em Brasília, Sant’Anna foi o primeiro a concluir um bloco de apartamento, na 106 Sul, em junho de 1959. O feito mereceu festa com a presença do presidente da República e placa de bronze nas proximidades do edifício. "Foi um churrasco muito bonito, com toalha de linho, com mesas decoradas e tudo."

Quem também participou da construção das primeiras superquadras foi o arquiteto João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé. Recém-formado, desenhista do IAPB, no Rio de Janeiro, quis vir para Brasília quando poucos se dispunham a largar o mar para se enfurnar no interior desconhecido. Lelé veio executar os projetos de Oscar Niemeyer para a 108 Sul. Conta que, por precaução, recolhia todas as armas dos candangos recém-chegados. "Havia as coisas mais estranhas, revólveres antigos, punhais e até um bacamarte."

Um dos relatos mais detalhados do que foram os primeiros meses de acampamento na Asa Sul são de Manuel Mendes, funcionário do Ipase, mais tarde jornalista. Mendes chegou a Brasília em novembro de 1957. O futuro chefe do almoxarifado do instituto instalou-se no canteiro de obras — ou seja, no "cerrado contínuo e denso",como escreveu em Meu testemunho de Brasília. As quadras ainda não estavam divididas, existiam apenas nos marcos deixado pela equipe de topografia. Mendes lembra-se do que viu quando desceu no lugar onde seria construído o primeiro bloco de uma superquadra. "A imagem que tinha era a de estar na retaguarda de um campo de batalha".

Somente três meses depois, no final de fevereiro de 1958, foi que o primeiro bloco do Ipase começou, efetivamente, a ser construído. A demora devia-se à inteira precariedade do lugar. Era preciso começar tudo do zero, como se todos ali tivessem de reinventar o mundo. "Como não havia eletricidade em Brasília, cada acampamento tinha de instalar seu próprio grupo gerador para mover serras, betoneiras, vibradores, guinchos." Uma semana depois de conseguir instalar o gerador, o Ipase começava a cavar buraco para a fundação do atual bloco C (à época bloco 9) da 208 Sul.

Os institutos disputavam quem primeiro chegava à cumeeira, concluía a alvenaria, inaugurava o bloco e, claro, trazia Juscelino para as comemorações de cada um dos feitos. Nessa disputa, flagrou-se uma esperteza nada elogiável, segundo contam testemunhas daqueles tempos. "Os blocos tinham (têm) seis pavimentos, erigidos sobre pilotis. Para se chegar à cumeeira, deveriam ser concretadas sete lajes. Foi aí que os engenheiros do IAPB aplicaram o golpe: amarraram uma laje sim e outra não. Com apenas quatro lajes concretadas, eles estavam na cumeeira", relata Manuel Mendes. A falcatrua deu-se no bloco K da 108 Sul, segundo Mendes. Apesar dos protestos, houve comemoração com churrasco e Juscelino.

A presença dos institutos de pensões nos primeiros anos de Brasília foi tão significativa que, durante certo tempo, da construção à consolidação da cidade, os brasilienses identificavam os blocos das superquadras não pelos número e letras, mas pela sigla da instituição que a construiu. Dizia-se ‘moro no Iapb’, ‘vou me mudar para o Iapi’…Em 1964, os institutos foram fundidos na Previdência Social mas, em Brasília, eles ficaram na memória afetiva dos candangos. Muitos deles vivem nas superquadras que ajudaram a erguer, como o acreano Renizio Marcellino da Silva, de 81 anos, que foi chefe de escritório do Iapetec. Renízio chegou em março de 1958, e encontrou uma Asa Sul em estado de natureza bruta. Apenas alguns blocos do IAPB surgiam na paisagem; e uma ou outra fundação começava a ser feita. A Revista Brasília, do mesmo mês, confirma o depoimento de Renízio. As superquadras começaram a ser construídas no começo de 1958. Em agosto do mesmo ano, a Fundação da Casa Popular inaugurava 50 unidades residenciais na 708, 709 e 710 Sul. Com elas prontas, Oscar Niemeyer fechou o escritório no Rio e se mudou para Brasília com sua equipe e amigos que convocou para lhe fazer companhia.

A fartura de monumentos arquitetônicos, o desenho impositivo do Plano Piloto, com seus eixos e asas, a saga da construção, tudo junto, ofuscou a riqueza urbana da superquadra. A excepcional criação (ou aprimoramento de uma ideia moderna) de Lucio Costa ficou "quase esquecida, anônima", escreveu Alfredo Gastal, superintendente do Iphan, na apresentação de A invenção da superquadra, de Marcílio Mendes Ferreira e Matheus Gorovitz.

Embora a palavra superquadra esteja nos mais consultados dicionários brasileiros, o Houaiss e o Aurélio (veja verbete nesta página) como sendo uma palavra criada em Brasília ou a partir de Brasília, ela já era utilizada no século 19 para designar o superblock americano, ensina a professora Sylvia Ficher, da faculdade de arquitetura da Universidade de Brasília (UnB). Quatro superquadra compõem uma unidade de vizinhança, solução urbana que vinha sendo desenvolvida desde a década de 1920. Mas foi Lucio Costa, em Brasília, que garimpou a pedra bruta e lhe deu vida.

GLOSSÁRIO

IAPB — Instituto de Aposentadora e Pensões dos Bancários

IAPI — Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários

IAPC — Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários

IAPM — Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos

Ipase — Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Servidores Públicos do Estado

Iapetec — Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Estivadores e Transportes de Cargas

Capfesp — Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários e Empregados do Serviço Público

"MORO NO IAPETEC"

IAPI — 105, 305 e 409 /410 Sul — Os blocos da 105 e 305 Sul foram projetados pelo arquiteto Hélio Uchoa, que trabalhava no escritório de Lucio Costa.

Iapetec — 107 e 307 Sul — Os onze edifícios da 107 são projetos de Oscar Niemeyer (iguais aos da 108 Sul)

IAPC — 106 e 306 Sul, 403/404 e 405/406 Norte — Os blocos da 106 são projetos de Oscar Niemeyer. Os blocos das Quatrocentos foram os primeiros a serem construídos na Asa Norte e foram os que mais agradaram Le Corbusier, quando ele visitou Brasília

IAPB — 108, 109 e 308 Sul e 312 Norte — Os 11 blocos da 108 Sul (456 apartamentos) — Com projetos de Oscar Niemeyer, os blocos foram inaugurados em 2 de fevereiro de 1960 com o nome de Conjunto Habitacional Presidente Juscelino Kubitschek. No mesmo ano, o IAPB começou a construção, na 109 Sul, de blocos residenciais para seus executivos. Também deu início às obras da 312 Norte

Ipase — 206, 207 e 208 Sul

Capfesp — 104 e 304 Sul. Projetos de Oscar Niemeyer

Fundação da Casa Popular — 411, 412 e 413 Sul. Os bloquinhos JK foram projetados por Oscar Niemeyer

Caixa Econômica Federal — 110, 111, 202 e 214 Sul; 206 e 302 Norte e blocos em diversas superquadras e outras quadras duplas.

Banco do Brasil — 114, 308 e 204 Sul. Os prédios da 308 Sul são de Marcelo Campello e Sérgio Rocha. O jardim de infância é de Stéllio Rodolpho Seabra, a escola-classe, de Oscar Niemeyer e o projeto paisagístico, de Burle Marx. Na 114 Sul, os porjetos de arquitetura e urbanismo são também de Campello e Rocha. A escola-classe e o jardim de infância são de Nauro Esteves e Wilson Reis Neto

SUPERQUADRA, NO DICIONÁRIO

No Houaiss:

superquadra [De super + quadra] S.f. Bras. DF Área residencial aberta ao público, em contraposição a condomínio fechado, com uma única entrada para veículos, emoldurada por larga faixa verde densamente arborizada, com edificações de gabarito uniforme de seis ou três pavimentos sobre pilotis livres, e equipamentos de uso comum, como playgrounds e escolas [Em Brasília, ficam situadas em quatro sequências contínuas, ao longo do eixo rodoviário.]

No Aurélio:

Superquadra s.f. (C1960) área residencial urbana, aberta, constituída por blocos de apartamentos, escolas, playgrounds, zonas ajardinadas etc., e na qual o tráfego dos veículos se acha separado do trânsito de pedestres (as s. de Brasília) . ETIM super + quadra;

O QUE É UMA PROJEÇÃO?

Projeção é uma nomenclatura tipicamente brasiliense. É o lote suspenso acima dos pilotis dos blocos das superquadras. O térreo dos blocos é de domínio público, ao contrário do que pensam e desejam moradores e síndicos. Lucio Costa tirou do chão a propriedade privada. Ela começa no primeiro andar.

LEITURA

A invenção da superquadra, Marcílio Mendes Ferreira e Matheus Gorovitz, Iphan, 2008

Blocos residenciais das superquadras de Brasília, Sylvia Ficher, Francisco Leitão, Geraldo Nogueira Batista e Dionísio Alves França, Jornal do Crea DF, nº 45, de outubro de 2004

Brasília, memória da construção, L.Fernando Tamanini, Projecto Editorial, 2003

Depoimento de Cláudio Oscar de Carvalho Sant’Anna ao Arquivo Público do Distrito Federal em 1989

Diário de Brasília, Serviço de Documentação da Presidência da República, 1960

Meu testemunho de Brasília, Manuel Mendes, Thesaurus, 1997

Por que construí Brasília, Juscelino Kubitschek, coleção Brasil 500 anos, Senado Federal, 2000

Superquadra: pensamento e prática urbanística, Marília Pacheco Machado, dissertação de mestrado em arquitetura da UnB, 2007

AGRADECIMENTOS

Arquivo Público do Distrito Federal

DA Press


Tá vendo aquele edifício, moço?

O desafio extremo dos operários que montaram as estruturas metálicas dos ministérios

Conceição Freitas

Em nenhuma outra obra de Brasília se exigiu mais dos operários brasileiros do que nos onze primeiros ministérios e nas duas torres do Congresso Nacional. A estrutura metálica era uma tecnologia desconhecida até mesmo para engenheiros e arquitetos brasileiros da época. O peão de obra que deixou a enxada para se pendurar em esqueletos de ferro arriscou a vida e conseguiu montar, com rebites incandescentes lançados de baixo para cima e pegos no ar, o quebra-cabeças que sustenta os ministérios e o Anexo I do Congresso.

A construção do dominó verde da Esplanada foi possível a partir de um desastrado contrato da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) com uma empreiteira. A barafunda começou com um pedido de empréstimo de 10 milhões de dólares pedido ao Export-Import Bank, no final de 1956. A contrapartida, segundo se comentava à época, era que o Brasil contratasse uma empresa norte-americana para participar da construção de Brasília. "Americano não dá prego sem nó", traduziu o engenheiro Cláudio Sant’Anna, um dos muitos a sugerir que o empréstimo havia sido uma operação casada.

Menos de um ano depois da concessão do empréstimo, a Novacap assinou contrato com a Raymond Concrete Pile Company, para o fornecimento e montagem das estruturas metálicas de 16 ministérios, da barragem do Lago Paranoá e das duas torres do Congresso Nacional. A Raymond faria a obra e a Novacap, a fiscalização. No contrato assinado em novembro de1957, foi fixado o prazo de quatro meses para a montagem das estruturas do primeiro ministério e, daí em diante, os demais teriam de ser concluídos em oito meses, "na razão de dois prédios ao mês", conforme revela o pesquisador Luís Carlos Lopes, em Brasília, o enigma da esfinge. Engenheiros e técnicos americanos vieram para Brasília, construíram confortáveis casas de madeira, em estilo tipicamente americano, no acampamento Tamboril, na hoje Vila Planalto, mas meados de 1958 nem sinal de obra na área destinada aos ministérios.

Foi quando o presidente da Novacap, Israel Pinheiro, avisou aos executivos da Raymond, em carta enviada aos EUA, que o secretário de Estado John Foster Dulles, em breve visita ao Brasil, viria a Brasília para "apertar o primeiro parafuso da primeira peça das estruturas metálicas levantadas para o primeiro edifício ministerial". Assim foi. A 6 de agosto de 1958, Dulles veio e apertou o primeiro parafuso da primeira estaca de ação do prédio destinado ao Ministério das Relações Exteriores (que só seria concluído em 1970). Poderia ser o prenúncio de que tudo correria bem daí em diante, mas não foi o que aconteceu. Com o tempo, começou-se a perceber que os norte-americanos estavam metendo os pés pelas mãos e não conseguiam avançar com a obra na rapidez necessária.

"Os americanos chegaram (ao Brasil) cheios de exigência", conta Juca Chaves. "Queriam ar-condicionado, trouxeram geladeira, tudo o que não tínhamos nos acampamentos. Queriam que a Novacap pagasse até a roupa deles. Até o papel higiênico eles colocavam na conta". Logo, começaram a surgir "suspeitas generalizadas de corrupção e fraude", conta o pesquisador Luís Carlos Lopes. A Novacap, então, decidiu fazer uma auditoria na Raymond, que atuava no Brasil com o nome fantasia de Construtora Planalto (daí a Vila Planalto).

Um ano depois de iniciadas as investigações, fez-se um relatório das irregularidades: desperdício de materiais, excesso no consumo de combustível, irregularidades no departamento de compras, corrupção na compra de areia para a barragem do Lago Paranoá, irregularidades na contração de pessoal (salários muito elevados para os norte-americanos e para alguns brasileiros; falta de higiene e de estruturas sanitárias os alojamentos e canteiros de obras, presença de varíola, alimentação de má qualidade e situações de indisciplina e agitação social.

A essa altura, Juscelino e Israel Pinheiro sabiam que os americanos estavam pondo em risco a transferência da capital. "Por diversas vezes — escreve JK em suas memórias —, chamei a atenção dos diretores da firma (Raymond) para a necessidade de que se adaptassem ao "ritmo de Brasília". Prometiam. Garantiam que o serviço seria acelerado. Asseguravam a chegada de novos técnicos e melhor equipamento. E, assim, os dias iam passando, sem que se observasse qualquer progresso na obra". Juscelino lembra, em Por que construí Brasília, que os norte-americanos "antes do início dos trabalhos preocupavam-se exclusivamente com seu conforto pessoal (…). A noite era consumida em alegres rodadas de uísque. Nada de flama, do élan, da preocupação de bater recordes característicos do ‘espírito de Brasília.’" JK referia-se à construção da barragem, mas o comportamento dos americanos, segundo vários depoimentos de candangos ao Arquivo Público, não mudou em nenhuma das obras que lhes foram destinadas em Brasília. Até água foi servida em substituição ao café da manha, constatou a auditoria.

Prenunciado o desastre, Israel decidiu rever o contrato com a Raymond. Foram feitas "modificações substanciais, quase uma rescisão de contrato", escreve Luís Carlos Lopes. Os norte-americanos arrumaram as malas e só deixaram na cidade as belas casas de madeira da Vila Planalto e alguns representantes encarregados formalmente de acompanhar as obras até 31 de dezembro de 1959, quando deveriam ficar prontas. Um pool de empreiteiras brasileiras assumiu as obras e operários, que nunca haviam visto uma viga metálica, continuaram arriscando suas vidas para dar conta de concluir o serviço.

"Foi uma dificuldade muito grande", relembra o arquiteto João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, que veio para Brasília, recém-formado, em 1957. "Nós não tínhamos nenhuma tradição de aço, foi uma coisa incrível as empresas terminarem os ministérios após o rompimento do contrato". Foi um desafio extremo para os candangos. Os operários, sem nenhum equipamento de segurança, pendurados nos andares mais baixos lançavam os rebites incandescentes, para os operários que estavam mais acima. Com luvas reforçadas, eles pegavam no ar o aço em brasa e fixavam a peça nos pilares e vigas para fundi-los num só corpo estrutural.

Quando anoitecia, cometas de fogo pareciam cortar a escuridão da Esplanada. Eram os candangos lançado os rebites afogueados, construindo a nova capital e arriscando o único bem que possuíam.

A primeira obra pública verde de Brasília

A estrutura metálica está de volta a Brasília agora em uma versão sustentável. Não estão mais escondidas atrás de uma capa de concreto e uma cortina de brise-soleil nem se resumem ao esqueleto da obra. O aço sustenta agora uma peça de arquitetura contemporânea que segue critérios internacionais de construções sustentáveis e respeita exemplarmente as escalas do Plano Piloto. Inaugurado em abril passado, o Fórum do Meio Ambiente e da Fazenda Pública do Distrito Federal, que tem sido chamado de Fórum Verde fica atrás do Palácio do Buriti, nas proximidades dos prédios da Codeplan e da Terracap.

O prédio de linhas brancas, vidros verdes e um volume vertical vermelho é o primeira obra pública de Brasília a atender as premissas do Green Buiding Council (LEED), certificado internacional de construção sustentável. O prédio também concorre ao prêmio GBC 2011, concedido pela mesma instituição. Com estruturas metálicas aparentes, o Fórum Verde aproveita a iluminação natural e a ventilação cruzada em todos os ambientes, como explica o arquiteto Siegbert Zanettini, da Zanettini Arquitetura, escritório responsável pelo projeto junto com a arquiteta Sandra Henriques. O volume se sobressai na vizinhança de blocos antigos, construídos sob a influência da arquitetura do concreto armado.

O bloco de vigas quadriculadas oferece, a quem o visita, uma sucessão de boas surpresas tecnológicas/arquitetônicas/ecológicas. A leve rotação do edifício dentro do terreno, recuando metade da obra, permitiu a criação de floreiras em todos os pavimentos, o que ajudou a "humanizar o ambiente, ajudar na proteção do Sol e melhorar a qualidade do ar", como explica Zanettini, um dos mais importantes arquitetos brasileiros no uso da tecnologia do aço. A cobertura virou um jardim, o que reduz o calor do prédio. Ao lado, existe uma estação compacta de tratamento de esgotos, a captação de águas pluviais, a reutilização de águas pluviais para fins não potáveis (descarga, lavagem de pisos, irrigação de jardins).

Cuidados que não foram levados em conta na construção de Brasília. Naquele tempo, a arquitetura moderna não levava em conta a sustentabilidade da obra. "O movimento modernista foi unidimensional, partia de uma visão estética. Nisso, se difere da arquitetura contemporânea que tem uma visão holística, que junta o racional ao sensível. É uma visão mais complexa, que busca atender aos condicionantes naturais da vida humana", explica Siegbert Zanettini, em entrevista por telefone.

Essa visão mais complexa da arquitetura era minoritária, quase invisível, nos tempos da construção de Brasília e na primeira década depois. Zanettini cita Rino Levi como um dos poucos arquitetos do período a terem preocupações com a obra sustentável. Levi participou do concurso do Plano Piloto de Brasília. Quando a cidade foi inaugurada, Siegbert Zanettini estava concluindo o curso de arquitetura na Universidade de São Paulo (USP). Como todos os de sua época, ficou impressionando com a construção de Brasília, ainda que pertencesse a uma outra escola, a paulista, que se pautava por preocupações mais tecnológicas, ao contrário da carioca, que exaltava a questão estética, como explica o próprio Zanettini.

Em comemoração aos seus 50 anos de carreira (e mais de 1,2 mil projetos construídos), Siegbert Zanettini lançou o livro A boa arquitetura de uma geração, resultado de uma exposição que reuniu a obra de 18 arquitetos brasileiros que se destacaram pela qualidade de sua produção. Entre eles estão João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, Joaquim Guedes, Paulo Mendes da Rocha, Ruy Ohtake. "O mundo só conhece Oscar Niemeyer, mas ele não é o único grande arquiteto brasileiro", diz Zanettini. (CF)

Brasília, o enigma da esfinge, Luís Carlos Lopes, Editora da UFRS/Editora Unisinos, 1996

Depoimentos ao Programa de História Oral do Arquivo Público de Brasília

Por que construí Brasília, Juscelino Kubitschek, Senado Federal/ 2000

Revista Brasília, número 20, agosto de 1958

AGRADECIMENTO
DA Press


No meio do caminho… havia uma seca

Conceição Freitas

A construção de Brasília já havia consumido metade do tempo estabelecido para a obra, 22 dos 43 meses decorridos entre outubro de 1956 e abril de 1960. Em julho de 1958, Brasília já acolhia 35 mil habitantes, segundo informa a Revista Brasília, edição nº 18. O balanço das obras era o seguinte:

· Aeroporto, Palácio da Alvorada, Brasília Palace Hotel, Igrejinha, Ermida Dom Bosco e Rodovia Brasília-Anápolis concluídos e inaugurados.

· Eixo Monumental asfaltado.

· Avenida das Nações também asfaltada.

· Congresso Nacional em fase de feitura de fundações.

. Supremo Tribunal Federal também em fase de fundação

· Ministérios em fase de sondagem do terreno.

· 32 superquadras em diferentes fases de construção: desde as que já estavam com o esqueleto montado às que ainda preparavam os acampamentos.

· Quase prontas as 500 unidades da Fundação da Casa Popular na W-3 Sul.

. A Caixa Econômica Federal constrói, na W-3 Sul, 222 casas geminadas e 40 lojas.

· Barragem do Lago Paranoá em fase inicial.

Faltava muito — o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal, a Rodoviária, a Catedral, o Teatro Nacional, os setores bancário, comercial e de diversões, as escolas classe, escolas parque, os cinemas, as entrequadras comerciais, a demarcação e asfaltamento das vias, obras que ficaram prontas ou foram iniciadas antes de 21 de abril de 1960. (Torre de Tevê, Conjunto Nacional, Conic, Rodoferroviária, QG do Exército e muitas superquadras e entrequadras foram construídos depois da transferência da capital).

Se os problemas iniciais haviam sido vencidos — escassez de material de construção, ausência de vias de acesso, dificuldade para contratação de mão de obra —, um outro surgia, de modo inesperado e descomunal: a vinda de milhares de brasileiros para a nova capital em busca de emprego. A ponto de Israel Pinheiro, presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), ter mandado interceptar a entrada de novos candangos em Brasília. Em 1958, a Cidade Livre já era um caótico aglomerado urbano com 2,6 mil estabelecimentos comerciais e sete agências bancárias.

Como escreve Bahouth Júnior em Taguatinga: Pioneiros e Precursores (página 63): "A rigor tudo começou quando o Núcleo Bandeirante já estava superpovoado, mas, ainda assim, aumentava de forma considerável o fluxo de pessoas que vinham para Brasília. De dia e de noite as invasões proliferavam, sem que fosse possível impedi-las. Chegou-se ao extremo de interceptar caminhões na estrada, obrigando-os a retornarem às cidades de origem. E foi exatamente nas proximidades desse local (no ponto em que hoje existe a ligação entre Taguatinga e o Núcleo Bandeirante) que se formou um núcleo habitacional que em poucos dias abrigava uma população de aproximadamente mil pessoas. Eram na maioria viajantes deixados à beira da estrada pelos motoristas que, impedidos de atingir Brasília, abandonavam seus passageiros entregues à própria sorte."

Ou, na versão de Ernesto Silva, em artigo publicado no Correio Braziliense em 5 de junho de 2008: "Naqueles tempos, milhares de migrantes, muitos com suas famílias, se dirigiam ao Planalto Central, em busca de empregos. A cada dia, novas levas desembarcavam. A construção de acampamentos de madeira não podia mais atender a demanda. Passou, então, esse povo a se alojar em torno dos acampamentos, ao longo da atual Avenida W-3 e nas imediações da Cidade Bandeirante (Cidade Livre)".

A migração de nordestinos rumo ao Sudeste havia encontrado um destino alternativo, a nova capital do país, movimento que se intensificou por conta da grave seca de 1958 no Nordeste. O dia D da migração nordestina país abaixo foi o 19 de março, dia de São José. Acreditava-se fortemente à época que, se nesse dia não chovesse, era sinal de que a estiagem seria cruel. Estava dada a largada, como anunciou manchete do jornal Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo), em 20 de março: "Perdida a esperança de ‘inverno’, deverá iniciar-se agora a retira em massa de populações nordestinas".

Menos de três meses depois, surgia nas proximidades do Núcleo Bandeirante, à margem da BR-060, a Vila Sarah Kubitschek, assim estrategicamente denominada para tentar atenuar "a implacável repressão a que vinham sendo submetidas as ocupações nas proximidades das obras centrais", como escreveu Jusselma Duarte de Brito em De Plano Piloto a metrópole, tese de doutorado apresentado à Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB).

Juscelino registrou os acontecimentos de maio/junho de 1958, em Por que construí Brasília: "Foi uma situação dramática. Cerca de 5 mil flagelados, tangidos pela seca do Nordeste, chegaram a Brasília e invadiram a Cidade Livre. Concentraram-se, depois, ao longo da estrada Brasília-Anápolis, à direita de quem se dirigia para a cidade goiana. Moravam da maneira mais precária possível — barracões de madeira velha, de lata, de folhas de zinco, de sacos de cimento. Não havia água no local e eram impressionantes a promiscuidade e a falta de higiene."

Em suas memórias, Juscelino deixou evidências de que teve receio da reação dos flagelados da seca. "O pouco que aqueles flagelados haviam trazido — uns restos de farinha e uns pedaços de rapadura — logo fora consumido. E os cinco mil homens passaram, então, a exigir comida das autoridades da Novacap de forma ameaçadora."

Daí se explica a decisão de Juscelino, um presidente de trato fácil com a gente humilde, de evitar uma aproximação corpo a corpo. Havia sido marcado um jantar, para 28 de maio, na Cidade Livre, com a participação do presidente. Sabendo disso, os invasores planejaram uma manifestação na porta do restaurante para pedir a JK que autorizasse sua permanência na invasão. Informado do que o esperava, Juscelino desmarcou o compromisso e mandou que Ernesto Silva, diretor da Novacap, fosse enfrentar as feras.

Os números não coincidem: JK fala em 5 mil almas; Ernesto Silva, em 3 mil e Bahouth Júnior, em 1 mil pessoas. "A excitação era enorme", contou Silva. "Ambiente de expectativa e excitação. Subi em um caixote de madeira e dirigi a palavra aos manifestantes. Disse-lhe que a Novacap já providenciava a criação de uma cidade-satélite, a 25 km do Plano Piloto, e que, neste local, cada trabalhador teria seu lote e poderia adquiri-lo por preço acessível, módicas prestações."

Uma semana depois, a 5 de junho de 1958, começava a transferência dos invasores para a primeira cidade-satélite de Brasília, Taguatinga. (A Cidade Livre ainda teria de lutar muito para conseguir se fixar como cidade. Planaltina e Brazlândia eram povoações já existentes).

Os retirantes da seca de 1958 apressaram um projeto que já estava sendo desenvolvido pela Novacap, o de criação de Taguatinga. Passados 22 meses do início da construção, Israel Pinheiro já havia se convencido de que não havia como barrar a tempestade migratória que desabaria sobre a capital em construção.

OUTROS FEITOS

* Já foram construídos 47,5 mil metros quadrados de edificações em madeira, correspondendo a 300 unidades. São escritórios, hospital, escola, oficina, depósitos, residências, alojamentos, restaurantes, clube, olaria, serraria, carpintarias etc.

* Já estão em funcionamento três escolas primárias e duas secundárias. Fas primárias, uma é mantida pela Novacap e duas por particulares. São 805 crianças nas escolas primárias e, nos ginásios, em 198 alunos.

* A cooperativa agropecuária de Goiás inaugurou um matadouro com área construída de 1,8 mil metros quadrados, com 12 seções industriais e com capacidade de abate de 250 bovinos e 150 suínos. A salsicharia tem capacidade para produtir 1,5 mil quilos de embutidos e duas toneladas de sabão, bem como várias toneladas de adubo para agricultura. O matadouro abate 45 reses e 20 suínos por dia.

* Inaugurada a usina hidrelétrica piloto de Saia Velha, com duas turbinas. A primeira, de 250 hp, e o gerador, de 200 hp, entraram imediatamente em ação para abastecimento dos escritórios, oficinais, serrarias, olaria e residências da Novacap, e do aeroporto. A linha de transmissão tem extensão de 22 km.

* Já operam em Brasília seis companhias de aviação: Vasp, Lóide Aéreo, Cruzeiro do Sul, Real-Aerovias, Paraense e Sadia, as duas últimas em consório com a Cruzeiro do Sul.

A Vasp tem dois voos diários para BH—São Paulo e BH-Rio e vice-versa. As demais companhias mantêm linhas diretas, diárias ou alternadas para Manaus e Belém, e para Salvador, Belo Horizonte, Rio e São Paulo, com escalas em cidades do interior da Bahia, Minas, Goiás e São Paulo.

Os institutos de previdência estão construindo 109 blocos de seis andares cada um, somando 4.560 apartamentos

Em funcionamento 12 olarias, seis pedreiras e várias serrarias.


Madeiras entregues ao tempo

Conceição Freitas

Os órgãos de proteção ao patrimônio cultural de Brasília tratam muito mal as edificações feita de tábuas. Salvo algumas unidades tombadas e restauradas, a maioria das construções está apodrecendo

Para que Brasília pudesse existir em concreto foi necessário o suporte da arquitetura em madeira. Sem ela, não havia possibilidade de se construir a capital moderna. Com tábuas, pregos, martelos e serrotes, ergueram-se hospitais, alojamentos, casas, escritórios, oficinas, depósitos, restaurantes, clubes, cinemas, serrarias, carpintarias, matadouros, mercados. Patrimônio histórico que foi negligenciado ao longo do tempo e que hoje se reduz a meia dúzia de unidades restauradas e a dezenas de construções que estão apodrecendo.

Quando o Plano Piloto foi inaugurado, havia ao seu redor mais de meia dúzia de pequenos aglomerados urbanos todos feitos em madeira — Vila Planalto, Vila Paranoá, Núcleo Bandeirante (incluindo a Metropolitana e a Divinéia), Candangolândia, Vila Telebrasília, resquicíos da Vila Iapi e pequenas vilas nos arredores do Park Way e da Avenida das Nações. Era a comprovação histórica de que Brasília havia sido construída por 60 mil homens e mulheres que viveram, trabalharam, amaram, sofreram e moraram nos arredores da arquitetura e do urbanismo moderno. Ainda em 1958, Israel Pinheiro anunciava a existência de mais de 300 unidades em madeira, ao todo 47,5 mil metros quadrados de área construída. Antes de ser de concreto, Brasília foi de madeira.

Mais exemplar conjunto de arquitetura em madeira preservado na cidade, o Museu Vivo da Memória Candanga surgiu das ruínas do HJKO, o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira, construído em 1957 pelo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (Iapi). Não foi uma conquista de mão beijada. Para conseguir o tombamento das 13 construções em madeira, a população do Núcleo Bandeirante e da Candangolândia conseguiu, depois de muito barulho, evitar a demolição do conjunto, até que a Secretaria de Cultura do Distrito Federal baixou o decreto 9.036, de 13 de novembro de 1985, que transformou as unidades em patrimônio histórico e artístico de Brasília. Foi só o começo. Garantida a proteção do Estado, era preciso restaurar as casas, galpões e a sede do antigo hospital.

Passado um quarto de século, o exemplo parou nele mesmo. Salvo cinco outras restaurações (ver quadro) e algumas conservações feitas pelos moradores, todo o restante do patrimônio em madeira ou está sendo devorado pelos cupins ou deu lugar a alvenaria. Peças importantes, como a Igreja de São Geraldo, na Vila Paranoá, e o Toy Club, no Núcleo Bandeirante, caíram de podre. Outras, como uma das cinco unidades residenciais do Conjunto Fazendinha, não está longe disso.

Não existe nem no Governo do Distrito Federal nem na Superintendência do Iphan em Brasília projeto definido para restauração desse patrimônio. O que há no horizonte remoto é o projeto de recuperação de uma das casas da Fazendinha pela Secretaria de Desenvolvimento e Transferência de Renda. Mas tudo ainda é muito vago: espera aprovação do Iphan e de votação pela Câmara Legislativa do Plano Plurianual do DF. O restauro das demais depende de "vontade política", como admite o subsecretário da Administração de Brasília, Luciano Lucas da Silva, nascido e criado na Vila Planalto e defensor da reforma das casas de tábua.

Os responsáveis pela proteção ao patrimônio em madeira na capital do país têm muito a aprender com a Superintendência do Iphan no Paraná. A começar do lugar onde está instalada sua sede: numa casa de madeira construída por volta de 1920 e que foi transplantada do lugar de origem para a Rua José de Alencar, no bairro de Juvevê, em Curitiba. "A arquitetura em madeira é muito fácil de ser feita e muito difícil de ser conservada, mas conseguimos preservar nossos melhores exemplares e de um modo que um particular não teria condições de fazer", explica José La Pastina, superintendente do Iphan no Paraná.

A fórmula é a seguinte: o Iphan compra a casa (mas não o terreno), faz um levantamento completo de sua arquitetura, desmonta toda a estrutura, numera peça por peça e a remonta em outro lugar. "Como os terrenos de origem ficaram muito valorizados, não tem outra saída. É comprar a casa e mudá-la de lugar."

Ironicamente, o Paraná foi o Estado que mais forneceu madeira para a construção de Brasília. Vale novamente lembrar que o madeiramento serviu não apenas para erguer as construções provisórias, mas — principalmente — para fazer a forma das edificações em concreto. "Desde a década de 1950, o Paraná era um grande centro exportador de madeira, especialmente o pinho, retirado da grande floresta de araucária que cobria o Estado", ensina La Pastina. A exploração predatória da madeira reduziu a floresta a apenas 1% de seu tamanho original. Restou o cuidado que o Patrimônio Histórico do Estado destina às casas que foram originalmente construídas pelos imigrantes europeus, especialmente poloneses e ucranianos.

O zelo com que o Paraná cuida do patrimônio em madeira mereceu o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade deste ano. O premiado Inventário da Arquitetura Residencial em Madeira de Curitiba , levantamento feitos pelos arquitetos Key Imaguire, Marialba Rocha Gaspar, Fábio Domingos Batista e Andréa Berriel, bem poderiam servir de espelho para os responsáveis pela proteção ao patrimônio histórico da capital do país.

Há oito anos no cargo, o superintendente do Iphan em Brasília, Alfredo Gastal, tem um levantamento do patrimônio em madeira feito antes de ter assumido a função. De lá para cá, nada foi feito. Gastal diz que o problema fundiário de Brasília dificultou a proteção dos bens em madeira. E alega também a falta de recursos humanos e financeiros: "Tenho apenas quatro funcionários, dos quais dois são arquitetos, eu e a chefe da divisão técnica."

Sem poder contar com a proteção do Estado, a preservação do patrimônio em madeira depende de iniciativas particulares. Três delas merecem o reconhecimento público: as duas casas de arquitetura em madeira típica dos Estados Unidos nos anos 1950, na Vila Tamboril (Vila Planalto), que estão inteiramente preservadas e uma garbosa casa azul com janelas e portas brancas, no Conjunto Fazendinha, também na Vila Planalto, que pertence ao GDF. A unidade foi restaurada, pouco a pouco, por iniciativa da diretora da Casa Abrigo, Gláucia Gomes, vinculada à Ampare-DF (Associação de Mães, Pais, Amigos e Reabilitadores de Excepcionais), da qual é fundadora.

Moradora da Vila há 35 anos, Gláucia precisava de um lugar para abrigar crianças com severa deficiência física e mental. Em 1994, a casa estava "um bagaço", lembra-se a educadora. Paulatinamente, ela foi restaurando e reformado o que precisava de cuidados, sempre com a orientação do Iphan. "Mudamos o piso, porque as crianças precisavam de um chão seguro e trocamos a fiação elétrica", conta Gláucia. Houve mudanças também na cozinha e nos banheiros. As janelas mantiveram as armações originais, mas foram revestidas por dentro com blindex, por medida de segurança.

Construída em 1959, a casa abrigava servidores da Presidência da República e depois passou a ser moradia de servidores do alto escalão do GDF. Foi construída no acampamento da Pacheco Fernandes, construtora responsável pela obra do Palácio do Planalto. Nela moraram, entre outros, segundo Gláucia, Amália Geisel, filha do então presidente Ernesto Geisel, o ex-deputado federal Jofran Frejat e o ex-governador José Roberto Arruda, no tempo em que era servidor da CEB (Companhia Elétrica de Brasília).

É uma edificação sofisticada. Os armários embutidos, de madeira, têm treliça de ventilação. A sala é bastante espaçosa e arejada. O corredor que dá acesso aos três quartos é largo e claro. Um dos quartos tem closet (também de tábua). Havia uma piscina redonda (que foi coberta de terra, porque representavam risco para as crianças), um galinheiro (hoje desativado) e uma guarita, tudo restaurado.

A manutenção de uma casa de madeira é muito mais dispendiosa que a construção de uma nova em alvenaria. "Às vezes, o conserto de uma janela fica mais caro que fazer um cômodo de tijolos", compara Gláucia. As abas das janelas da casa foram fabricadas no Rio Grande do Sul. Tábuas que precisam ser trocadas são obtidas numa marcenaria especializada de Brasília. O segredo, diz a educadora, é fazer reformas periódicas. "Quando alguma coisa começa a estragar, mando consertar".

É espantoso o contraste entre as duas casas vizinhas uma da outra, a da Ampare e a que era utilizada pela Kolping, instituição alemã de assistência social. A primeira é um primor de conservação; a segunda, invadida, tem tábuas podres, fiação exposta, janelas quebradas, telhado capenga. O Correio esteve lá, na quinta-feira pela manhã, mas nenhum morador apareceu à porta. No mesmo conjunto, uma outra casa, a maior das cinco, está sendo ocupada pela gerência de obras da Administração de Brasília. Suas condições também são deploráveis. "Estamos planejando mudar a gerência para outro local, possivelmente no Parque da Cidade, para fazermos a restauração da casa", informa Luciano Lucas, mas não há data prevista nem para a mudança nem para a reforma.

Até o mais simbólico dos monumentos em madeira da cidade, o Catetinho, padece os efeitos do desinteresse. No mês em que comemora 55 anos (foi inaugurado em 10 de novembro de 1956), o Palácio de Tábuas permanece fechado por tempo indeterminado. O subsecretário do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Secretaria de Cultura, José Delvinei Santos, alegou ao Correio, na semana passada, dificuldades para encontrar empresas especializada em restauro. "Existem muitas no Brasil", informa o superintendente do Iphan no Paraná que amanhã inaugura mais uma restauração em madeira, a da graciosa Igreja de São Miguel Arcanjo, na Serra do Tigre, município de Mallet (PR), construída há mais de um século por imigrantes ucranianos.


1958 — o ano decisivo para Brasília

Se as obras de Brasília tivessem parado ao final de 1958, como apostava a oposição, seriam estas as ruínas da nova capital: Eixo Monumental quase todo asfaltado, Eixo Rodoviário Sul aberto, 500 casas na W3Sul, na altura da hoje 708/709, concluídas, blocos de apartamentos surgindo em diversas superquadras sul, Palácio da Alvorada, Brasília Palace Hotel e Igrejinha inaugurados; obras da Barragem do Paranoá em fase de construção do canal de desvio; cúpula do Senado pronta, três estruturas de ministérios já montadas, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal em fase de fundação e 15 casas do Lago Sul prontas e habitadas.

Quando 1959 chegou, já se podia dizer que a construção da capital do Brasil não tinha mais volta. Niemeyer havia deixado o Rio, se mudado para o canteiro de obras e projetado a Catedral e Lucio Costa saía de seu silêncio para reagir às críticas da oposição

Conceição Freitas

1958 foi o ano em que o Brasil começou a desconfiar que Brasília seria efetivamente construída, que não era apenas um sonho faraônico de Juscelino. Foi o ano em que a nova capital pousou, com força e com vontade, sobre a terra avermelhada do cerrado. Em meados de 1958, o arquiteto Oscar Niemeyer percebeu que não dava para acompanhar as obras da cidade do Rio de Janeiro e se mudou para Brasília. Foi morar numa casa da W3 Sul e trouxe consigo 15 amigos para lhe fazer companhia. 1958 também foi o ano em que um dos mais importantes escritores norte-americanos do século 20, John dos Passos conheceu as obras da capital, visita que ocupa boa parte do primoroso livro-reportagem, O Brasil desperta (Brazil on the move), publicado no Brasil pela editora Record em 1964 (há em sebo virtual).

Foi em 1958 que foram feitos os mais acentuados deslocamentos de terra no Plano Piloto — para deixar a Esplanada plana, para subir o nível do solo da Praça dos Três Poderes, para construir as duas plataformas da Rodoviária, para fazer o Buraco do Tatu. A oposição se aproveitou da montanha de terra que era levada de um lugar para outro e amplificou suas críticas aos custos excessivos da construção da capital. Lucio Costa abandonou temporariamente o recato e reagiu: "Não se está a fazer em Brasília — escreveu o arquiteto ao presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, Israel Pinheiro — uma capital de província, mas a nova capital de um país que ainda será uma grande nação" (ver íntegra).

Foi em junho de 1958 que Oscar Niemeyer começou a pensar seriamente na ideia de deixar o Rio de Janeiro e vir morar em Brasília, "a fim de exercer fiscalização direta sobre as construções em andamento e dar ao trabalho, inclusive aos novos projetos, o ritmo contínuo e acelerado que somente um regime de tempo integral poderia garantir". Dois meses depois, o arquiteto estava morando numa casinha da W3 Sul. "Nos primeiros tempos vivi como os demais colegas, numa residência da Fundação da Casa Popular. Era uma casa simples e acolhedora e meu mobiliário se resumia, no quarto, a uma cama, um armário e um caixote, e na sala, a um sofá, uma mesa e quatro cadeiras."

Fácil não foi, como o próprio Oscar relata em Minha experiência em Brasília. "Primeiro nos veio a depressão da mudança, muitos de nós saídos de uma cidade adiantada para aquele imenso sertão." Somava-se à solidão sem fim do cerrado, a "nostalgia da distância, a ausência da família e dos amigos, do ambiente em que vivíamos; daí decorrendo problemas, os mais íntimos e irreprimíveis." Nos dias que antecederam a mudança, em conversa com o escritor John dos Passos o arquiteto demonstrou sua inquietação e o desgosto de ter de ficar longe do neto, filho de sua única filha, Anna Maria com o arquiteto Carlos Magalhães (ver trecho).

No mesmo agosto, Niemeyer voltou a espantar a arquitetura moderna com um incomparável projeto de Catedral para Brasília. A edição nº 21 da Revista Brasília trouxe um resumo explicativo da ideia. A preocupação maior de qualquer esboço de templo religioso é a criação de grandes espaços. O arquiteto brasileiro optou por uma solução compacta "que se apresentasse externamente — de qualquer ângulo — com a mesma pureza". Explica-se assim a forma circular adotada "que, além de garantir essa característica, oferecia à estrutura uma disposição geométrica, racional e construtiva". Desse modo, "21 montantes, contidos em uma circunferência de 70 metros de diâmetro, marcam o desenvolvimento da fachada, numa composição e ritmo como de ascensão para o infinito".

No projeto original, Niemeyer pensou em placas de vidro refratário de cor neutra para assegurar a claridade interna. Só anos mais tarde, ao conhecer a vitralista Marianne Peretti, é que o arquiteto mandou tirar o vidro sem cor para colocar os vitrais coloridos. Os vidros têm a função de manter um ambiente de suave recolhimento no interior da igreja, "no qual as formas do púlpito e do coro se destacam como elementos de escala e composição plástica."

A entrada em rampa "leva deliberadamente os fieis a percorrer um espaço de sombra antes de se atingir a nave, o que acentua pelo contraste os efeitos de luz procurados." Em volta da nave, "rebaixada três metros em relação ao piso do terreno, encontram-se as capelas e ainda as ligações com as salas e serviços anexos à Catedral, e o batistério, localizado, como primitivamente, fora do templo."

Apesar de a pedra fundamental da Catedral ter sido fincada em 12 de agosto de 1958, a construção foi a mais interrompida e demorada de todas as da Esplanada. As obras só começaram efetivamente em 1959 e pararam logo depois, por falta de verba. Como é um monumento que não pertence ao Estado, mas à Igreja Católica, dependeu de doação de recursos e de campanhas de arrecadação dos fieis. A sagração (cerimônia que atribui o caráter sagrado da edificação) só ocorreu em 1970.

De idealista a amargurado

O nome soa estranho aos brasileiros -- John dos Passos. Neto de portugueses, nascido em Chicago (1896/1970), o escritor está na lista dos mais importantes da literatura norte-americana do século 20. O filósofo Jean-Paul Sartre o considerava o maior contista de sua geração. Boa parte de sua obra retrata os Estados Unidos em sua face nada ufanista. A trilogia USA descreve uma América dominada por gângsters e sindicatos corruptos. John dos Passos esteve no Brasil por três vezes, em 1948, em 1958 e 1962. Na primeira, acompanhou o engenheiro Bernardo Sayão na formação da Colônia Agrícola de Ceres (GO). Na segunda e na terceira, visitou Brasília. Em seu livro-reportagem O Brasil desperta, Dos Passos descreve a construção da nova capital e como ela estava dois anos depois de ser inaugurada. A obra foi publicada pela editora Record, que à época pertencia a Carlos Lacerda, um dos mais incansáveis adversários de Brasília. O jovem idealista que combateu na 1ª Guerra Mundial defendeu ideais de esquerda, mas ao fim da vida havia se transformado num conservador ultradireitista.

BRASILIANAS/1958



19 de janeiro — A paróquia de dom Bosco realiza o primeiro casamento religioso de Brasília. Casam-se Solemar Rodrigues de Paula e Vera Maria Gomes Carneiro, em cerimônia celebrada pelo padre Roque Valiatti Batista
28 de janeiro — O presidente do Museu de Arte Moderna de Nova York, William Burden, visita Brasília e declara: "Simplesmente maravilhoso"
5 de fevereiro — A Novacap recebe a doação de cinco mudas de palmeiras que dom João VI plantou no Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 1809. Anuncia-se que seriam plantadas no Palácio da Alvorada, no Aeroporto, na Praça dos Três Poderes, no Jardim Botânico e na casa do futuro prefeito de Brasília
16 de fevereiro —Juscelino passa o Carnaval em Brasília
9 de março — A soprano Diva Pieranti, namorada do engenheiro Pery da Rocha França, apresenta o primeiro concerto de música de câmera de Brasília
31 de maio — Juscelino inaugura a Rádio Nacional em Brasília
28 de junho — Inauração da Igrejinha
29 de junho — Juscelino acompanha do Hotel de Turismo (o Brasília Palace Hotel) a transmissão, via rádio, do jogo Brasil x Suécia pela Copa de 1958
30 de junho — Juscelino inaugura o Palácio da Alvorada e a Avenida das Nações
8 de julho — A bailarina Margot Fonteyn e seu marido, o embaixador da República Dominicana em Londeres, Roberto Arias, visitam Brasília
6 de agosto — O secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles, visita Brasília
19 de agosto — O escritor Aldous Huxley vem conhecer as obras da nova capital
31 de agosto — Juscelino inaugura 500 unidades da Fundação da Casa Popular na W3 Sul
(A visita do escritor John dos Passos à nova capital, em agosto de 1958, não mereceu registro do Diário de Brasília)
12 de agosto — Lançada a pedra fundamental da Catedral
23 de outubro — O botânico AugustoRuschi inicia, na Granja do Torto, a criação e fixação de beija-flores em Brasília. E constata que existiam, na cidade, à época, 22 espécies de beija-flores troquilídeos
25 de outubro — Chega a Brasília o paisagista japonês Yoichi Aikawa, contratado pela Novacap para projetar os jardins da cidade
22 de dezembro — Lançada a pedra fundamental do edifício-sede do Banco do Brasil
31 de dezembro — Em mensagem de fim de ano aos brasileiros, Juscelino declara: "Quero dizer-vos que nenhuma força humana deterá Brasília. Ela já se vislumbra, configurada e em pleno processo de construção. E com Brasília também se levanta uma vasta área de nosso país, que se desencantou, enfim, deixando de ser uma longínqua referência nos mapas"

O Brasil desperta (Brazil on the move)



John Dos Passos

1958
Os loucos do Planalto

"É um doido — resmungou Israel Pinheiro carinhosamente, quando lhe fiz a primeira pergunta a respeito de seu amigo, o construtor de estradas (Bernardo Sayão). Estávamos no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, na manhã de pérola de um domingo de agosto em 1958, à espera do avião que nos levaria a Brasília. — Sem dúvida alguma, não regula bem.

O Dr. Israel, como todo o mundo lhe chama, é um esquisito homem esguio e grisalho, com um rosto comprido e rude, e um queixo forte sob o bigode grisalho aparado. A sua maneira azeda costuma ser atenuada pela expressão do rosto e pelo jeito súbito de mostrar os dentes compridos num sorriso meio amarelho para acentuar uma pilhéria.

Eu também sou maluco. E Kubitschek não é menos, —- disse ele, procurando rir. — É por isso que nos entendemos tão bem. Só loucos poderiam levar a cabo um projeto desses."

"Enquanto o Dr. Israel nos guiava através da futura cidade, tínhamos dificuldade em distinguir o que havia realmente do que ia haver. Era como se estivéssemos visitando Pompéia ou Monte Alban, mas às avessas. Em vez de imaginar o que ali havia dois mil anos antes, ficávamos a imaginar o que ali haveria daí a dez anos.

(…)

"Do palácio, seguimos de automóvel para o que corresponde em Washington à Colina do Capitólio, a Praça dos Três Poderes, como é chamada. Havia um enorme espaço aberto. Escavadeiras desmontava os morros de barro vermelho. As perfuratrizes, como sacarrolhas gigantescos, penetravam o solo para a colocação de fundações. Ali se levantariam as salas circulares do Senado e da Câmara e dois edifícios de aço e vidro em forma de cartola para as repartições das duas casas. Esses edifícios seriam contrabalançados por um edifício para o Supremo Tribunal e outro para o Palácio dos Despachos. Dali uma larga avenida se estenderia com muitas estradas laterais por entre filas de ministérios até o centro da cidade onde ficariam os bancos, os hotéis, os teatros e as grandes lojas."

Um escultor de materiais de construção

"Niemeyer continua a ser o centro de um turbilhão de discussões no Brasil.

Quando o conheci no seu escritório de trabalho no Rio, o que primeiro me impressionou nele foi a timidez. Um homem pequeno e reservado, de rosto redondo e olhos desconfiados. A filha casada já lhe deu um neto. Como muitos outros brasileiros, parecia mais moço do que era, mas já devia ter seus cinquenta anos.

Quando lhe fazem uma pergunta, ele pode responder exatamente como o faria um inglês. Numa nação de gente loquaz, parece notavelmente parco de palavras. Foi só depois de estar falando já durante algum tempo com ele, que comecei a notar que tinha uma espécie de segurança fundamental, como a de um pedreiro. Havia a afirmação direta de um artesão na maneira pela qual fazia uso das mãos. Quando falava, o que dizia parecia vir diretamente do coração. Era completemente sem rodeios."

(…)

"A sua vida particular é a de qualquer brasileiro da classe média. É um pouco tardo em relação a muitas coisas práticas. Como os parisienses e os novaiorquinos, os cariocas não podem conceber a vida em outro lugar que não seja a sua cidade esplendidamente situada e repleta. Niemeyer tem o horror a viagens do carioca típico. Nos seus últimos dias de Rio, parecia estar pensando mais em quanto lhe era duro deixar a família e a bela residência que construiu para seu uso na montanha, dominando um dos mais belos trechos da costa do Rio, do que nas magníficas oportunidades que a construção de Brasília ofereceria a um aruqiteto. Afirmava quanto lhe seria difícil deixar de ver o neto diariamente.

Tem horror a aviões. A distância de mais de mil quilômetros entre o Rio e Brasília exigirá uma viagem de carro penosa até estar concluída a nova estrada. Uma vez que ele se despreenda do Rio e se instale em Brasília, espera lá ficar dois anos inteiros. Perguntou-me ansiosamente se eu achava que ele iria sentir-se muito sozinho lá."

1962

Moldura para uma futura cidade

"As visões que se tem, quando o avião se inclina de lado para pousar, de construções de vidro e cimento espalhados como uma feira mundial inacabada na crista vermelha entre os dois braços do lago, são terrivelmente contemporâneas. Lembramo-nos da anedota em circulação de um astronauta russo que chegou em visita a Brasília e exclamou ao aterrissar: "Não esperava chegar a Marte tão depressa.(O russo deve se referir a Yuri Gagárin)."

(…)

"Ir a pé do hotel (Nacional0 à estação rodoviária é uma batalha. Se constaram dos planos caminhos para pedestres, não foram feitos ainda. É evidente que não há sinais de tráfego. É preciso esperar uma abertura no tráfego e atravessar da melhor maneira possível as largas pistas curvas. Dizem que muitos pedestres já perdem a vida a caminho da estção rodoviária."

(…)

"O edifício do Congresso parece-me ser em si mesmo um assinalado fracasso. O interior é exíguo e mal planejado para o fim a que se destina. No exterior, há uma frívola feiura difícil de explicar num homem que mostra nas suas plantas tão grande talento para os efeitos da escultura. Jefferson costumava dizer que a arquitetura era a mais importante das artes "porque revelava muita coisa". É possível que a planta do edifício do Congresso seja a expressão do desprezo de um intrasigente comunista pela democracia representativa."

"A catedral de Niemeyer, enorme coroa de concreto protendido, está inacabada. A planta prevê que os espaços entre as elevadas pilastras sejam preenchidos com vidro. Como está, é impressionante. E deixa-nos a duvida de que algum dia se chegue a completá-la."

(…)

"Contudo, mesmo depois de emiuçar todas as objeções, não se pode deixar de reconhecer que os planejadores de Brasília criaram magnífica moldura para uma cidade. As longas ruas retas, os vastos espaços vazios entre os edifícios brancos são estimulantes. É uma cidade para a era automotriz, para a era dos jatos e dos helicópteros. Os seus amplos espaços se adaptam às vastas cristas lisas e áridas da paisagem do planalto."

Olhares críticos



"Seguindo uma tradição da arquitetura religiosa renascentista, sua (da Catedral) planta é circular, de modo a evitar uma fachada principal. O acesso ao seu interior é feito por uma passagem subterrânea, que pode ser entendida como uma representação contemporânea das catacumbas romanas, em uma referência às origens do cristianismo. Os 16 pilares curvos e delgados de concreto aparente e unidos no topo por um anel de compressão -- que, além de definir simultaneamente sua vedação e cobertura, são os principais elementos perceptíveis desde a Esplanada dos Ministérios -- podem ser interpretados como a coroa de espinhos de Cristo ou o cálice da consagração. A nave principal, seguindo a forma dessa estrutura circular, é um grande espaço livre dominado pela luz que se filtra através de grandes caixilhos de vidro, em uma evidente reinterpretação das catedrais góticas."
(Guiaarquitetura Brasília, Sylvia Ficher e Geraldo Sá Nogueira Batista, Empresa das Artes, 2000)

"Na Catedral Metropolitana de Brasília (1959 em diante) Niemeyer também emprega artifício de monumentalidade, porém inverso: não eleva os espaços principais do edifício ante o entorno, rebaixa-os. A variação do tema (não é novo) mantém topologicamente o essencial: separação rebuscada entre âmbitos interno e externo. O acesso à nave impressiona pelo jogo de luz/sombra/luz do percurso que leva da claridade brilhante do espaço aberto do Planalto Central, passando pela rampa em declive da entrada, depois pelo túnel negro até o interior, novamente iluminado, através dos coloridos vitrais."
(…)
"Na Catedral, o arquiteto novamente reafirma e transgride códigos. Reafirma: faz uma acessibilidade mínima, indireta, quase invisível -- um rasgo no chão; transgride: difícil imaginar um edifício mais transparente, luminoso. A Catedral radicaliza São Francisco, Pampulha, e evoca a Sainte-Chapelle, Paris, séc. XIII, onde o gótico nunca foi tão leve: mínimos elementos estruturais e máxima participação dos vitrais na composição do invólucro.
"Outra evocação é possível, esta por contraste: a catedral de Niemeyer é um Panteão romano invertido; neste, o redondo edifício é opaco, exceto pela pequena abertura circular no topo por onde entra restrito facho de luz; na igreja de Brasília, também de planta circular, o invólucro é definido pelas 16 pétalas estruturais de concreto, de delicadeza extrema, entre as quais estão os vitrais -- opaca, somente a pequena calota do cume. Tenho testemunhado a perplexidade dos fiéis ante a luz exuberante. Um templo hedonista?"
(Oscar Niemeyer: de vidro e concreto, Frederico de Holanda, FRBH Edições, 2011)

LEITURAS
Diário de Brasília, 1958, Serviço de Documentação da Presidência da República, 1960
Guiaarquitetura Brasília, Sylvia Ficher e Geraldo Sá Nogueira Batista, Empresa das Artes, 2000
Minha experiência em Brasília, Oscar Niemeyer, Editorial Vitória, 1961
O Brasil desperta, John dos Passos, Record, 1963
Oscar Niemeyer: de vidro a concreto, Frederico de Holanda, FRBH, Brasília, 2011
Revista Brasília, número 21, setembro de 1958, Novacap
Revista Manchete, edição de 13 de setembro de 1958
AGRADECIMENTOS
DA Press

A água que nos contorna

Desde que um botânico francês perambulando pela região, no final do século 19, percebeu que o lugar era perfeito para a formação de um lago artificial, a ideia passou a fazer parte do sonho da nova capital

Conceição Freitas

A terra esperava pela cidade e as duas esperavam pelo lago. A topografia que margeava o apressado, tortuoso e borbulhante Rio Paranoá se oferecia, teluricamente, a um futuro espelho d´água que cobriria toda a extensa depressão ao redor das corredeiras. O rio piscoso e pedregoso dividia os municípios de Planaltina e Luziânia e era bordeado em vários pontos por uma mata alta e densa. Para interromper a passagem da água foi necessário um paredão que engoliu 684 mil metros cúbicos de pedra e exauriu entre 1,2 mil e 3 mil operários (não há consenso nos registros históricos).

A história do Lago Paranoá é, dentre as narrativas sobre a construção de Brasília, uma das mais difusas. Não se sabe exatamente a razão, mas a máquina governamental de Juscelino Kubitschek, que anotou diligentemente as obras da nova capital, negligenciou o desmatamento da área destinada ao lago, a construção da barragem, o fechamento das comportas, o surgimento da superfície de água na paisagem.

Entre os adversários da nova capital, havia os que jogavam praga. Um deles, o engenheiro, escritor e pensador Gustavo Corção (1896/1978) dizia que o solo da região era poroso, cheio de furinhos, e, sendo assim, nunca encheria. Depois da temporada de chuvas de 1961, a segunda com as comportas fechadas, a águas finalmente atingiram a planejada cota 1000. Juscelino mandou a Corção um telegrama tão curto quanto irônico:

— Encheu, viu?

Fácil não foi. Como Juscelino anotou em Por que construí Brasília, os problemas na construção da barragem do Paranoá foram "o de solução mais difícil" (página 276). A empresa contratada para a obra da barragem e da usina do rio Paranoá, a norte-americana Raymond Concrete Pile, teria 17 meses para concluir a obra, a partir de 12 de junho de 1957, quando o contrato foi firmado. Menos de dois anos depois, a obra não estava pronta, e o contrato com a empresa foi alterado - -"quase uma rescisão", como escreve o pesquisador Luís Carlos Lopes — e a tarefa foi entregue a um pool de seis empresas brasileiras.

A decisão de mudar as regras do contrato com a Raymond surgiu depois de uma visita de Juscelino ao local onde seria construída a barragem. Ele não revela a data dessa vistoria, mas conta a sua surpresa: "…verifiquei que nem as estacas preliminares de concreto, que se fincavam antes da construção da barragem, haviam sido providenciadas. Na realidade, a obra nem havia tido início, pois todo o trabalho até então feito cingira-se exclusivamente à montagem das indispensáveis plataformas de serviço."

Juscelino mandou chamar Israel Pinheiro, presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), e determinou que o contrato com a norte-americana fosse rescindido. Israel ponderou que uma rescisão traria problemas ao governo, que a empresa poderia entrar em juízo e pedir indenização por quebra de contrato. JK retrucou: Brasília não poderia ser inaugurada com um lago vazio, ele era a "moldura líquida da cidade."

Àquela altura, Juscelino parecia já ter dominado toda a pré-história da nova capital. O lago Paranoá havia sido prenunciado meio século antes de o presidente se irritar com a demora na execução da obra. É bastante conhecido o trecho do relatório do engenheiro e paisagista francês Auguste Glaziou, membro da Missão Cruls, no qual ele conta que, vagando por um "vastíssimo vale", encontrou "imensa planície" que outrora teria sido um lago e que, em se construindo um dique, "forçosamente a água tomará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos…" (ver nesta página).

Antes mesmo de Juscelino tomar para si o sonho mudancista de dois séculos, os arquitetos Raul Penna Firme e Roberto Lacombe e o engenheiro José de Oliveira Reis haviam determinado que o plano-piloto (com hífen) da nova capital "deveria ter como uma de suas condicionantes o Lago Paranoá, que, após o seu enchimento, atingiria a cota de mil metros acima do nível do mar". O lago ornamental seria "destinado aos esportes náuticos, limitado pelas margens dos rios Bananal e Gama, transformadas em praias artificiais, cobertas de buritizal, numa extensão aproximadamente de dez quilômetros, obtendo-se este motivo paisagístico de encantadora apreciação, que forma com os parques naturais, a serem protegidos, uma agradável atração da cidade."

Os dois arquitetos e o engenheiro compunham a subcomissão de planejamento urbanístico da comissão chefiada pelo marechal José Pessoa que, ainda no governo Café Filho, escolheu a área da nova capital, deu início ao processo de desapropriações, fez um projeto urbanístico e construiu um aeroporto provisório. Juscelino poderia ter aproveitado esse estudo, mas preferiu fazer uma competição pública para a escolha do projeto de Plano Piloto. Mas o esboço de Penna Firme, Lacombe e Reis serviu de base para o edital do concurso e nele estava prevista a criação de um lago artificial.

A ideia de um lago bordeando a nova capital sobreviveu, quase silenciosamente, a todas as etapas que levaram à construção da capital, desde o final do século 19. É tanto que, quando foi preciso escolher o sítio da cidade, dentre cinco, o escolhido foi o único que abrangia as depressões do encontro do rio Paranoá com seus afluentes (Gama, Riacho Fundo, Torto e Bananal, os principais). Mas, vale observar, o lago não era uma condicionante explícita na escolha do lugar. Haviam dez critérios a serem observados, desde a topografia até a facilidade de desapropriação. Nenhum, porém, fazia referência ao futuro lago. Mesmo assim, o sítio escolhido, o Castanho, era o único que continha as terras a que Glaziou tão belamente se referiu. É tanto que, nos dez parágrafos do parecer técnico do Relatório Belcher sobre o Sítio Castanho, a possibilidade do lago surge, discretamente, em três linhas quase ao final do texto: "Os recursos recriacionais da vizinhança são tão variados como excelentes, variando desde as encostas densamente florestadas do Rio Paranoá até os pontos vizinhos onde é possível construir lagos artificiais."

O contrato com a Raymond não foi rescindido, mas as mudanças restringiram suas atividades até 31 de dezembro de 1959, quando ela e a empresa brasileira que a representava, Construtora Planalto levantaram acampamento. As obras foram entregues às brasileiras Camargo Corrêa, Portuária, CCBE, Rodobrás, Geotec, Rabelo e Novacap. À Camargo Corrêa coube a tarefa mais importante, a construção da barragem. As comportas foram fabricadas pelo Arsenal da Marinha brasileira.

Superado o primeiro obstáculo, o da construtora norte-americana, começou-se efetivamente a árdua tarefa de quebrar pedra para subir o paredão da barragem. Antes, porém, outra extensiva tarefa havia sido iniciada, o desmatamento e limpeza do leito do futuro lago. Foram 4 mil hectares (4 km²) orçados em Cr$ 6 milhões, de acordo com ofício 0491, da Novacap, emitido em 10 de março de 1958. Havia, no lugar mais tarde coberto pelas águas, uma densa mata ciliar, com árvores de grande porte. A empreitada foi entregue ao suíço Paulo Wettstein.

Mais problemas viriam. Em discurso na tribuna da Câmara Federal, ainda no Rio de Janeiro, em 3 de novembro de 1959, o deputado Elias Adaime (PSD/SC)), denunciou supostas irregularidades na construção de Brasília. Algumas se referiam ao desmatamento do lago e à construção da barragem. Entre as denúncias, estava a de que a madeira de lei retirada da área desmatada era entregue a "amigos íntimos" de chefes de departamento da Novacap. Assim esbravejou Adaime: "Vejamos a questão da madeira: o lago, hoje desmatado, tinha madeira de lei. Essa madeira deveria ser entregue à Novacap que compra lenha de particulares, pagamento 30 milhões (de cruzeiros) e poucos. A empresa começou o desmate e não se sabe para onde ia a madeira de lei. Os chefes de departamento, então, autorizavam amigos íntimos a, para uso doméstico, retirar lenha do lago, até 3 mil metros cúbicos. Isto daria para 20 gerações."

Oito dias depois, em documento de 27 páginas, Israel respondeu às acusações do deputado, ponto por ponto. No que diz respeito à madeira retirada do leito do futuro lago, informou que no contrato para o desmatamento, a madeira de lei deveria ser entregue pela empreiteira à serraria e à lenha, à cerâmica, as duas da Novacap. "Isso foi feito e rigorosamente fiscalizado". Porém, esclareceu Israel, quando terminou o desmatamento, sobrou, em zonas alagadiças, "restos de madeira e galhos que, pela sua natureza e pelo gasto que adviria do transporte, não compensavam sua utilização na serraria ou na cerâmica". Foi decidido então que o restolho da madeira poderia ser retirado por particulares para uso doméstico.

Se, para os operários das obras do Plano Piloto, a rotina era por demais exaustiva, para os candangos que trabalhavam na barragem, ela exigia esforço físico supremo, principalmente para os que tinham de quebrar as pedras usadas na compactação da muralha que interceptou as águas do rio Paranoá e de seus afluentes. O paredão precisava de rocha mais firme, menos firme, argila e também concreto, de modo que, como escreveu Beto Barata em Brasília submersa, pudesse e "conter e filtrar água".

Pelo menos meia dúzia de pedreiras foram exploradas nos arredores do lago para a retirada de cascalho, brita e areia necessárias à construção da barragem. Algumas eram particulares, outras pertenciam às construtoras. Trabalhavam nelas operários e até mulheres e crianças "que quebravam as pedras em tamanhos reduzidos que o maquinário de grande porte não processava", relatam os pesquisadores Antônio Menezes Júnior, Marta L. Sinoti e Regiina Coelly Saraiva em texto incluso no livro Olhares sobre o Paranoá. Ao longe, ouvia-se continuamente o barulho das explosões e o estremecimento do solo por conta do deslocamento de grandes massas de pedra.

Quando o Lago Paranoá atingiu a cota 1000, suas águas se estendiam por 37,5 km2, de braços abertos para o Plano Piloto. Elas haviam engolido um extenso aglomerado de barracos de madeira e sacos de cimento, a Vila Amaury, que surgiu para abrigar candangos sem teto. Em março de 1957, quando Lucio Costa ganhou o concurso, o presidente do júri, William Holford, mesmo encantado, pediu a ele que descesse a cidade para mais perto do lago. O que foi feito.



LEITURAS


Brasília submersa, Beto Barata, FAC, 2010

Diário de Brasília, Serviço de Documentação da Presidência da República, 1960

Entrelinhas da construção -- Brasília, Athaualpa Schimitz (CONFERIR), obra ainda a ser publicada

Nova metrópole do Brasil, José P.C. de Albuquerque, Imprensa do Exército, 1958

Olhares sobre o Paranoá,

O relatório técnico sobre a nova capital da república, Relatório Belcher, GDF, 1995

Os pioneiros da construção de Brasília, Adirson Vasconcelos, edição do autor, 1992

Por que construí Brasília, Juscelino Kubitschek, Senado Federal, 2000

Viajando pelo Lago Paranoá, Eliani Alves de Carvalho, dissertação de mestrado/Arquitetura/UnB, 1998

AGRADECIMENTOS


Arquivo Público do Distrito Federal

DA Press

LEIA em 17 de dezembro

A malha rodoviária que, a partir de Brasília, finalmente interligava todo o Brasil

DIMENSÕES


Bacia de drenagem -- 1034,07 km2

Área superficial -- 37,50 km2

Volume total -- 498 x 10 (elevado a 6) m3

Profundidade média -- 12,42 m

Profundidade máxima -- 38m

Perímetro -- 111,87 km

Comprimento -- 40 km

Largura máxima -- 5 km

DATAS


18 de outubro de 1956 -- Israel Pinheiro informa à impresaque as obras de represamento do Lago Paranoá já começaram.

Julho de 1957 -- Concluído o anteprojeto da usina hidrelétrica.

Dezembro de 1958 -- Início das obras da ensecadeira do desvio, com previsão de que, no começo de 1959, se completaria o canal do desvio. Em seguida, ficariam prontas a ensecadeira do desvio, a escavação do vertedouro e a impermeabilização.

Janeiro de 1959 -- Conclusão da ensecaderia do desvio e conclusão do vertedouro

28 de fevereiro de 1959 -- O canal para o desvio, a ensecadeira do desvio, a escavação do vertedouro e a segunda fase da impermeabilização foram concluídos.

25 de abril de 1959 -- A Novacap anuncia que, por determinação do ministro da Marinha, almirante Mattoso Maia, o Arsenal da Marinha no Rio de Janeiro iria construir as comportas da barragem do rio Paranoá.

2 de maio de 1959 -- Em avião especial, chega a Brasília 1,5 mil exemplares de peixes selecionados pela Divisão de Caça e Pesca do Ministério da Agricultura e que servirão de reprodutores no Paranoá.

12 de setembro de 1959 -- Fecha-se a barragem do Paranoá. Juscelino e Sarah fazem descer a comporta de ferro da barragem, manobrando um trator, sob o testemunho de uma multidão. O lago começa, então, a se formar.

19 de novembro de 1959 -- A Usina do Paranoá, contratada com a Siemens, aproveitará o desnível da Cachoeira do Paranoá e a barragem do Lago. Os trabalhos da barragem já estão concluídos na parte essencial, ficando a Siemens com os serviços de instalação da usina.

Cem vezes encantado


Por Auguste Glaziou, botânico francês (1833/1906)

"Enfim, de jornada em jornada, estudando tudo: qualidade do solo, vantagem de águas, clima, caráter do conjunto da paisagem, etc., cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros; impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale. Talvez movido pelo mesmo sentimento, o chefe da Comissão, o Sr. Dr. Cruls, mandou estabelecer aí o acampamento geral. Ao depois, quase que diariamente percorri, herborizando cá e lá, ora uma parte, ora outra, desse calmo território e dessas excursões voltava sempre encantado; cem vezes as repeti, quase sempre a pé para facilidade das observações, em todos os sentidos e sem a menor fadiga, tão benéfica é aí a amenidade atmosférica.

Explorando depois, com vagar, num raio de uns quarenta quilômetros, nada vi que fosse comparável ao tabuleiro do Rio Torto. Nesse sítio, ainda, a extrema suavidade dos acidentes naturais do terreno não requer trabalho algum preparatório, nenhum para o arruamento ou delineação dos bulevares, nem para a edificação, quer numa ou noutra direção.

A todas essas riquezas oferecidas ao homem laborioso, nesse centro do planalto, juntam-se mais os recursos e a vantagem que lhe proporcionarão ainda abundantes águas piscosas. Entre os dois grandes chapadões conhecidos na localidade pelos nomes de Gama e Paranoá, existe imensa planície em parte sujeita a ser coberta pelas águas da estação chuvosa; outrora era um lago devido à junção de diferentes cursos de água formando o rio Parnauá; o excedente desse lago, atravessando uma depressão do chapadão, acabou, com o carrear dos saibros e mesmo das pedras grossas, por abrir nesse ponto uma brecha funda, de paredes quase verticais pela qual se precipitam hoje todas as águas dessas alturas. É fácil compreender que, fechando essa brecha com uma obra de arte (dique ou tapagem provida de chapeletas e cujo comprimento não excede de 500 a 600 metros, nem a elevação de 20 a 25 metros) forçosamente a água tomará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos, num comprimento de 20 a 25 quilômetros sobre uma largura de 16 a 18.

Além da utilidade da navegação, a abundância de peixe, que não é de somenos importância, o cunho de aformoseamento que essas belas águas correntes haviam de dar à nova capital despertariam certamente a admiração de todas as nações."


Unindo as solidões do Brasil

Enquanto os candangos construíam a nova capital, milhares de operários abriam e pavimentavam rodovias na direção dos quatro pontos cardeais -- o "cruzeiro de estradas" de que Juscelino tanto falava

Conceição Freitas

Pode-se criticar a escolha de Juscelino pelas rodovias e seu desinteresse pelas ferrovias mas, o que não se pode negar é que, com asfalto ou trilhos, a construção de Brasília motivou a imediata interligação do território brasileiro que até então era um arquipelágo de ilhas isoladas em sua imensidão continental. Foi se lembrando de um argumento do bandeirante Fernão Dias ( "Um país se conquista pela posse da terra"), e da ferrovia que os Estados Unidos construíram, em 1867, para ligar Nova York e São Francisco (a costa leste à costa oeste) que o presidente teve "a visão do que deveria ser feito." Mais tarde, ele explicou: "Rasgaria um cruzeiro de estradas, demandando dos quatro pontos cardeais, tendo por base Brasília (…) Concebi, pois, o plano das grandes longitudinais, cortadas, quase na perpendicular, pelas grandes transversais. No centro do sistema ficaria Brasília, que seria uma torre para contemplar o Brasil" (Por que construí Brasília, página 84).

Se a escolha de Juscelino foi pelo sistema rodoviário, ele não pôde abdicar das ferrovias, nos primeiros tempos da construção. Elas foram essenciais para o transporte de material de construção, já que havia ramais ferroviários não muito distantes do sítio da capital. O mais próximo, a 163 km, ficava em Vianópolis (GO), e pertencia à Estrada de Ferro Goiás. O outro, em Anápolis. Era preciso ligar os pontos. Antes de Brasília, já existiam precárias estradas de terra que ligavam Anápolis a Planaltina, passando por Corumbá, Granja do Torto e Brazlândia. Eram trilhas por onde vinham as mercadorias e o serviço postal para as cidades a nordeste de Goiânia.

Em menos de quatro anos, entre o começo da construção e a transferência da capital, Juscelino havia praticamente duplicado a malha rodoviária brasileira asfaltada. Dos 7.063 kms que existiam em 1957, para os 13.875 kms em 1961. Considerando as rodovias ainda não pavimentadas, a rede subiu de 23 mil km (em 1955) para 43 mil km (em 1961). Era uma época de petróleo barato e da chegada da indústria automobilística ao Brasil. Foi nos governos militares que ocorreu a pavimentação de boa parte das estradas brasileiras, tanto federais quanto estaduais.

O começo da era do rodoviarismo no Brasil foi comemorado de forma triunfal. Em 1º fevereiro de 1960, a Caravana da Integração Nacional chegava a Brasília, vinda dos quatro pontos cardeais — Norte, Sul, Leste e Oeste. Os comboios de carros montados no Brasil eram a prova de que o país estava ligado de uma ponta a outra, de um lado a outro. Nesse dia, JK desfilou de pé, pela abertura no teto de uma Romi-Isetta. A foto é uma das mais conhecidas daqueles anos dourados.

Os dois engenheiros

Se para construir Brasília, Deus teve o esmero de reunir num só tempo e geografia Juscelino, Israel Pinheiro, Lucio Costa e Oscar Niemeyer (como dizia Darcy Ribeiro), para interligar o Brasil o destino juntou dois engenheiros com forte vocação para abrir estradas: Bernardo Sayão e Regis Bittencourt (conferir). O primeiro já havia atravessado a nado o Rio das Almas, nos anos 1940, para criar a primeira colônia agrícola do Centro-Oeste, por determinação do governo Getúlio Vargas.

Desde esse tempo, Sayão sonhava com uma rodovia ligando o Norte ao Planalto Central brasileiro. Considerado um dos maiores engenheiros rodoviários do país, Bittencourt dirigiu o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) no governo Juscelino. Antes, havia dado provas de sua capacidade de trabalho. Em 1951, abriu e pavimentou a Rodovia Presidente Dutra (Rio-SP) em 22 meses. O feito deu-lhe o cargo de diretor do DNER no governo Getúlio Vargas.

Mas até o experiente e intrépido engenheiro hesitou diante do entusiamo de Juscelino. Em suas memória, JK diz que o DNER não enxergavam o Brasil sob uma dimensão panorâmica. Trabalhavam "com a visão restrita ao seu setor específico". Daí, escreveu o presidente, "o espanto, e mesmo a resistência do engenheiro Régis Bittencourt, diretor do DNER, quando lhe falei do plano de construir um cruzeiro de estradas, cujos braços teriam cinco mil quilômetros cada um, e que ligaria, pelo interior, as regiões situadas nos quatro pontos cardeais do Brasil."

Nos anos JK, Regis Bittencourt construiu as rodovias Rio-Belo Horizonte, Belo Horizonte-Brasília; São Paulo-Curitiba (rodovia que tem o seu nome), Cuiabá-Porto Velho, Volta Redonda-Três Rio, Nova Rio-Petrópolis e duas pontes, a da Amizade sobre o rio Paraguai, na divisa com o Brasil, e a ponte sobre o rio Guaíba, em Porto Alegre. Segundo conta Atahualpa Schimitz da Silva Prego, engenheiro que abriu a pista do aeroporto de Brasília, Bittencourt bateu um recorde na construção de rodovias ao vencer 1 km por dia de estrada, na rodovia Brasília-Belo Horizonte, hoje trecho da BR-040. A contagem do tempo levou em conta desde o desmatamento até a pavimentação, colocação de cerca marginal e sinalização horizontal e vertical, ainda segundo Atahualpa em A memória da pavimentação no Brasil.

Como se vê, não era só em Brasília que se trabalhava em ritmo acelerado. Já em meados de 1957, o presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), Israel Pinheiro, juntou uma pequena comitiva e empreendeu uma expedição científica que saiu do Rio de Janeiro em 23 de abril em direção ao Planalto Central. O naturalista e industrial Paulo Asch relatou a experiência em texto publicado no jornal O Globo de 12 de agosto de 1957 (aqui reproduzido de Brasília, o enigma da esfinge, de Luis Carlos Lopes).

"A viagem transcorreu normalmente até Curvelo (a 164 km de Belo Horizonte), quando então começou a nossa terrível odisséia — escreveu Asch—. Os caminhos carroçáveis que há 25 ou 30 anos talvez tivessem sido boas estradas (sic), eram o nosso suplício constante. Basta frisar que prevíramos atingir Brasília em viagem normal, no dia 3 de maio. Chegamos no dia 6, assim mesmo porque, modificado nosso planejamento, mantínhamos uma média de 18 a 20 horas de viagem. Tal era o estado das estradas que éramos obrigados a uma velocidade média de cinco quilômetros e a todo instante surgiam imprevistos tais como atoleiros…"

A essa altura, as obras da BR-060 já haviam começado.Um mês de ter sido criada, a Novacap anunciou a imediata construção da rodovia Brasília-Anápolis. Era outubro de 1956. Menos de dois meses mais tarde, Juscelino autorizou a companhia a fazer concorrência administrativa (em vez de licitação, procedimento mais rigoroso e demorado) para a abertura e pavimentação da estrada. Passados pouco mais de 70 dias, começam os estudos de campo da Brasília-Belo Horizonte. Foi nesse ritmo que começam a surgir as rodovias radiais, como são chamadas as vias que partem da capital do país em direção aos extremos do país (veja quadro).

Nenhuma das obras, porém, superou em heroísmo a abertura da Belém-Brasília (assunto da edição de número 9 desta série, publicada em 10 de setembro de 2011). A morte de Bernardo Sayão, abatido por uma árvore no meio da selva, há poucos dias de se completar a ligação das frentes norte e sul da estrada, acabou por consolidar o sentido heróico do feito.

Havia quem acreditasse que o traçado mais fácil para ligar o Brasil era o de uma rodovia litorânea (a atual BR-101. "Todos aceitavam como perfeitamente exequível — escreveu Juscelino — a construção da longitudinal Brasília-Rio Grande do Sul (trecho da Rodovia Transbrasiliana). Julgavam impossível, porém, a abertura da Balém-Brasília e das suas congêneres, a Brasília-Acre (inconclusa) e a Brasília-Nordeste (atual BR-020)". Insistia-se em unir o Brasil pelo litoral, esquecendo-se mais uma vez de que havia um imenso território desconhecido e desabitado.

Para que Brasília pudesse ser construída e habitada era imprescindível a construção e liberação imediata de duas rodovias, a de acesso a Anápolis e a de ligação com Belo Horizonte. Unida a esses dois pontos, a nova capital estaria conectada aos principais centros do país, Rio e São Paulo. O registro diário das obras do período da construção de Brasília (veja ao lado) mostra que, naqueles anos 1956/1960, havia um formigueiro de homens e máquinas cortando o Brasil em todas as direções.

"É a completa consumação da posse da terra"
Trecho da mensagem de ano novo de Juscelino ao brasileiros (janeiro de 1957):
"Somos geograficamente um dos maiores países deste planeta, onde vive um povo em condições de aperto. Em torno de nossa vastidão, os descampados, o país por conquistar, sítios admiráveis e, no entanto, nos agrupamos à beira do mar, espiando as fases das marés. Constitui um refrão monótono dizemos que necessitamos ocupar o nosso pais, possuir a terra, marchar para o oeste, voltar as costas ao mar, e não permancer eternamente com o olhar fixo nas águas como se pensássemos em partir, em voltar. Do Brasil nenhum de nós partirá jamais porque esta é a noção nação e pátria. A fundação de Brasília é um ato político cujo alcance não pode ser ignorado por ninguém. É a marcha para o interior em sua plenitude. É a completa consumação da posse da terra. Vamos erguer no coração do nosso país um poderoso centro de irradiação de vida e progresso. Sei e medi todas as consequências dessa mudança da capital. Não desconheço que acrescentei esforços e canseiras maiores aos duros trabalhos que pesam sobre os ombros do governo. Mas era preciso dar o passo decisivo. E o passo decisivo foi dado."

Aventura em quatro cantos



A ideia, dizem, foi do major José Edson Perpétuo, ajudante de ordens de JK. Começar a festa da inauguração de Brasília com uma grande caravana de carros de fabricação nacional saindo dos quatro cantos do país e atravessando rodovias recém-construídas ou em construção. Quase 300 homens, entre motoristas, engenheiros, operários, mecânicos, jornalistas e aventureiros em geral ocuparam 130 veículos de pequeno e grande porte, desde a Romi-Isetta, o carro-miniatura, até os ônibus FNM, de jipe a Rural Willys, de Kombi a Fusca, de Simca Chambord a Toyota Land Cruiser, num diversificado e eufórico desfile da emergente indústria automobilística brasileira. O grupo que saiu de Porto Alegre percorreu 2,2 mil km; o que partiu de Cuiabá venceu 1,1 mil km; a Coluna Leste saiu do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro; e a Norte desceu de Belém numa expedição heróica que atravessou 2,2 km de uma rodovia ainda em construção. Na manhã de 2 de fevereiro de 1960, as quatro colunas se encontraram em Brasília com Juscelino desfilando de Romi-Isseta, apesar da chuva fina.



LIGANDO OS PONTOS

Rodovias radiais são as que partem de Brasília em direção aos extremos do país, segundo a nomenclatura definida pelo Plano Nacional de Viação (PNV). O sentido da quilometragem começa no Anel Rodoviário de Brasília. São oito as rodovias federais radiais brasileiras, das quais cinco foram abertas, consolidadas ou conectadas a Brasília no governo JK, a 010, a 020, a 040, a 060 e a 070.

identificação sentido extremidade extensão
BR-010 norte Belém 1.954 km
BR-020 nordeste Fortaleza 2.038 km
BR-030 leste Barra Grande (BA) 1.158 km
BR-040 sudeste Rio de Janeiro 1.139 km
BR-050 sul Santos 1.025 km
BR-060 sudoeste Bela Vista (MS) 1.329 km
BR-070 oeste Cáceres (MT) 1.317 km
BR-080 noroeste Uruaçu (GO) 227 km
Fonte: www1.dnit.gov.br/rodovias/rodoviasfederais/radiais.htm



LEITURAS


A memória da pavimentação no Brasil, Atahualpa Schimitz da Silva Prego, Associação Brasileira de Pavimentação, 2001

Brasília, o enigma da esfinge, Luís Carlos Lopes, Editoras da Unisinos e da UFRJ, 1996

Diário de Brasília, 1958/1959/1960, Serviço de Documentação da Presidência da República, 1960

Por que construí Brasília, Juscelino Kubitschek, Senado Federal, 2000

DATAS


18 de outubro de 1956

A Novacap anuncia que começará, imediatamente, a construção da rodovia Brasília-Anápolis.

1º de dezembro de 1956

Juscelino autoriza a Novacap a fazer concorrência administrativa para a construção e o asfaltamento da Brasília/Anápolis.

11 de fevereiro de 1957

A Novacap anuncia o começo dos estudos de campo da rodovia Brasília-Belo Horizonte.

3 de abril de 1957

Juscelino segue para Jataí (GO) onde vai inaugurar a rodovia que liga a cidade a Alto Araguaia (MT).

14 de maio de 1957

Bernardo Sayão chega a Belém do Pará para discutir com a SPVEA dois convênios para a construção de duas rodovias, aa Belém-Brasília e a Salvador-Brasília, via Barreiras.

31 de agosto de 1957

Juscelino sobrevoa, em pequeno avião da Novacap, o percurso de 130 quilômetros em construção da Brasília/Anápolis.

7 de novembro de 1957

Ao lado de Bernardo Sayão, Juscelino sobrevoa o traçado da futura Belém-Brasília. A esse tempo, 40 km já haviam sido abertos e asfaltados, entre Belém e Guamá (PA). 700km desde Anápolis em direção a Belém já estavam encascalhados. 90km da rodovia Brasília/Anápolis estavam em fase de pavimentação.

14 de novembro de 1957

O DNER autoriza a construtora Andrade Gontijo a executar o reconhecimento parical, exploração, projeto e locação da rodovia Brasília-Belo Horizonte. O serviço custará Cr$ 20 milhões.

30 de novembro de 1957

Cinco empreiteiras executam serviços de terraplenagem e pavimentação da Brasília/Anápolis. Outras cinco constroem as sete pontes necessárias. A Novacap começa as obras do trecho Brasília/Luziânia da rodovia Brasília/BH. Foi aberta concorrência para execução dos trechos restantes.

2 de janeiro de 1958

O DNER anuncia abertura de concorrência pública para a construção e pavimentação da rodovia Brasília/BH no trecho Paracatu/Luziânia. Serviços orçados em Cr$ 380 milhões.

7 de janeiro de 1958

O DNER abre concorrência pública para pavimentação do trecho João Leite/Goiânia da BR-14. Serviço orçado em Cr$ 82,5milhões.

18 de janeiro de 1958

O DNER anuncia abertura de concorrência pública para construção e pavimentação da Brasília-BH, trecho Canoeiras-Paracau (MG). Serviços orçados em Cr$ 380 milhões.

22 de janeiro de 1958

O DNER anuncia abertura de concorrência pública para construção e pavimentação do trecho João Pinheiro-Cristalina da rodovia Brasília-BH. Serviços orçados em Cr$ 380 milhões.

17 de abril de 1958

O DNER anuncia abertura de concorrência pública para construção de uma ponte de concreto sobre o rio São Marcos, na rodovia Brasília/BH.

15 de maio de 1958

Juscelino cria a Rodobrás (Comissão Executiva da Rodovia Belém-Brasília).

30 de junho de 1958

Juscelino inaugura a Brasília-Anápolis, com 130 km de extensão, e que representa o primeiro ponto de apoio a Brasília por terra, vinculando-a ao sistema rodoferroviário nacional. A estrada tem 11 pontes. Começou a ser construída em maio de 1957.

1º de fevereiro de 1959

Juscelino participa, em Açailândia, da cerimônia que comemorou a ligação da frente Norte com a frente Sul das obras da Belém-Brasília.

28 de abril de 1959

Estão abertas 16 frentes de trabalho, com 14 mil trabalhadores, na rodovia Brasília-Fortaleza, que terá uma extensão de 2 mil km e passará por quatro estados: Piauí, Ceará, Bahia e Goiás.

1º de junho de 1959

Faltam apenas 19 km de terraplenagem para se completar a ligação rodoviária entre Brasília e Belo Horizonte.

15 de setembro de 1959

Concluída a ponte sobre o rio São Marcos, na divisa entre Minas e Goiás.

5 de novembro de 1959

Mais uma ponte, sobre o Rio Falcão, é concluída na rodovia Brasília-Belo Horizonte. É a 31ª das 35 obra de arte previstas para a estrada.

18 de janeiro de 1960

99,3% do serviço de terraplenagem da rodovia Brasília-Belo Horizonte estão concluídos.

31 de janeiro de 1960

Liberado o trânsito na rodovia Brasília-Belo Horizonte para a passagem da Caravana da Integração Nacional, vinda do Rio de Janeiro em direção a Brasília.

15 de fevereiro de 1960

Concluídas as pontes da Brasília-Belo Horizonte.

17 de abril de 1960

A rodovia Brasília-BH é inaugurada, mas o tráfego já havia sido entregue ao público desde 31 de janeiro.


Grandiosa, apesar de maltratada

A Plataforma Rodoviária é o projeto mais complexo de Brasília. É ao mesmo tempo um edifício e um sistema viário, arquitetura e urbanismo. Fenomenal movimento de terra foi necessário para que ela ficasse incrustrada na paisagem

Conceição Freitas

Do centro geográfico do Plano Piloto brota uma obra que é ao mesmo tempo um edifício e um sistema viário, peça de arquitetura e de urbanismo. A mais complexa obra de Brasília não pertence a Oscar Niemeyer. É uma das duas criações do arquiteto Lucio Costa para a cidade (a outra é a Torre de Tevê). A Plataforma Rodoviária é mutante: transfigura-se em Eixão, mistura-se ao Eixo Monumental e se transforma em estação de ônibus, de passageiros e em shopping e setor de serviços.

Por pouco, a Rodoviária não seria construída no governo de Juscelino e, talvez, em nenhum outro governo. Lucio Costa chegou a sugerir ao presidente (veja texto de Maria Elisa Costa) que deixasse a obra no cruzamento dos eixos para o governo seguinte. "Nâo, senhor. Seu projeto depende dessa plataforma, quero deixar tudo pronto e iluminado". E assim foi feito.

O desprezo da qual a múltipla obra tem sido vítima ao longo dos últimos governos esmaeceu, mas não destruiu a grandeza do projeto de Lucio Costa. "Simbolicamente — escreveram Geraldo Nogueira Batista e Sylvia Ficher — a Estação Rodoviária representa, ao mesmo tempo, a dimensão mais cotidiana de Brasília, e o anseio de modernidade". Distante da sede dos três poderes, ela abriga a população mais humilde, realça os dois arquitetos no Guiarquitetura Brasília.

Não foi essa a intenção primeira de Lucio Costa, como ele mesmo reconheceu em visita que fez a Brasília, em meados da década de 1980. Da desejada "mistura em termos adequados de Piccadilly Circus, Times Square e Champs Elysées", a Rodoviária passou a ser ocupada pelo trânsito intenso de usuários de ônibus urbanos, a maioria deles moradores das cidades-satélites.

O presidente Juscelino aderiu de pronto à projeção de Lucio Costa e também imaginou uma Rodoviária sofisticada, como disse no discurso de inauguração da plataforma, em 12 de setembro de 1960, dia de seu aniversário, três meses antes de deixar o governo. "Em torno dessa magnífica plataforma não tardará a instalar-se um centro borbulhante de vida, com as suas instituições de cultura, as suas salas de espetáculos, as suas lojas, as suas galerias, as suas vielas de porte veneziano, seus trevos, terraços e cafés, onde se encontrará o ambiente propício à vida em comum, o lugar de encontro, o convívio tão necessário ao citadino."

A rigor, nem Lucio Costa nem Juscelino erraram tanto assim. Ao redor da Rodoviária, surgiu inquieto movimento urbano desde o Conic, o setor mais democraticamente diversificado de Brasília, ao Conjunto Nacional e às plataformas que ligam a Asa Norte à Asa Sul.

Quando visitou a cidade em meados da década de 1980, trazido pelos ventos democratizantes que sopravam no país, o arquiteto se encantou com a Rodoviária. Reconheceu que os brasilienses tinham melhorado o projeto original e de nenhum modo se condoeu com a alteração espontânea. (Veja quadro).

Se os brasilienses deram à obra destinação diferente da do plano original, Lucio Costa conseguiu fazer de um projeto intrincado, que exigiu monumental movimento de terra, uma peça que se encaixa levemente na paisagem, como se nela tivesse nascido. "A acomodação topográfica faz pressupor que o equipamento foi implantado como se o terreno, naturalmente, já pré-existisse", avalia o arquiteto Eduardo Rossetti em texto publicado no portal vitruvius. Pelas dimensões da obra era de se esperar uma intervenção bruta na paisagem, mas o tratamento plástico de suas superfícieis, como explica Rossetti, suavizaram sua presença na paisagem da Esplanada dos Ministérios. A granilite, a cerâmica Grassit branca e o mármore branco facilitaram esse efeito, escreveu o arquiteto.

A intenção do criador de Brasília parece ter sido a de dissolver a Rodoviári

na paisagem. A ele, pouco interessava a exibição da forma, a imposição estética do concreto armado, mas sua discreta e perfeita inserção na cidade. "A solução — aponta Rossetti — abdica da questão da forma como parte exclusiva de sua formulação projetual. O que interessa é o lugar." Para fazer o projeto arquitetônico e urbanístico do marco zero do Plano Piloto, Lucio Costa fez uso de conhecimentos os mais variados: o de construção de rodovias, o de articulação de uma trama viária Complexa, o de fluxos de pedestre e o de conexões urbanas.

E ainda mais: teve o cuidado de projetar a Rodoviária como um mirante da Esplanada e das obras de Niemeyer, "deixando o pedestre com maior intimidade perante a monumentalidade da cidade." E não apenas para ele. O motorista que faz o primeiro retorno após a Rodoviária, como quem se despede da cidade, tem uma última visão panorâmica dos ministérios, da Praça dos Três Poderes e do Eixo Monumental leste. Mais ainda, a Rodoviária ocupa o lugar simbólico da conexão de todas as Brasília numa só, a do centro geográfico da cidade. Todas as cidades-satélites se cruzam na Rodoviária e dela partem passageiros rumo a todo o Distrito Federal. No primeiros anos, os ônibus interurbanos também saíam do cruzamento dos dois eixos.

A obra mais portentosa de Brasília exigiu extremado movimento de terra. Pode-se conferir as alterações no relevo do terreno na foto que mostra a profundidade das escavações, um corte de cerca de dez metros. "Tinha uma máquina muito grande, chamada Lodel. Ela trabalhava fazendo volta. Ia escavando e a esteira ia enchendo os caminhões e a terra era levada para a Praça dos Três Poderes", conta o engenheiro Ronaldo de Alcântara Velloso que, ainda como topógrafo, trabalhou na preparação do terreno, entre junho e agosto de 1957. Aproximadamente 350 caminhões fizeram o transporte da terra do cruzamento dos eixos para a Praça dos Três Poderes.

A movimentação de terra teve dois propósitos igualmente grandiosos: abrir espaço para a Rodoviária e subir o terreno do Eixo Monumental leste até a Praça dos Três Poderes para que a Esplanada ficasse inteiramente à vista desde o cruzamento dos eixos.

O carpinteiro Edwardes Cabral, 84 anos, trabalhou no Buraco do Tatu. "O servente ia cavando e a gente fazia a forma", conta Cabral, à época funcionário da Construtora Rabello, responsável pela obra da Rodoviária, do Palácio da Alvorada, do Supremo Tribunal Federal, entre tantas outras em Brasília. "Sabe por que a Rodoviária balança?", pergunta Cabral. E ele mesmo responde: "Porque não é viga ligada uma na outra, é peça pré-moldada." De fato, são estruturas em concreto armado moldadas no local.

Na placa comemorativa da inauguração da obra, está escrito que a Estação Rodoviária de Brasília é "o estuário em que palpitará a vida de Brasília, na sua expressão de progresso, grandeza e força pioneira, a serviço do Brasil."

NÚMERO
Na obra da Rodoviária foram gastos 160 mil sacos de cimento, 600 toneladas de aço duro para concreto protendido e 800 toneladas de aço de outro tipo (Fonte: Diário de Brasília, 1960)

Relatório do Plano Piloto de Brasíia



(trecho)
10 ­ Nesta plataforma onde, como se via anteriormente, o tráfego é apenas local, situou-se então o centro de diversões da cidade (mistura em termos adequados de Piccadilly Circus, Times Square e Champs Elysées). A face da plataforma debruçada sobre o setor cultural e a esplanada dos ministérios, não foi edificada com exceção de uma eventual casa de chá e da Ópera, cujo acesso tanto se faz pelo próprio setor de diversões, como pelo setor cultural contíguo, em plano inferior. Na face fronteira foram concentrados os cinemas e teatros, cujo gabarito se fez baixo e uniforme, constituindo assim o conjunto deles um corpo arquitetônico contínuo, com galeria, amplas calçadas, terraços e cafés, servido as respectivas fachadas em toda a altura de campo livre para a instalação de painéis luminosos de reclame (Fig. 11). As várias casas de espetáculo estarão ligadas entre si por travessas no gênero tradicional da rua do Ouvidor, das vielas venezianas ou de galerias cobertas (arcades) e articuladas a pequenos pátios com bares e cafés, e "loggias" na parte dos fundos com vista para o parque, tudo no propósito de propiciar ambiente adequado ao convívio e à expansão (Fig. 11). O pavimento térreo do setor central desse conjunto de teatros e cinemas manteve-se vazado em toda a sua extensão, salvo os núcleos de acesso aos pavimentos superiores, a fim de garantir continuidade à perspectivas, e os andares se previram envidraçados nas duas faces para que os restaurantes, clubes, casas de chá etc., tenham vista, de um lado para a esplanada inferior, e do outro para o aclive do parque no prolongamento do eixo monumental e onde ficaram localizados os hotéis comerciais e de turismo e, mais acima, para a torre monumental das estações radioemissoras e de televisão, tratada como elemento plástico integrado na composição geral (Figs. 9, 11, 12). Na parte central da plataforma, porém disposto lateralmente, acha-se o saguão da estação rodoviária com bilheteria, bares, restaurantes, etc., construção baixa, ligada por escadas rolantes ao "hall" inferior de embarque separado por envidraçamento do cais propriamente dito. O sistema de mão única obriga os ônibus na saída a uma volta, num ou noutro sentido, fora da área coberta pela plataforma, o que permite ao viajante uma última vista do eixo monumental da cidade antes de entrar no eixo rodoviário ­ residencial, — despedida psicologicamente desejável. Previram-se igualmente nessa extensa plataforma destinada principalmente tal como no piso térreo, ao estacionamento de automóveis, duas amplas praças privativas dos pedestres, uma fronteira ao teatro da Ópera e outra, simetricamente disposta, em frente a um pavilhão de pouca altura debruçado sobre os jardins do setor cultural e destinado a restaurantes, bar e casa de chá. Nestas praças, o piso das pistas de rolamento, sempre de sentido único, foi ligeiramente sobrelevado em larga extensão, para o livre cruzamento dos pedestres num e outro sentido, o que permitirá acesso franco e direto tanto aos setores do varejo comercial quanto ao setor dos bancos e escritórios (Fig. 8).



Lucio Costa*

"Eu caí em cheio na realidade, e uma das realidades que me surpreenderam aqui foi a rodoviária, à noitinha. Eu sempre repeti que essa plataforma rodoviária era o traço de união da metrópole, da capital, com as cidades-satélites improvisadas da periferia. É um ponto forçado, em que toda essa população, que mora fora entra em contato com a cidade. Então, eu senti esse movimento, essa vida intensa dos verdadeiros brasilienses, esse milhão que vive for a e converge para a rodoviária. Aqui é a casa deles, é o lugar onde eles se sentem à vontade. Eles protelam, até, a volta para cidade-satélite e ficam ali, bebericando. Eu fiquei surpreendido com a boa disposição daquelas caras saudáveis. E o shopping center, então, fica funcionando até meia-noite… Isto tudo é muito diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como um centro requintado, igual ao Champs Elysées ou Picadilly Circus, uma coisa meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros legítimos que construíram a cidade e estão instalados ali legitimamente. É o Brasil… E eu fiquei orgulhoso disso, fiquei satisfeito. É isso. Eles estão com a razão, eu é que estava errado. Eles tomaram conta daquilo que não foi concebido para eles. Foi uma bastilha. Então eu vi que Brasília tem raízes brasileiras, reais, não é uma flor de estufa, como poderia ser. Brasília está funcionando e vai funcionar cada vez mais. Na verdade, o sonho foi menor do que a realidade. A realidade foi maior, mais bela. Eu fiquei satisfeito, me senti orgulhoso até de ter contribuído."

* Em entrevista a Omar Abbud, publicaca no caderno B do Jornal do Brasil em 27 de novembro de 1984.



No cruzamento dos dois eixos...


Maria Elisa Costa
arquiteta

A tarefa que mais me ocupa atualmente é a digitação de manuscritos originais de meu pai, Lucio Costa, do acervo da Casa de Lucio Costa. Esses manuscritos, sobretudo os rascunhos a lápis, do texto ainda em plena elaboração, são sempre escaneados, mas às vezes de difícil leitura para quem não tenha intimidade com sua letra, além do fato dele escrever sempre na ortografia antiga – a que aprendeu quando menino...

Há umas duas semanas me deparei com um texto explicativo, provavelmente dirigido à Novacap, escrito durante a construção de Brasília (1958-59). Trata de dois assuntos, ambos relativos ao cruzamento dos dois eixos. O item 2 explica a Plataforma Rodoviária.

2 – "E aproveito a oportunidade para esclarecer um equívoco referente ao setor em causa e que já motivou, por ocasião da sua última conferência no Clube de Engenharia, críticas talvez bem intencionadas, porém de todo improcedentes. As plataformas em construção no cruzamento dos eixos estruturais da cidade não são meros viadutos de tráfego como parece ao crítico. O tráfego principal de passagem no sentido do eixo-monumental passa sobre o próprio terreno, e no sentido transversal o cruzamento é subterrâneo.

As plataformas são apenas utilizadas pelo tráfego local destinado aos setores de diversões e ao tráfego secundário de articulação entre os dois grandes núcleos comerciais dispostos lateralmente e elas. O objetivo da construção dessas plataformas na escala planejada é precisamente o de forçar a seleção do tráfego e assim permitir, apesar da intensidade do movimento decorrente, a localização embaixo delas da estação rodoviária interurbana. Separada em duas seções, uma destinada às grandes linhas outra às linhas regionais com serviços comuns no mezzanino e acesso geral ao nível das plataformas ali mesmo, para que do setor social e de diversões referido acima, com as facilidades de estacionamento requeridas pelo movimento intenso, disposta assim a cavaleiro do eixo monumental, seja possível que desse mesmo centro se descortine a perspectiva do setor cultural, seguida da esplanada dos ministérios e da Praça dos Três Poderes, garantindo-se, ainda, do outro lado, a quem trafega ou passeia num plano inferior, a desejável continuidade visual além da plataforma."

Quando li este texto, me vieram à mente as imagens do filme L´homme de Rio, com o ator Belmondo correndo no meio daquelas construções inusitadas e novas em folha, no meio da terra vermelha... e ao mesmo tempo me dei conta do quanto, na cabeça de meu pai, Brasília nasceu pronta e acabada.

Sempre pensei que o Plano Piloto deu certo porque Lucio soube colocar com absoluta pertinência quais eram os problemas a serem resolvidos para assegurar que a transferência da capital para o meio do nada, apesar de feita em 3 anos, fosse irreversível: tinha que ser bela e criar uma paisagem construída poderosa no horizonte de 360° do Planalto Central; não podia correr o risco de se desenvolver nos moldes tradicionais, evoluindo naturalmente – tinha que nascer com cara de gente grande (e daí surgiu o conceito da superquadra, inovador nos pilotis abertos e na faixa verde arborizada delimitando seu território, e tradicional no gabarito pré-elevador e na idéia da entrada única, que confere à SQ uma inesperada analogia com ... a vila: superquadra não é lugar de passagem).

Acrescente-se a intenção de livrar os futuros moradores dos crônicos engarrafamentos de então na antiga capital, além da necessidade de uma implantação simples e clara, de fácil apreensão e execução.

Dr.Lucio, sozinho, dentro de seu apartamento, juntou tudo isso com bom senso e mais a liberdade de pensamento que sempre foi sua marca, e nasceu Brasília.

Mas sempre que penso na Rodoviária, acho que houve um ingrediente a mais, ou pelo menos uma liberdade específica, maior, mais corajosa... a Plataforma Rodoviária é um gesto de uma inacreditável audácia, que de certo modo rimava com a audácia do próprio Juscelino. Segundo declaração de Lucio no vídeo Lucio Costa – a visão do futuro (acessível no Youtube, via Casa de Lucio Costa), ele chegou a propor a JK que deixasse a construção da Rodoviária para o governo seguinte, hipótese rechaçada no ato pelo Presidente: "Não senhor, seu projeto depende dessa Plataforma, quero deixar tudo pronto, e iluminado!".

A obra foi construída antes da inauguração da nova capital, e visitada por Lucio Costa em 1974. Mas foi só em novembro de 1984, quando convidado por Tânia Batella (DUA) e Luiz Alberto Cordeiro (Terracap), no último ano do governo Lamaison, que o criador se encontrou ao vivo com a criatura.

Passamos uma semana em Brasília, sem programas formais, olhando tudo. Num fim de tarde, chegando ao Hotel Nacional depois de um dia cheio, eu fui descansar, mas ele, discretamente, escapuliu sozinho, passou pelo Conic, circulou pela Rodoviária de cima a baixo, foi ao Conjunto Nacional.... e esse momento foi para ele de suprema alegria, aliás registrada em excelente entrevista concedida ao Jornal do Brasil na mesma noite, no saguão do Hotel.

Acertou no alvo, o Dr. Lucio, usando da sua liberdade maior no local preciso daquele "gesto primário, de quem assinala um lugar e dele toma posse"... e legitimando a "tomada de posse" definitiva do território pelo povão!


Nem a morte parou a cidade

Não faltou torcida contrária ao projeto da construção da capital no cerrado. Maior que esse movimento, porém, a determinação de Jk e dos idealizadores de Brasília fez a ideia seguir em frente

Conceição Freitas

Se 1957 foi o ano em que tudo parecia improvável e 1958 foi o ano em que o impossível parecia bastante provável, 1959 foi o ano da “última arrancada”, como declarou Íris Meinberg, diretor financeiro da Novacap, logo depois das festas natalinas. Nem a morte trágica de Bernardo Sayão, em 15 de janeiro de 1959, desanimou Juscelino Kubitschek, Israel Pinheiro e os demais. A cidade em construção parou por dois dias, para assimilar a notícia de que uma árvore havia abatido o engenheiro no meio da floresta e dele se despedir.

Todo o calendário das obras foi severamente mantido. Em 1º de fevereiro, Juscelino, dona Sarah e as filhas, Márcia e Maria Estela, desciam em Açailândia (no Pará) para participar da cerimônia que marcou o encontro das frentes de trabalho sul e norte da Rodovia Belém-Brasília. Era por ela que Bernardo Sayão trabalhava e esperava. JK levou para o meio da Floresta Amazônica boa parte do alto escalão do governo. O ministro da Guerra, Teixeira Lott; o chanceler Negrão de Lima, o ministro da Educação, Clóvis Salgado, dois embaixadores europeus e um latino-americano.

As obras do Congresso Nacional já haviam começado quando a Revista Brasília, o órgão oficial de informação sobre as obras da cidade, publicou o detalhamento do projeto do palácio legislativo. Por várias vezes, Oscar Niemeyer declarou ser essa a sua criação preferida em Brasília. O arquiteto procurou uma solução que refletisse a independência de cada uma das casas, Câmara e Senado, mas que estivessem juntas num só edifício para “dar solução mais racional e econômica ao problema”. Ao mesmo tempo, procurou um efeito monumental ao conjunto de tal modo “capaz de dominar, como desejável, as demais construções da cidade”.

O movimento das máquinas já havia levantado o chão para receber as duas cúpulas e as duas torres do Congresso Nacional. Na topografia original, ali havia uma descida considerável que levava ao Rio Paranoá. Com a terra retirada do cruzamento dos Eixos, para dar lugar à Rodoviária, levantou-se o terreno para que pudesse receber o Congresso e a Esplanada.

Elevando-se o declive, foi possível cumprir o objetivo plástico que Lucio Costa e Niemeyer desejaram, situando as duas cúpulas “em monumental esplanada onde suas formas se destacam como verdadeiros símbolos do Poder Legislativo”. Finalmente, “ao fundo, contrariando a linha horizontal da Esplanada, erguem-se os blocos administrativos, que são os mais altos de Brasília”, descreveu o arquiteto.

Nada, na nova capital do país, era gratuito. A cidade e seus palácios preexistiram em sonho, em expedições científicas, em preceitos urbanísticos e em cálculo estrutural. A obra do Congresso Nacional foi uma das de mais difícil execução, com grave risco para os operários, muitos deles mortos em quedas das duas torres. O “28” virou símbolo dos acidentes de trabalho acontecidos durante a construção da nova capital.

Nada, nem a morte de Bernardo Sayão nem a dos operários nem a implacável campanha da oposição, fez Juscelino recuar da decisão de mudar a capital ainda no seu governo. Nem mesmo o episódio acontecido no carnaval de 1959, que ficou conhecido como o massacre da Pacheco Fernandes, alterou o calendário das obras. Para o engenheiro Jofre Mozart Parada, em entrevista ao Correio Braziliense, na década de 1970, não havia como desistir de Brasília, e a razão não era apenas a determinação de JK. Os milhares de brasileiros que chegavam, incessantemente, selaram o projeto de transferência da capital.

Linha do tempo



15 de janeiro — Entre as localidades de Imperatriz, no Maranhão, e Guamá, no Pará, a 30km da fronteira dos dois estados, o engenheiro Bernardo Sayão foi atingido, às 13h, por uma árvore, que alcançou o jipe de inspeção.
24 de janeiro — Juscelino inaugura a Usina de Cachoeira Dourada, sobre o Rio Paraíba, na fronteira de Minas com Goiás.
1º de fevereiro — Juscelino, dona Sarah, Márcia e Maria Estela participam, em Açailândia (PA), das comemorações do fim do desmatamento da Rodovia Belém-Brasília, com o encontro das turmas que saíram do Norte com as que saíram do Sul.
28 de fevereiro — A cúpula do Senado está pronta e a da Câmara está sendo armada. As duas torres do Congresso já estão no sexto pavimento. Dos 11 ministérios, quatro estão com a estrutura metálica completamente montada. A pavimentação das vias está concluída.
2 de abril — O presidente do Banco do Brasil, Sebastião Paes de Almeida, anuncia para dentro de um mês o início das obras da sede do Banco do Brasil no Setor Bancário Sul.
13 de abril — Chega ao Rio, trazida pelo navio português Vera Cruz, a imagem de Nossa Senhora de Fátima destinada à Igrejinha.
24 de abril — Juscelino recebe, no Palácio das Laranjeiras, a imagem de Fátima.
2 de maio — Saem do Rio em direção a Brasília 1,5 mil exemplares de peixes a serem lançados no novo lago. A seleção das espécies foi feita pela Divisão de Caça e Pesca do Ministério da Agricultura.
13 de maio — O presidente Juscelino recebe, no aeroporto de Brasília, a imagem de Nossa Senhora de Fátima.
5 de junho — Em construção o Hospital Distrital de Brasília, com capacidade para 260 leitos. É a primeira unidade da rede hospitalar do novo Distrito Federal.
22 de junho — Inaugura-se o primeiro bloco de superquadra, obra do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários.


É uma miragem? Não, é uma cidade

Só um louco acreditaria que, em menos de quatro anos, a capital do Brasil seria transferida do Rio de Janeiro para o interior de Goiás. Contudo, em fins de 1959, os brasileiros não tinham mais nenhuma dúvida: Brasília estaria pronta para ser a nova capital do Brasil

Conceição Freitas

Era como se a capital do país fosse ser transferida do Rio de Janeiro para uma miragem no deserto. Uma esplanada singrava a vegetação rala e nas bordas da avenida pontuavam predinhos dispostos como pedras de dominó. Na extremidade leste, duas torres gêmeas surgiam dentro de formas de madeira e aos pés delas havia duas bolas de concreto partidas ao meio, uma convexa e outra côncava. Atrás das torres, dois palácios de mármore branco emergiam do silêncio eterno do cerrado. Torres e palácios formavam um triângulo cuja área seria definida com miúdas pedras portuguesas, incrustradas uma a uma no terreno.

Na outra extremidade da Esplanada, uma plataforma em obras se insinuava no cruzamento de dois eixos. Ao sul de um desses eixos, o Rodoviário, blocos retangulares se alinhavam como se um deus do urbanismo tivesse brincando de inventar uma cidade com pedrinhas de brilhante. Bem no meio do eixo sul, uma construção em forma de chapéu de freira dominicana se sustentava em alicerces triangulares e, dentro dele, uma pequena nave já acolhia celebrações religiosas. O eixo rodoviário também se estendia ao norte — solitário.

Ao largo desse conjunto arquitetônico alinhado em eixos, havia duas outras edificações brancas como aqueles dois palácios de mármore. Uma delas se destacava pela imponente delicadeza — era ao mesmo tempo altiva e diáfana, delgada e sinuosa, soberana e etérea. Parecia se sustentar com meias asas em posição de voo. Era um palácio e esperava por um lago. O outro prédio, razoavelmente próximo ao primeiro, era singelo e discreto, como quem reverenciava o vizinho.

Faltavam quatro meses para que esse conjunto esparso de formas inesperadas fosse inaugurado como sendo a nova capital do Brasil. Havia outras obras pontilhando o chão cor de ferrugem. As estruturas de um grande hospital apontava no centro da cidade. Ao sul, numa via que viria a se chamar Avenida W-3, 500 casinhas cor de algodão já abrigavam candangos anônimos e ilustres. Um dos mais eminentes moradores do lugar era o arquiteto Oscar Niemeyer, o autor de todas as obras de arquitetura que estavam sendo construídas na inaudita cidade, exceto a Plataforma Rodoviária, que pertencia ao urbanista Lucio Costa, o vencedor do concurso que escolheu o projeto de Plano Piloto da capital do Brasil.

Era à noite que a futura cidade parecia verdadeiramente existir. As luzes penduradas em postes mambembes reduziam a imensidão do cerrado às obras em andamento. O barulho de martelos, serras, motores se expandia na escuridão avisando que algo grandioso estava sendo preparado para muito breve. Quando amanhecia, a cidade voltava a se esvanecer no terreno monumental.

Longe do futuro Plano Piloto, formigueiros de gente improvisavam pequenos aglomerados com casas feitas de pedaços de madeira, madeirite, sacos de cimento, papelão, lona. O maior deles, a Cidade Livre, havia sido criada para servir de suporte à construção da capital e, de acordo com os planos da Novacap, seria desmontada logo depois da inauguração de Brasília. Taguatinga tinha surgido às pressas para abrigar uma multidão de nordestinos vindos da terrível seca de 1958. Imensa vila, a Amaury, criada pela Novacap, alojava-se no leito do futuro Lago Paranoá, que começaria a se formar em setembro de 1959.

Sucediam-se as visitas à impressionante cidade. A 25 de agosto de 1959, chegou o personagem que deu a Brasília um de seus mais repetidos epítetos, o de "capital de esperança". O filósofo e ministro da Cultura da França, André Malraux, ficou efusivamente impactado com a obra moderna feita pelos brasileiros. "No processo de desenvolvimento, muitas vezes as grandes nações encontraram o seu símbolo e, indubitavelmente, Brasília é um símbolo desse gênero", disse Malraux. "Se renascer a velha paixão das inscrições nos monumentos, gravar-se-á sobre os que aqui vão nascer: 'Audácia, energia, confiança'. Não se trata de vossa divisa oficial, mas talvez das que vos dará posteridade."

O cineasta Frank Capra tinha passado por Brasília dias antes da vinda de Malraux. Durante seis horas, filmou a cidade de helicóptero, imagens que se perderam no tempo. De volta aos Estados Unidos, Capra enviou agradecimentos a Juscelino Kubitschek pela hospitalidade: "Numa época em que o mundo receia a sua destruição, o senhor está construindo e edificando, para o futuro, em tão emocionante escala que isso deve constituir, um tônico restaurador para um mundo deprimido."

No fim de 1959, o Brasil não tinha nenhuma dúvida: o Rio de Janeiro não seria mais a capital do Brasil. Por mais absurdo que pudesse parecer quatro anos antes, Brasília seria mesmo inaugurada em 21 de abril de 1960.

Linha do tempo - De julho a dezembro de 1959



Num dos primeiros dias de agosto o cineasta Frank Capra sobrevoa Brasília de helicóptero, durante seis horas, para filmar as obras da nova capital.

16 de agosto — Morre o marechal José Pessoa, aos 73 anos, três anos depois de deixar a Comissão de Planejamento e Mudança da Capital Federal. A revista Brasília dedicou uma página ao marechal.
19 de agosto — De acordo com censo experimental realizado em 17 de maio de 1959, Brasília abriga 64.314 moradores, dos quais 42.332 são homens e 21.982, mulheres.
25 de agosto — O escritor, filósofo e ministro da Cultura da França, André Malraux, visita Brasília.

SETEMBRO
12 de setembro — Com uma ligação, Juscelino inaugura o circuito rádio-telefônico entre Rio de Janeiro e Brasília. No mesmo dia, aniversário de JK, fecha-se a barragem do Paranoá, dando início, assim, à formação do lago. O presidente inaugura trevos, viadutos e pavimentação asfáltica dos eixos rodoviários. JK lança a pedra fundamental da Catedral de Brasília, inaugura blocos de apartamento do IAPB e do IAPC e visita as obras do Hospital de Base.
15 de setembro — Lançada a pedra fundamental do Correio Braziliense.
17 de setembro — Instala-se em Brasília o Congresso Internacional de Críticos de Arte.

NOVEMBRO
7 de novembro — O antropólogo Gilberto Freyre visita Brasília pela segunda vez.
10 de novembro — O Catetinho passa a fazer parte das obras protegidas pelo então Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
23 de novembro — Inauguração da plataforma no cruzamento dos Eixos Monumental e Rodoviário. É a primeira parte da obra da Rodoviária.
24 de novembro — Lançada a pedra fundamental do Colégio Dom Bosco no Plano Piloto.
Concluídos 59 mil metros de tubulação, um reservatório definitivo e parte de uma adutora de um metro de diâmetro. Concluídos também 33 mil metros de rede de esgoto e 79 mil metros de águas pluviais. Está pronta a Barragem do Torto, a estrutura do Hospital Central (Hospital de Base). Já foram pavimentadas cerca de 300 km de avenidas no Plano Piloto; 500 casas na W3 Sul estão prontas e muitas delas habitadas. A hidrelétrica de Cachoeira Dourada também já está pronta, com 28 mil kwas.

DEZEMBRO
Já estão parcialmente prontos os onze primeiros edifícios destinados aos ministérios. Começam a ser construídas as tesourinhas de acesso às primeiras superquadras da Asa Sul. A Igrejinha, o Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel estão concluídos. O Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal já estão com suas estruturas prontas. As duas cúpulas do Congresso também foram concluídas. As torres gêmeas já alcançaram o 28º andar.
20 de dezembro — Inaugurado novo conjunto residencial da Fundação da Casa Popular com 840 apartamentos, em 28 blocos de três andares, construídos em 210 dias. São os edifícios JK.

"A mais ousada"


André Malraux (ministro da Cultura da França em discurso proferido durante visita a Brasília em 25 de agosto de 1959)
"Sabeis -- como sabem todos os artistas, mas como os governos não o sabem tão bem -- que as formas de arte destinadas a perpetuar-se na memória dos homens são formas 'inventadas'. Nesta cidade que tem sua origem na vontade de um homem e na esperança de uma Nação, com as antigas metrópoles surgiram da vontade imperial de Roma ou dos herdeiros de Alexandre, o Palácio da Alvorada que edificastes, a catedral que haveis projetado nos trazem algumas das formas mais arrojadas da arquitetura, e, ante os esboços da futura Brasília, percebemos que a cidade inteira será a mais ousada que jamais o Ocidente haja concebido. Em nome de tantos monumentos ilustres que povoam nossa memória, graças vos sejam dadas por haverdes depositado confiança em vossos arquitetos para criar a cidade e em vosso povo para que lhe tenha amor. Tal ousadia, sabemos como alguns a temem, mesmo dentre amigos desses projetos, é possível que apreendam mal o que lhes confere decisivo valor histórico. É chegada a hora de compreender que a obra que começa a erguer-se diante de nós é a primeira das capitais da nova civilização."

"Basicamente brasileira"



Gilberto Freyre (em entrevista à Rádio Nacional de Brasília em 7 de novembro de 1959)

"Foi com a maior satisfação que, depois de um primeiro contato, espécie de aperitivo, com Brasília, voltei esta semana a ver de perto esta assombrosa criação brasileira, desta vez a convite do meu eminente amigo, o presidente Juscelino Kubitschek.

Sejam quais forem suas deficiências, neste ou naquele particular, Brasília é de certo um esforço que honra a capacidade de realização dos homens públicos, dos administradores, dos arquitetos, dos urbanistas, dos sanitaristas, dos educadores, dos técnicos e dos operários nele empenhados com um fervor que, em alguns, chega a ser um fervor místico ou religioso. Do ponto de vista artístico Brasília é qualquer coisa de maravilhoso. Continuo a pensar que lhe faz falta a presença, entre os orientadores da sua construção, do ecologista e dos cientistas sociais; e renovo daqui o meu apelo ao presidente da República e ao diretor Israel Pinheiro, no sentido de procurarem juntar, sem demora, esta colaboração efetiva ao esforço cada vez mais complexo que a construção de Brasília representa como um grande triunfo brasileiro no espaço tropical e no tempo moderno.

É evidente que Brasília se desenvolverá como uma cidade basicamente brasileira. Por conseguinte, com problemas comuns a outras cidades brasileiras. Por outro lado -- tal é a sua modernidade, tal é a sua projeção sobre o futuro, como cidade situada no trópico, que vários dos seus problemas serão especificamente, vamos dizer, brasilianos e não apenas brasileiros.

Esses problemas, que acabo de chamar especificamente brasilianos, terão de ser considerados -- e quando possível resolvidos, por administradores de visão na verdade larga, com a colaboração não só de urbanistas, arquitetos e artistas, mas -- permita que insista neste ponto -- de ecologistas e cientistas sociais, pois não nos esqueçamos de que Brasília não é uma criação do vácuo, mas dentro de uma ecologia -- a tropical e condiconada pela situação do Brasil, pelas suas inter-relações internas (inter-relações das quais Brasília vai se tornar o centro) e pelas suas relações com o exterior: relações de uma já quase potência, não só continental como atlântica.

Não sei se se deva dizer que Brasília vai-se desenvolver como cidade de formação cosmopolita. A meu ver, se tal sucedesse, seria não a sua grandeza, mas, talvez, a sua desgraça. Brasília, a meu ver, deve desenvolver-se combinando o que nela é brasileiro com o que lhe virá, cada vez mais, de fora, sob a forma de boas e saudáveis influências de caráter cosmopolita.

Sou dos que acreditam de modo, posso dizer, absoluto, em que a interiorização da Capital é uma necessidade brasileira. Será um meio de tornar-se o Brasil um todo mais dinamicamente inter-regional e, por conseguinte, um todo verdadeiramente nacional."

LEITURAS>/h3>

Arquivo Brasília, Lina Kim e Michael Wesely, Companhia das Letras, 2010
Diário de Brasília 1959
Revista Brasília, números 31, 32, 33, 34, 35 e 36


Na palma da mão



Símbolo da democracia e desenhada para o povo, a Praça dos Três Poderes é uma obra feita a duas mãos, idealizada por Lucio Costa e desenvolvida por Niemeyer que, mais tarde, faria alterações danosas no projeto



Conceição Freitas

A ágora dos gregos era o ambiente urbano da celebração coletiva. Era o lugar, como escreveu Richard Sennett, "onde reinava a harmonia entre a carne e a pedra". A praça mais importante de Brasília é uma ágora em forma de triângulo equilátero cujos três vértices são o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. O desenho geométrico só é visível do alto. É um corte imaginário ligando pontos arquitetônicos.

Como no país que fundou a democracia, a Praça dos Três Poderes se oferece simbolicamente ao povo. Para consagrar o espaço ao exercício democrático, Lucio Costa levantou o terreno em declive para consagrar, como quem estende "a palma da mão", expressão dele, à cidade. Houve ainda uma terceira intenção: o de suavizar o contraste entre a interferência urbana da nova capital e vastidão do cerrado virgem.

Fosse respeitada a localização escolhida por Lucio Costa, a praça (e portanto, todo o Plano Piloto) estaria muito mais longe da margem do Lago Paranoá. Por sugestão do presidente do júri que escolheu o projeto, o inglês William Holford, a Novacap empurrou toda a cidade 700 metros para mais perto do futuro lago. "Na localização original, a praça seria na altura do que é hoje a ligação da L2 Norte com a L2 Sul", esclarece Francisco Lauande Junior, professor de arquitetura da Universidade Católica de Brasília e autor de Brasília, a praça dos Três Poderes, dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília.

Pode-se dizer que a Praça dos Três Poderes é uma obra de dois — Lucio Costa e Oscar Niemeyer. O projeto urbanístico é do primeiro. Coube a Niemeyer desenvolver a ideia a partir dos croquis apresentados no concurso do Plano Piloto. "A praça é o resultado da interpretação da ideia de um arquiteto por outro — uma obra de urbanismo e arquitetura", escreveu Lauande.

Quem observar com cuidado os croquis de Lucio Costa verá que, num dos vértices do triângulo da Praça dos Três Poderes, há um quadradinho com uma bolinha em cima. É o esboço do que o arquiteto imaginava para o Congresso Nacional, um prédio vertical e uma cúpula horizontal. Niemeyer respeitou a intenção do urbanista, mas duplicou a edificação. O anexo passou a ter duas torres, de 28 andares, e projetou duas cúpulas (a Câmara dos Deputados e o Senado). Houve também uma troca de lugar: o STF passou para o lado sul e o Palácio do Planalto para o norte. Lauande explica que a decisão de Niemeyer pretendeu dar mais segurança ao presidente da República, visto que do lado norte há uma pista de acesso ao Palácio da Alvorada e à Avenida das Nações. Os prazos eram curtíssimos e as tarefas, demasiadas. Ainda assim, observa Francisco Lauande, Niemeyer conseguiu desenvolver o projeto de Lucio Costa sem desrespeitar os traços essenciais da intenção do autor.

Estranha-se, ainda hoje, que a praça mais importante da cidade fique num ponto extremo da cidade, "principalmente — escreve Lauande — pela população que guarda no seu imaginário a localização das praças em áreas mais centrais da cidade." Mas não se trata de uma invenção de Lucio Costa. As praças da Concórdia, em Paris; a do Comércio, em Lisboa; a Praça XV, no Rio de Janeiro; e a praça de Porto Seguro, na Bahia, além de uma forma semelhante, "têm uma franca relação com a natureza do mar". Em vez dele, o cerrado, como identifica o professor de arquitetura Antônio Carlos Carpintero, orientador da dissertação de Lauande.

De todo modo, a praça projetada era cortada pelo Eixo Monumental. "Na ideia do Lucio, o automóvel iria conviver com o pedestre. O carro reduziria a velocidade, passaria por dentro da praça e continuaria o caminho. Oscar mudou isso. Preferiu interromper o trânsito e deixar o retângulo (a praça propriamente dita) livre para pedestres", comenta Lauande. Esse corte criaria duas pracinhas, uma ao norte e outra ao sul.

Outra alteração feita antes mesmo da inauguração foi o projeto do Museu da Cidade (a edificação que sustenta o busto de Juscelino). A ideia, segundo o autor da dissertação, foi do próprio JK. Lauande considera que o volume retangular interrompeu a integração do Congresso com a praça. Outra inclusão foi a Casa de Chá que, pela sua disposição a meio subsolo, não deturpou a ideia original. As esculturas da Justiça, de Alfredo Ceschiatti, e Dois Candangos, de Bruno Giorgi, encaixaram-se harmoniosamente no conjunto.

Passada a inauguração, começaram as modificações na praça. A primeira delas ocorreu no curto período em que o sucessor de Juscelino, Jânio Quadros, morou na cidade. A pedido da primeira-dama, dona Eloá, que não concebia uma praça sem pombos, pediu a Niemeyer um pombal. Com muita má-vontade (e não poucos palavrões), o arquiteto projetou a peça que a cidade conhece como Pregador de Roupa.

No período da ditadura, instalou-se na praça um monumento propositadamente maior do que as duas torres do Congresso, o Mastro da Bandeira, obra do arquiteto Sérgio Bernardes. "Aí já começa um problema ético. Ele não era o autor da praça. Não houve consulta, não teve anuência de Lucio Costa", comenta Lauande. Quando o Brasil retomou o caminho democrático, surgiu um incipiente movimento para retirar o mastro dali e transplantá-lo em outro lugar. Os brasilienses reagiram à ideia. "A bandeira virou um marco da cidade."

No governo José Aparecido de Oliveira, no período de transição para a democracia, Oscar Niemeyer voltou a fazer projetos para a cidade. Um deles, o do Panteão, criou um obstáculo na paisagem. "A ideia do Lucio era de que a área ficasse livre para que o cerrado pudesse ser contemplado", aponta o autor da dissertação. "É bom que se diga que Lucio, homem muito educado, não foi contra a construção do Panteão. Ele chegou até a elogiá-lo."

Quando da construção da sede da Procuradora-Geral da República, Lucio Costa abdicou da elegância e chegou a declarar publicamente que Niemeyer "havia perdido o sentido da escala de Brasília", ainda segundo Francisco Lauande. O prédio espelhado e redondo da PRG destruiu a concepção original da praça, o de deixar a paisagem livre até o Lago Paranoá. O segundo anexo do STF completou o dano ao projeto de Lucio. De longe, os dois prédios juntam-se numa formação anacrônica e deselegante.

As intervenções nos arredores não chegaram a interferir na ideia de uma praça do povo. É nela que se concentram as principais manifestações políticas que chegam à cidade ou que nela nascem.



LEITURA

Brasília, a praça dos Três Poderes, Francisco de Assis Lauande -- Dissertação de mestrado em arquitetura apresentada à Universidade de Brasília em 2008. Disponível no catálogo da Biblioteca da UnB em arquivo online.




Em terra nunca antes navegada



Entre 1957 e 1960, o canteiro de obras de Brasía recebeu visitantes os mais ilustres, dentre eles chefes de Estado, um rei, dois príipes, uma duquesa, um futuro papa, jornalistas, arquitetos, cineastas, escritores. Gente que queria acompanhar a inacreditál aventura de se construir uma cidade na solidãdo cerrado



Conceição Freitas

Nunca antes naquele Brasil adormecido, tantos chefes de Estado, ministros, escritores, cineastas, arquitetos, jornalistas e etecetera haviam visitado o paínum ú governo. Entre 1957 e 1960, o canteiro de obras de Brasía recebeu mais de uma centena de estrangeiros ilustres, do Rei da Etió, Hailêalassiêo príipe Mikasa, do Japã do presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, ao secretáo de Estado do Vaticano, cardeal Giovanni Montini, futuro Papa Paulo VI; do astronauta russo Yuri Gagarin ao cineasta norte-americano Frank Capra e ao herdeiro do magnata do impéo Hearst de comunicaç, William Randoplh Hearst Jr. (O CidadãKane).

As obras nem haviam começo quando o jornalista Tad Szulc, do New York Times, aterrissou na cidade ainda inexistente, a 5 de outubro de 1956. Nãháegistro de como o repór alcanç o vale onde o Plano Piloto seria construí. Deve ter vindo de aviãda FAB e desembarcado no campo de pouso onde mais tarde seria construí a Rodoferroviáa. Ainda em 1956, o prefeito de Nova York, Robert Wagner, tambéveio conhecer a futura capital do Brasil, e trouxe a mulher.

À 11h de 27 de novembro de 1956, aterrissou em Brasía inusitado visitante, o coronel inglêPeter Townsend, heróa Segunda Guerra Mundial, ex-escudeiro do rei George VI e da Rainha Elizabeth II. Townsend dava a volta ao mundo numa espée de exío amoroso. Um ano antes, ele havia sido o centro das atençs da imprensa britâca e, por extensã dos jornais de todo o mundo ocidental, por conta de seu romance com a princesa Margareth, herdeira do trono inglê Os impedimentos eram graves: 15 anos mais velho que a amada, o coronel era separado da primeira mulher. Depois de dois anos de especulaç em torno do casal, a princesa cedeu àpressõdo reino e declarou que obedecia aos princíos da Igreja Catóa, para a qual o casamento era "indissolú. Brasía ajudou o coronel a esquecer a derrota.

Depois que a pista do aeroporto foi inaugurada, em abril de 1957, e que a notía da construç de uma cidade moderna "na selva brasileira" se alastrava pelo mundo, as visitas ao canteiro de obras cresceram vertiginosamente. Jám janeiro de 1958, chegava àidade o presidente do Museu de Arte Moderna de Nova York, William Burden. Jornalistas desciam em levas na pista de pouso -- repóres consagrados como Raymond Cartier, da revista Paris-Match, ou vindos de regiõdistantes, como M. Nahumi, do jornal Al Hamishmar, de Telavive.

O primeiro dos chefes de Estado a visitar o chapadãfoi o presidente de Portugal, Craveiro Lopes. Veio em 20 e 21 de junho de 1957, dormiu no Catetinho e percorreu, de jipe, as trilhas enlamaças do futuro Plano Piloto. Craveiro Lopes inaugurou o primeiro hospital da cidade, o do IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensõdos Industriáos), que recebeu o seu nome, mas por pouco tempo. Mais tarde, o hospital passaria a se chamar Juscelino Kubitschek de Oliveira, o HJKO.

No primeiro semestre de 1958 vieram sujar os péde lama vermelha jornalistas italianos, britâcos, suecos, norte-americanos, franceses, alemã, japoneses. Tambéesteve aqui o ditador do Paraguai, Alfredo Stroessner, e o príipe e a princesa Mikasa, do Japã Foi uma festa nipo-brasileira, mais brasileira do que nipôa. Contrariando as rídas tradiçs milenares, suas Altezas apertaram as mã e se permitiram abraç membros da colô japonesa que jástavam plantando hortaliç no chãádo do cerrado desde 1957. Os nipo-candangos preparam um churrasco para os herdeiros do trono japonê mas o jovem casal jáavia almoço.

Na vinda a Brasía, o filóo e ministro da Educaç da Franç Andréalraux, deixou o epíto da nova cidade, "a capital da esperanç. O inglêAldous Huxley ( Admirál mundo novo, As portas da percepç) tambéveio e legou àova capital uma frase que ficou nos anais: "Vim de Ouro Preto para Brasía. Que jornada dramáca atravédo tempo e da histó! Uma jornada do ontem para o amanhãdo que terminou par ao que vai começ, das velhas realizaçs para as novas promessas." Outro visitante que deu novo sentido àbra foi o ministro do Coméio da Noruega, Arne Skaug: "Sóespíto jovem das Amécas poderia construir obra pioneira tãgrandiosa como Brasía. O europeu, com sélos de tradiç, jamais poderia ter iniciativa tãarrojada".

Primeiro homem a deixar a atmosfera terrestre, o astronauta russo Yuri Gagarin visitou a nova capital poucos meses depois de se transformar num heróo oriente e do ocidente (estámos, àele tempo, em plena guerra fria). O jovem Gagarin desceu na vastidãsolitáa da savana brasileira e sacou de sua sensibilidade de astronauta: "Parece que estou chegando a outro planeta, presidente". A jornalista norte-americana Inez Robb, que dizia representar uma cadeia de 300 jornais, foi superlativa: "Depois da bomba atôa e o Sputnik (o primeiro satéte artificial a ser lanço ao espaç, Brasía vai se incorporar àistó como um dos mais audaciosos projetos do sélo 20".

À véeras da inauguraç, a cidade recebeu o presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower. Em 23 de fevereiro de 1960, o quadrimotor de bandeira vermelha e branca pousou no aeroporto de madeira. Soldados da Aeronáica jástavam prontos para estender o tapete vermelho até porta do aviã "Deu-se, entã o desastre — conta JK em Por que construírasía. O aviãestacionara próo demais e, quando o tapete atingira a escada, um grande rolo ainda restava por ser aberto. Estabelecera-se a confusã Que fazer? Passar o tapete sob a escada ou pedir ao piloto norte-americano que recuasse um pouco o aviã"

O responsál pelo protocolo interveio a tempo, "impedindo que a segunda hipóe fosse tentada", conta Juscelino em estilo bem-humorado (seu ghost-writer foi o escritor Carlos Heitor Cony). Teve-se, entã a ideia de cortar o tapete. Como fazêo? "Um candango mais prestimoso jástava com sua peixeira na mãquando um G-man (sigla para agente especial do presidente americano) se antecipou com sua faca resolvendo o problema."

Depois de percorrer a cidade (a dois meses da inauguraç), Eisenhower perguntou: "Como foi possíl fazer tanta coisa em apenas dois anos presidente?"



Mestre do marketing



Autor de Brasília Kubitschek de Oliveira e da mais recente biografia de JK, Ronaldo Costa Couto tem uma explicação para o sucesso de público e de crítica (estrangeira) que foi a construção de Brasília. "Juscelino tinha o instinto do marketing. Fazia as coisas e sabia que era importante mostrá-las, e isso aconteceu desde a construção da Pampulha". Quando o presidente percebeu que, dentro do Brasil, a ideia da nova capital tinha provocado reações raivosas, ele foi buscar apoio fora das fronteiras.

"Juscelino transformou Brasília numa passarela de grandes nomes. Foi a maneira que ele encontrou de consolidar a realização brasileira", continua Costa Couto. Os estrangeiros ficavam duplamente impressionados: com a aplicação dos princípios modernistas de arquitetura e urbanismo em local tão improvável e com a capacidade de realização do povo brasileiro. "Juscelino exportou a ideia de Brasil modernizador. Ele sabia que o brasileiro, com seu complexo de vira-lata, não resistia a elogios de celebridades estrangeiras."

Os movimentos diplomáticos pareciam ter sido planejados — não apenas a cidade. Juscelino determinou a construção do Palácio Residencial (o da Alvorada) e do Hotel de Turismo (o Brasília Palace Hotel) antes mesmo de escolhido o projeto de Plano Piloto. A pista do aeroporto começou a ser aberta ainda em outubro de 1956. Ou seja, JK preparou as condições para que os estrangeiros pudessem visitar a obra modernista no sertão do Planalto Central brasileiro "onde se chegava de avião e se tinha condições mínimas de hospedagem". (CF)



ALGUNS DOS VISITANTES MAIS ILUSTRES



Presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower

Presidente de Portugal, Craveiro Lopes

Presidente da Itália, Giovanni Gronchi

Príncipe Mikasa, do Japão

Princípe Bernard, dos Países-Baixos

Presidente de Cuba, Fidel Castro

Presidente do México, Adolfo López Mateos

Presidente do Paraguai, Alfredo Stroessner

Primeiro-ministro do Japão, Kishi Nobusuke

Rei da Etiópia, Ailê Salassiê

Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Giovanni Montini, futuro Papa Paulo VI

Prefeito de Nova York, Robert Wagner

Ministro da Cultura da França, André Malraux

Ministro das Finanças da França, Antoine Pinay

Secretário de Estado norte-americano, Foster Dulles

Ministra do Exterior de Israel, Golda Meir

Ministro do Comércio da Noruega, Arne Skaus

John dos Passos, escritor norte-americano

Aldous Huxley, escritor inglês

Frank Capra, cineasta norte-americano

Yuri Gagarin, astronauta russo

Duquesa de Kent, Inglaterra

Presidente do Museu de Arte Moderna de Nova York, William Burden

Jornalista William Randolph Hearst Jr, filho do grande magnata das comunicações


Os homens de mãos de pedra



Em torno de 60 mil brasileiros participaram da construção de Brasília, seja trabalhando na construção civil ou em atividades paralelas. Ao contrário do que se pensa, a maioria dos candangos não era nordestina. Era goiana e mineira.



Conceição Freitas

Vinicius, o poeta, em Sinfonia da Alvorada: "E, à grande convocação que conclamava o povo para a gigantesca tarefa começaram a chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores: os homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra, e que, no calcanho, em carro de boi, em lombo de burro, em paus-de-arara, por todas as formas possíveis e imagináveis, começaram a chegar de todos os lados da imensa pátria, sobretudo do Norte; foram chegando do Grande Norte, do Meio Norte e do Nordeste, em sua simples e áspera doçura; foram chegando em grandes levas do Grande Leste, da Zona da Mata, do Centro-Oeste e do Grande Sul; foram chegando em sua mudez cheia de esperança, muitas vezes deixando para trás mulheres e filhos a aguardar suas promessas de melhores dias; foram chegando de tantos povoados, tantas cidades cujos nomes pareciam cantar saudade aos seus ouvidos, dentro dos antigos ritmos da imensa pátria."

Na quase inédita Sinfonia da Alvorada, composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, nos dez dias que passaram no Catetinho, o poeta conta 60 mil operários que teriam trabalhado na construção de Brasília. Não há um número preciso de candangos que, com "pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra", ergueram a nova capital. A intensa rotatividade dos trabalhadores, saltando de uma construtora a outra, voltando para suas cidades e vindo novamente para Brasília, sumindo sem pegar seus pertences, morrendo ou adoecendo, dificulta a contagem precisa do número de brasileiros que labutaram no imenso canteiro de obras.

Há dois censos, um de maio de 1959, e outro de setembro de 1960 que mostram a dificuldade de se chegar a esse intrincado número. O Censo Experimental de Brasília, realizado em 17 de maio de 1959, quase um ano antes da inauguração, constatou que moravam no Distrito Federal, àquela altura, 64.314 almas. Quinze meses depois, em setembro de 1960, o levantamento demográfico anotou a presença de 139.796 pessoas na nova capital. A população havia mais do que dobrado, aumentara 117%.

No ano que antecedeu a inauguração da cidade, a migração cresceu em ritmo intenso. "O censo (de 1960) diagnosticou que 53% dos habitantes estavam no Distrito Federal há menos de um ano", escreve Luís Carlos Lopes em Brasília, o enigma da esfinge. "Em algumas dezenas de dias, migraram para a nova cidade 44.841 homens e 26.809 mulheres".

Ao contrário do que nos dita o senso comum, os pés de raiz que construíram a nova capital não eram, em sua maioria, nordestinos. Eram goianos, seguidos dos mineiros e dos baianos (veja quadro). Os dois censos mostram isso. No de 1959, a parcela goiana correspondia a 23,3%; a mineira, 20,3%; e a baiana, 13,3%. No de 1960, houve ligeira mudança, com aumento do número de nordestinos em relação ao de mineiros e goianos: 17% de Goiás e também 17% de Minas.

Há um dado do Censo Experimental que tem importância simbólica: em 1959, moravam em Brasília brasileiros de todas as unidades da Federação. Os pesquisadores da Comissão Censitária Nacional constataram que "as migrações de maior peso são (eram) formadas pelos naturais de lugares mais próximos do território recenseado, com predomínio dos deslocamentos que se poderia classificar como intermunicipais (pessoas nascidas em Goiás)". Da totalidade dos habitantes de Brasília (em 1959), 7.361 eram pessoas que já moravam aqui. Goianos habitantes das cidades de Luziânia, Planaltina e Formosa, municípios que cederam território para a formação do Distrito Federal.

Deve-se levar em conta que nos 64 mil habitantes de Brasília estão incluídas as crianças, os velhos e os sem ocupação habitual. A população economicamente ativa na nova capital, em maio de 1959, era de 35.201 pessoas contra 29.113 não economicamente ativos. Ou seja: até aquela data, 35 mil pessoas participavam efetivamente da construção da cidade. Em setembro de 1960, esse número havia saltado para 71.283, dos quais 63.899 eram homens e 7.384, mulheres.

Com o tempo, cresceu o número de nordestinos que chegavam a Brasília, como explicam os pesquisadores e como comprovam os dados: "a) as migrações para Brasília aumentaram de volume, com o decorrer do tempo, em ritmo acentuadamente acelerado; b) os primeiros contingentes radicados no território procediam, em grande maioria, das regiões confinantes (sobretudo, do estado de Goiás), sendo logo secundados pelos migrantes oriundos de regiões próximas (estados de São Paulo e Minas Gerais); c) só recentemente tomaram vulto as migrações procedentes da Bahia e de estados nordestino, em geral."

Apenas 1,9% dos moradores de Brasília em 1959 eram estrangeiros. A maioria deles se ajeitou na Cidade Livre, com exceção dos portugueses que preferiram o Plano Piloto e dos japoneses, que se fixaram na zona rural. Eram os que começaram a chegar à nova capital em 1957 para se dedicar à produção de hortaliças.

O território pesquisado tinha características excepcionais, dado o que ali acontecia. A absoluta maioria dos candangos exercia a função de servente de pedreiro, 7.539; em seguida, vinham os carpinteiros e marceneiros (os que faziam as formas para a concretagem dos edifícios), 3.694; só então, os pedreiros, 2.462. Era grande o número de motoristas, 1.377, mas a tarefa não era a de transportar autoridades. Eram condutores dos caminhões que carregavam material de construção (e operários). Era igualmente razoável o número de cozinheiros (e cozinheiras): 935; e de comerciantes, 951. Cinco meses depois da inauguração, o servente de pedreiro ainda era a ocupação com maior número de trabalhadores, 14 mil. Cidade feita de raiz, couro e pedra, como escreveu Vinicius.

"—Boa viagem! Boca do Acre! Água Branca! Vargem Alta! Amargosa! Xique-Xique! Cruz das Almas! Areia Branca! Limoeiro! Afogados! Morenos! Angelim! Tamboril! Palmares! Taperoá! Triunfo! Aurora! Campanário! Águas Belas! Passagem Franca! Bom Conselho! Brumado! Pedra Azul! Diamantina! Capelinha! Capão Bonito! Campinas! Canoinhas! Porto Belo! Passo Fundo!"
(Trecho da letra da Sinfonia da Alvorada)



Dados



Censo de 1957 — 12.283 habitantes
Censo de 1958 — 28.804
Censo de 1959 — 64.314
Censo de 1960 — 139.796

CENSO DE 1959

Número de habitantes: 64.314
Goianos: 23,3%
Mineiros: 20,3%
Baianos 13,5%
Cearenses: 7,4%
Pernambucanos: 6,3%
Paraibanos: 6,1%
Paulistas: 5,3%
Piauienses: 4,6%
Ocupações predominantes:
Serventes de pedreiro — 7.539
Carpinteiros e marceneiros — 3.694
Pedreiros — 2.462
Trabalhadores braçais — 2.064
Trabalhadores agrícolas — 1.890
Motoristas — 1.377
Armadores de concreto — 1.053
Auxiliares de escritório — 963
Comerciantes — 951
Cozinheiros — 935

CENSO DE 1960

Goianos — 17, 5% (24.677)
Mineiros — 17,4% (24.419)
Baianos — 9,7% (13.519)
Cearenses — 8,9% (12.518)
Paraibanos — 7% (9.106)
Pernambucanos — 5,5% (7.781)
Cariocas — 5,2% (7.293)
Paulistas — 5% (6.898)

OCUPAÇÕES PREDOMINANTES

Serventes de pedreiro — 14.704
Pedreiros — 5.912
Segurança pública e Forças Armadas — 2.194
Contínuos e vigias — 1.900
Eletricistas — 1.312
Armadores de concreto — 1.092
Encanadores — 1.080
Mestres de obra — 1.067
Apontadores e capatazes — 1.007
Trabalhadores braçais — 690


Constelação estrangeira



Já em 1958, Israel Pinheiro anunciou ao Itamaraty que cederia lotes de 25 mil² para as embaixadas (menos para a dos EUA, que ganhou 50 mil m²). Mas só em meados da década de 1970 é que houve um boom de construções



Conceição Freitas

Um castelo modernista espanhol, uma versão do Museu do Louvre, projetos de alguns dos mais importantes arquitetos do país de origem, exemplares da arquitetura moderna e contemporânea, mas também da arquitetura tradicional dos territórios representados. O conjunto arquitetônicos que se estende à margem da Avenida das Nações é uma bricolagem do gênio construtivo de 57 países. Há espantos e monotonias, singelezas e monumentalidades pousando em lotes de 25 mil metros quadrados nos setores de Embaixada Norte e Sul.

A preocupação de Juscelino em conquistar de imediato a adesão das representações diplomáticas estrangeiras para a nova capital se manifestou já em janeiro de 1958, quando a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) autorizou a cessão gratuita de lotes para a instalação das embaixadas. A reação foi rápida: quatro meses depois, 32 países já haviam reservados seus respectivos terrenos no SES, entre os quais o Vaticano, os Estados Unidos, o Irã e o Japão. Ainda no primeiro semestre de 1958, o presidente inaugura a portentosa Avenida das Nações, com 12,5 km de extensão, a primeira via a ser concluída.

Mas a rapidez deu em nada, porque havia uma condicionante: as embaixadas esperavam a vinda do Itamaraty para, só aí, contratar o caminhão de mudança. A diplomacia brasileira resistiu enquanto pode a se transferir do Rio para a capital que ninguém sabia exatamente no que ia dar. Só em meados de 1960, quando o Ministério das Relações Exteriores finalmente aceitou deixar a beira da praia, é que o corpo diplomático estrangeiro começou a levar a sério a mudança.

Apesar de o secretário de Estado norte-americano, Foster Dulles, ter recebido o terreno em agosto de 1958, numa cerimônia cheia de solenidade, só em 1965 o prédio da embaixada ficou pronto — é o único a ocupar área de dois lotes, ou seja, 50 mil metros quadrados. A primeira embaixada a ser inaugurada foi outra: a da então Iugoslávia, hoje Sérvia e Montenegro. Sua arquitetura é moderna como a da cidade onde se instalava, de um modernismo ortodoxo, como qualifica Paulo Roberto Alves dos Santos em Arquitetura estrangeira e outras arquiteturas, dissertação de mestrado apresentada à Universidade de Brasília em 2005.

Depois de um surto de construção de embaixadas na década de 1970 (só em 1974 ficaram prontas onze sedes), o ritmo foi decaindo progressivamente até 1996 quando, finalmente, começou a ser construída a sede da embaixada da China. A demora conjunta permitiu o surgimento de uma obra pós-moderna, a da Embaixada da Grã-Bretanha, composta por dois volumes principais. Um desses edifícios, em forma de pirâmide, "é uma releitura" do Museu do Louvre, como qualifica Paulo Roberto Alves dos Santos.

No desfile de estrelas da arquitetura moderna e contemporânea destaca-se, entre outros, o japonês Fumihiko Maki, prêmio Pritzker de 1993 e autor, junto com o britânico Richard Rogers, do projeto de dois dos edifícios do Marco Zero, de Nova York. Ou o alemão Hans Scharoun, conselheiro e supervisor das obras de reconstrução de Berlim pós-Segunda Guerra. A Embaixada da Alemanha é o único projeto de Scharoun no exterior.

Apesar de muito festejada e esperada, a mão do franco-suíço Le Corbusier não chegou a Brasília. O papa da arquitetura moderna chegou a projetar o conjunto da Embaixada da França, mas a demora na execução da obra, somada ao fato de que o desenho do arquiteto não correspondeu às necessidades da chancelaria, fez o projeto virar uma maquete na parede. Os prédios são do chilelo Guillermo Jullian de la Fuente, ex-colaborador de Corbusier.

Uma das obras mais espetaculares dos setores de embaixadas é de um arquiteto que dedicou boa parte da vida a estudar e defender o que chamou de arquitetura social, destinada a oferecer às populações pobres moradias econômicas porém tecnicamente bem feitas e esteticamente harmoniosas. Por essa dedicação, Rafael Leoz foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 1968.

A arquitetura das embaixadas estrangeiras em Brasília merece um tour especial, dadas a diversidade de escolas, a representatividade cultural de cada país e a assinatura de algumas das grandes estrelas internacionais da arte de projetar edifícios.

DATAS



PRIMEIRA FASE

18 de janeiro de 1958
O presidente da Novacap informa o ministro das Relações Exteriores que, em recente decisão, o Conselho de Administração da companhia autorizou a reserva, em perímetro urbano de Brasília, de áreas destinadas à construção e instalação das sedes das missões diplomáticas estrangeiras. As mencionadas áreas serão cedidas gratuitamente

20 de maio de 1958
São as seguintes as embaixadas que reservaram terrenos, em Brasília, até esta data, para as suas sedes: Santa Sé, Portugal, Estados Unidos, Holanda, União Sul Africana, Austrália, Inglaterra, Panamá, Colômbia, Chile, Argentina, Venezuela, Uruguai, Iugoslávia, Canadá, Líbano, Estado de Israel, Índia, Alemanha, Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia, Itália, Irã, Japão, Áustria, Suíça, Espanha, Peru e Paraguai

30 de junho de 1958
O presidente JK inaugura a Avenida das Nações, com12,5 km de comprimento. O Diário de Brasília anotou: "A Avenida das Nações achava-se enganalada ao longo de toda a sua extensão e nela se viam desfraldadas as bandeiras dos diversos países com os quais mantemos relações diplomáticas. Nessa majestosa artéria é que ficarão as sedes das suas embaixadas e no local destinado a cada uma dela estava hasteada a bandeira do respectivo país"

6 de agosto de 1958
Na visita a Brasília, o secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles, inaugura o marco comemorativo de sua visita ao local da futura embaixada dos EUA

16 de abril de 1959
No Rio de Janeiro, na sede da Nunciatura Apostólica, reúnem-se todos os embaixadores acreditados junto ao governo brasileiro, para que Ernesto Silva, diretor da Novacap, esclareça quaisquer dúvidas sobre a construção de missões diplomáticas em Brasília

SEGUNDA FASE

1965 -- Concluídas obras da Embaixada da então Iugoslávia
1972 -- Concluídas as obras da Embaixada do Irã
1973 -- Inauguradas as embaixada da Polônia e da Tailândia
1974 -- Inaugurada a Embaixada da Rússia
1974 -- Concluídas as embaixada da França, do Líbano, da Dinamarca, da Noruega, da Suécia, da Bélgica, da Áustria, do Japão, do Peru, do Iraque e da Bulgária
1975 -- Inaugurada a Embaixada da Finlândia e concluída a de Israel
1976 -- Inaugurada as Embaixada do México e da Espanha e concluídas as obras da Embaixada do México
1977 -- Inaugurada a Embaixada do Senegal
1978 -- Pronta a Embaixada do Canadá
23 de maio de 1978 -- Inaugurada a Embaixada de Portugal
1979 -- Pronta as embaixadas da África do Sul e da Venezuela
1980 -- Terminam as obras da Embaixada do Uruguai
1981 -- Inaugurada a Embaixada da Colômbia
1983 -- Concluída a Embaixada da Grã-Bretanha
1994 -- Iniciadas as obras da Embaixada da Grécia
1996 -- Iniciadas as obras da Embaixada da China

CONSTELAÇÃO

STUDIO NERVI (Embaixada da Itália) -- Pier Luigi Nervi (1891/1979) e autor da sede da Unesco em Paris, projeto de 1950 e, em colaboração, o primeiro arranha-céu da Itália, o edifício da Pirelli, com um vão livre de 25 metros. Passou a ser reconhecido internacionalmente com os projetos de dois estádios olímpicos de Roma, o Australia Square (em Sidney) e a rodoviária George Washington, de Manhattan.

HANS SCHAROUN (Embaixada da Alemanha) -- (1893/1972) Um dos mais importantes arquitetos alemães, foi designado conselheiro de urbanismo e supervisor da construção civil no período de reconstrução de Berlim, após a 2ª Guerra Mundial. A Embaixada da Alemanha em Brasília foi seu único projeto no exterior.

RAFAEL LEOZ (Embaixada da Espanha) -- (1921/1976) -- Arquiteto e escultor, indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1968, Leoz havia se dedicado a projetos de erradicação das favelas em Madri, na segunda metade dos anos 1950. Em seguida, passou a se dedicar à pesquisa de habitações populares dignas, econômicas, tecnicamente bem feitas e plasticamente bonitas. É o que ele chamava arquitetura social.

FUMIHIKO MAKI (Embaixada do Japão)-- (1928) -- Prêmio Pritzker 1993 (a mais importante honraria da arquitetura), é um dos arquitetos responsáveis, junto com o britânico Richard Rogers, pelo projeto de dois dos novos edifícios que estão sendo erguidos no Marco Zero, em Nova York. Uma de suas mais conhecidas obras é o Spiral House, em Tóquio.

HENRIQUE MINDLIN (Embaixada dos Países Baixos) -- (1911/1971) Filho de russos, irmão do bibliófilo José Mindlin, nasceu em São Paulo, onde se formouem engenheiria-arquitetura em 1932. Foi um dos precursores da luta pela regulamentação da profissão de arquiteto. É autor do importante Arquitetura Moderna no Brasil, obra de 1956. Participou , com GiancarloPalanti, do concurso do Plano-Piloto de Brasília; ficou em 5º lugar.

TEODORO GONZÁLEZ DE LEON E ABRAHAM ZABLUDOWISKY (Embaixada do México) -- A maior parte da obra de González de Leon (1926) se concentra na Cidade do México, trabalhou no escritório de Le Corbusier no final dos anos 1940. É considerado um brutalista pelo uso de concreto cincelado (CONFERIR) em enormes bloquetes, ao mesmo tempo que lembra a arquitetura pré-hispânica. Zabludowisky (1924/2003) é mexicano de ascendência judaico-polaca. Autor de mais de 200 obras no México, nas quais desenvolve a retomada da tradição mexicana de pátios, pórticos e tauldes que relacionam o interior do edifício com o espaço urbano.

GEORGE CANDILIS (Embaixada da Grécia) -- (1913/1995) -- Considerado um dos grandes nomes da arquitetura em seu país, nasceu no Azerbaijão e formou-se em Atenas. Foi um dos principais colaboradores de Le Corbusier, a quem conheceu durante o 4º CIAM, o congresso internacional de arquitetura moderna, em 1933.


Os 112 últimos dias



em janeiro de 1960, começava a contagem regressiva para a mudança da capital. Era preciso terminar as obras, oferecer condições de moradia e trabalho para os servidores públicos, contornar a oposição e esperar a decisão do STF, que pensava em ficar no Rio



Conceição Freitas

Os três últimos meses antes da inauguração, somados aos 20 dias de abril, foram dramáticos, no sentido pleno do termo. Era preciso ao mesmo tempo organizar a mudança no Rio, preparar as moradias e as repartições em Brasília, contornar as investidas da oposição que pretendiam instalar uma CPI naquele começo de ano e esperar a decisão do Supremo Tribunal Federal. A corte resistia à mudança, tanto que marcou uma sessão extraordinária do tribunal pleno para votar o que fazer — ir ou ficar? Era necessário não apenas concluir os ministérios, o Congresso e os dos palácios da Praça dos Três Poderes. Os blocos prontos das superquadras eram insuficientes para receber a primeira leva de funcionários. Até vacas leiteiras foram trazidas para alimentar os novos candangos. Nesse meio-tempo, Juscelino ainda teve de fazer sala para o presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower. E fazer festa para a Coluna da Integração Nacional que partiu de Belém do Pará, Porto Alegre, do Rio e de Cuiabá rumo a Brasília — do norte, do sul, do leste e do oeste em direção ao centro do país. Nos meses de março e abril, o Brasil começou a trocar os pneus com o carro andando. Os coordenadores da transferência da capital estimaram que a mudança da máquina do Estado e dos servidores duraria todo o ano de 1960.

1960



JANEIRO

6
A corte resiste — O Supremo Tribunal Federal (STF) designa três ministros e um engenheiro arquiteto para estudar in loco a transferência da corte para Brasília em 21 de abril.

15
Represando as águas — O Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro entrega à Novacap as primeiras partes das comportas para a represa que formará o lago artificial.

18
Ligando os pontos — O Ministério da Viação anuncia que estão concluídos 99,3% das obras de terraplenagem da rodovia Belo Horizonte-Brasília.

19
"Algo de milagre" — O ministro Nelson Hungria, do STF, declara depois de visita a Brasília: "Minha impressão de Brasília, onde estive há seis meses, é realmente de surpresa. O que se conseguiu realizar, de então para cá, é qualquer coisa de admirável, de espantoso. Diria, mesmo, que o que se fez tem algo de milagre. Quando estive aqui anteriormente, tudo ainda era esqueleto — e hoje venho encontrar substância".

21
Dos quatro cantos — A Coluna Sul da Caravana da Integração Nacional parte de Porto Alegre. Serão 2,3 mil km até Brasília, dos quais 1,4 mil já estão asfaltados.

23
Cruzando a floresta — A Coluna Norte da Caravana da Integração Nacional sai de Belém em direção a Brasília. Exceto nos pequenos trechos entre Belém e Guamá e Anápolis e Brasília, toda a Belém-Brasília ainda é uma estrada de terra. É composta por 50 carros, entre jipes, Rural Willys, caçambas Mercedes Benz, DKW-Vemag e carros da Volks e da General Motors. Trinta e cinco jornalistas acompanham a caravana.

25
Do Oeste — A Coluna Oeste sai de Cuiabá, e deverá passar por Rondonópolis, Alto Araguaia, Mineiros, Jataí, Rio Verde, Goiânia e Anápolis, num percurso de 1,3 mil km até Brasília.

26
"Várias restrições" — O STF divulgou nota a propósito da transferência para Brasília, onde informa que os ministros, reunidos na sala da Presidência, receberam as “boas informações” do ministro Antonio Villas Boas e o relatório do engenheiro-arquiteto Ademar Marinho. Se, de um lado, o ministro Villas Boas é favorável à transferência do Supremo em 21 de abril, do outro, o parecer do engenheiro-arquiteto “contém várias restrições ao anunciado término das obras e às condições de habitabilidade indispensáveis a essa transferência.” O ministro e o engenheiro ficam de voltar em março a Brasília para uma última inspeção.

28
Do Catete — A Coluna Leste sai da praça em frente ao Palácio do Catete, no Rio.

FEVEREIRO


Dos quatro pontos — As quatro colunas da Caravana da Integração Nacional, a Norte, a Sul, a Leste e a Oeste, chegam a Brasília.

2
Chuva de papel — Candangos se reúnem na Praça dos Três Poderes para o desfile as quatro colunas da Caravana da Integração Nacional. Todos os carros param na praça. No local onde seria construída a Catedral, é celebrada uma missa. Aviões da FAB lançam papel picado sobre a cidade. Mesmo com chuva, o povo acompanha o desfile dos carros da caravana pelas vias da cidade, do qual Juscelino participa a bordo de uma Romi-Isetta.

9
No olho da mídia — Caravana de 80 jornalistas internacionais visita Brasília. Entre eles, William Randolph Hearst Jr., herdeiro do magnata da imprensa norte-americana.

10
Bancando a fé — Empreiteiras que participam da construção de Brasília anunciam que vão colaborar financeiramente para a obra da Catedral, que, por não pertencer ao Estado, depende de recursos privados para sua execução. O anel da base do edifício já está concluído e as colunas começam a surgir. Já foram doados 14,6 milhões de cruzeiros, vindos de cerca de 50 empresários da construção civil e banqueiros.

13
Sombra e água fresca — O Ministério da Agricultura informa que 18 mil mudas de árvores já foram plantadas na parte fronteira e no pátio interno do Palácio da Alvorada, nas áreas junto ao hotel e próximas às escolas primárias, nas proximidades dos três trevos rodoviários e das passagens de nível. Algumas centenas de hectares de gramas foram plantadas nas proximidades dos ministérios, da Praça dos Três Poderes e das superquadras já concluídas. Foram utilizadas as espécies batatais e seda.

Na sala de aula — O primeiro ano letivo da nova capital, nas duas escolas públicas já concluídas (o Centro de Educação Média e o Centro de Educação Complementar de Brasília), começará em 16 de maio e irá até 23 de dezembro. As férias foram marcadas para o período entre 28 de agosto e 11 de setembro.

Cota mil — O Lago Paranoá já atingiu a cota de 990,04 metros de água acima do nível do mar, faltando apenas dez metros para ser atingida a cota máxima, de mil metros.

Escola diferente — Concluída a Escola-Parque. A obra tem um pavilhão de artes industriais, conjunto de atividades sociais (música, dança, teatro, exposição e clube), instalações para prática de educação física, refeitório e administração. A Escola-Parque atenderá a 2 mil alunos, divididos em dois turnos.

Corra, candango, corra — Mais de 300 operários começam a construção de 210 casas, na W3 Sul, destinadas a funcionários públicos federais. O prazo de entrega da obra é de cinco meses. 15
Loja náutica — Cinco lanchas chegam a Brasília e serão postas à venda em loja da Cidade Livre. Também chegam esquis, âncoras, bóias, salva-vidas, motores para tração de esquis.

Nadando de braçada — Começam as obras do Clube de Vizinhança, com piscina olímpica, piscinas para crianças, quadras de basquete e vôlei e playground.

16
Sem freio – Acelera-se o ritmo das obras na malha viária de Brasília. Três máquinas trabalham, 24 horas por dia, na terraplenagem dos leitos das vias, em cada saída das tesourinhas já prontas.

Barraco de madeira — Com os restos das madeiras usadas nas obras públicas, são construídas em Taguatinga 100 casas para os moradores retirados da Vila Amauri, que já foi engolida pelas águas do Paranoá.

Base aliada — O Bloco Parlamentar Mudancista, composto por 230 deputados de todos os partidos, se reúne e reafirma que Brasília “possui todas as condições de habitabilidade previstas para seu funcionamento em 21 de abril”. E reitera “a disposição de não concordar com a instalação de comissões de inquérito sobre a construção de Brasília até que se efetive a mudança da capital.” 17
Não tem volta — Todos os ministros, os chefes dos gabinetes Civil e Militar da Presidênciada República, o presidente do Banco do Brasil, o diretor-geral do Dasp (Departamento Administrativo do Serviço Público) e o secretário do Grupo de Trabalho para a Mudança da Capital reúnem-se para tomar as providências finais para a transferência da máquina do Estado. Os ministros declaram que não aceitam qualquer cogitação de adiamento. Informam que já está pronta a relação dos funcionários que virão para a nova capital.

18
"Um grande progresso" — O ministro da Educação, Clóvis Salgado, informa, pela Voz do Brasil, que novos “e excelentes prédios” já estão prontos para receber os alunos a partir de 21 de abril. São jardins de infância, escolas classe e escola complementar. “A escola classe é o nosso conhecido grupo escolar, com novo nome e salas de maior conforto. A escola complementar é quase uma novidade: permitirá que as crianças tenham mais quatro horas diárias de caráter educativo: trabalho manual, práticas desportivas, atividades artísticas e sociais. Um grande progresso, na verdade.”

Candidato a professor — Mais de 1,5 mil candidatos se inscrevem no concurso público destinado a escolher os professores da rede pública de Brasília, o que dá a média de 15 concorrentes por vaga.

19
Vaca leiteira — O Ministério da Agricultura envia a Brasília 55 vacas leiteiras destinadas à venda em suaves prestações. Além disso, 50 vacas holandesas devem chegar à cidade para abastecimento local.

Surge a plataforma — Iniciada em fins de dezembro de 1958, está em fase final de construção da Plataforma Rodoviária de Brasília.

20
Luz elétrica — A rede de energia elétrica de Brasília, que é subterrânea, terá, em sua primeira fase, a extensão de 400 km. Desse total, já estão concluídos 290 km, sendo que, até 10 de março, o abastecimento de energia deverá chegar às superquadras.

22
A torre de Lucio — Aceleram-se os trabalhos de construção da Torre de Tevê. Ela terá 150m de altura e estará assentada numa base de cimento de 70m.

23
Visita ilustre — Chega a Brasília o presidente Dwight Eisenhower.

MARÇO

4
Mentira — O governo desmente os boatos divulgados na imprensa carioca de que estaria interessado em adiar a data da mudança da capital. “Essas notícias – declara Juscelino – representam os últimos estertores de uma campanha que visa impedir a mudança da capital. Anuladas as manobras, superados todos os pretextos, os adversários de Brasília lançam agora mão desse recurso descabido, que põe em dúvida o inflexível propósito do governo de promover, em obediência à lei, a efetivação da mudança.”

9
Cidade do século — A Novacap informa que “os canteiros estão sendo cobertos de plantas e flores e o trabalho de asfaltamento de grandes áreas nesta cidade prossegue em ritmo acelerado, visando dar aos brasileiros e estrangeiros que aqui vierem a 21 de abril uma visão panorâmica da‘cidade do século’".

15
Pertinho, pertinho — Na mensagem anual ao Congresso, Juscelino declara: “Pouco mais de um mês nos separa do momento histórico em que a sede do governo se há de transferir para Brasília – no coração do país – deixando esta bela cidade de dois séculos. A 21 de abril próximo, a nova capital estará apta a receber os três poderes da República e a proporcionar-lhes os requisitos básicos para as suas atividades normais, não só no que se refere à instalação dos serviços públicos, como também no que concerne ao alojamento condigno dos servidores.”

18
Escolas particulares — Estão funcionando em Brasília as seguintes escolas e cursos primários (ensino fundamental) particulares: Escola das Irmãs Dominicanas (150 alunos); Instituto Educacional de Brasília (275 alunos); Escola Metodista (135 alunos); Escola Evangélica de Brasília (64 alunos); Escola da Igreja Evangélica Simonton (70 alunos); Curso Primário do Ginásio Brasília (412 alunos); Curso Primário do Ginásio Dom Bosco (560 alunos), Escola Paroquial Nossa Senhora de Fátima (330 alunos).

19
Só urgências — Por ordem de Juscelino, a Casa Civil determina que, a partir desta data e até a mudança da capital, só lhes sejam enviados expedientes urgentes e de solução inadiável.

23
O mínimo essencial — O diretor do Dasp informa, no Rio de Janeiro, que a mudança da capital obedecerá a um calendário já aprovado que prevê a transferência “do mínimo considerado essencial ao funcionamento dos três poderes na nova capital.” Postos de controle de trânsito serão instalados na rodovia BH-Brasília para fiscalizar o movimento dos caminhões que transportarão os equipamentos das repartições e as bagagens dos servidores.

25
Chegou a hora — Começa a mudança da sede do governo para Brasília. Três carretas e dois caminhões transportam cerca de mil volumes do Gabinete Civil da Presidência.

27
Vou a pé — Cem fuzileiros navais e 20 marinheiros partem do Rio, a pé, rumo a Brasília, na marcha Operação Alvorada. Pretendem chegar à nova capital em 20 de abril.

29
A próxima, só lá — A diretoria da Confederação Nacional do Comércio reúne-se pela última vez no Rio de Janeiro e anuncia nova reunião para 25 de abril, já em Brasília.

Dinheirinho extra — Juscelino sanciona lei que abre ao Poder Legislativo crédito especial de 800 milhões de cruzeiros para as despesas com a transferência da Câmara e do Senado.

Ouro puro — Juscelino assina decreto considerando de valor histórico as medalhas comemorativas da inauguração de Brasília. A maior delas terá 15 gramas de ouro de 22/24 quilates e a menor, 7,5 gramas de ouro de mesmo teor.

31
O Iapi (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários) entrega ao governo os primeiros 180 apartamentos de cinco blocos da 105 Sul destinados a parlamentares e altas autoridades.

ABRIL

1
S.O.S, Brasília — O Hospital Distrital terá 90 leitos na enfermaria; seis cururgiões, um urologista, dois traumatologistas (ortopedistas); um oftalmologista; um otorrino; dois clínicos; três cardiologistas; três pediatras; um nutricionista; quatro obstetras; um médico para o laboratório clínico; dois para o banco de sangue; um para a anatomia patológica; um para a radiologia; quatro anestesistas; um neurocirurgião e quatro dentistas. Ao todo, 33 médicos.

3
Rango para os candangos — Juscelino oferece um almoço, no Catetinho, aos operários pioneiros na construção de Brasília.

4
Lá vêm eles — Partem do Rio, em ônibus fabricados no Brasil, os primeiros 60 servidores públicos rumo a Brasília.

5
Às claras — Começa, à noite, a instalação das lâmpadas no Eixão, numa extensão de 4 km. Em seguida, a Novacap iniciará o posteamento e a instalação de luz elétrica nas Avenidas Monumental, W3 e outras não especificadas. Grupos de operários se revezam dia e noite para concluir o maior número possível de obras até 21 de abril. Já é grande o movimento nos aeroportos, nas vias da cidade e no comércio.

6
Olha eles aí — Chegam a Brasília os primeiros 60 servidores públicos federais.

9
Eixo em obras — O Eixão ainda está sendo construído. A Novacap teme que as chuvas impeçam a secagem do concreto dos trevos e das passagens de nível. Centenas de operários plantam gramas ao longo do Eixão.

10
Perto do topo — Os operários que constroem o edifício-sede do Banco do Brasil erguem, ainda, os últimos andares do prédio. O BB se prepara para inaugurar a primeira agência no Plano Piloto, em 21 de abril, em outra área.

11
Toda segunda — A mudança dos servidores públicos para Brasília vai durar todo o ano de 1960. Eles sairão do Rio sempre às segundas-feiras, numa média semanal de 60 a 90 funcionários.

Hotel grátis — A Novacap anuncia que 40 casas da W3 Sul serão utilizadas, excepcionalmente, como hospedagem gratuita para os que vieram participar da inauguração de Brasília.

Comida de fora — Dezenas de caminhões chegam de Goiás e de outros Estados trazendo produtos para alimentar os visitantes.

Caneta preciosa — A Confederação Nacional da Indústria e a Associação Comercial de Goiás presenteiam Juscelino com a caneta com que ele vai assinar o primeiro ato oficial na nova capital. A peça tem uma esmeralda incrustrada para simbolizar ao mesmo tempo a epopeia dos bandeirantes e a condição de médico de JK (a pedra é o símbolo da medicina)

O STF, ainda — Três ministros do STF visitam Brasília para saber se a cidade tem condições de recebê-los em 21 de abril.

12
Vitória apertada — Reunido em sessão extraordinária, o STF decide, por seis votos a quatro, se mudar para Brasília na data fixada. O presidente da corte, Barros Barreto, votou contra a mudança.

17
Alô, alô — Do Rio, Juscelino liga para Israel Pinheiro, inaugurando assim o serviço telefônico entre as duas cidades.

A cruz de Cabral — Chega ao Rio a cruz com que foi celebrada a Primeira Missa do Brasil. A peça segue para Brasília e deverá ser devolvida a Lisboa depois da inauguração da nova capital.

18
O primeiro — Juscelino nomeia Israel Pinheiro para o cargo de primeiro prefeito do Distrito Federal.

20
Adeus, Rio — Juscelino, dona Sarah, Márcia e Maria Estela se despedem dos funcionários do Palácio do Catete que não foram transferidos para a nova capital. Em seguida, os quatro seguem para Brasília. No mesmo dia, na Praça dos Três Poderes, Juscelino recebe a chave da cidade e dá inicio às solenidades da inauguração.

21 de abril de 1960
Brasília é a nova capital do Brasil.