Homenagem estendida

Fundação Assis Chateaubriand prorroga para o dia 8 de agosto a visitação da mostra que comemora os 90 anos de Athos Bulcão

Sérgio Maggio
Da equipe do Correio

Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 1/7/08
A curadora valéria cabral exibe várias produções de ateliê de athos bulcão: mostra é mosaico do artista
 
Ontem seria o último dia da mostra Vida, arte e movimento, que homenageia os 90 anos de Athos Bulcão, no Espaço Chatô. No final de semana, as obras que representam diversas fases da vida de um dos maiores criadores de Brasília seriam embaladas e encaminhadas para a Fundação Athos Bulcão. Diante da notícia da morte, a Fundação Assis Chateaubriand decidiu ampliar em mais uma semana a exposição, que já foi apreciada por 1.300 pessoas. .Athos Bulcão é a maior figura iconográfica de Brasília. Veio para cá e aqui ficou. Ele guarda o pioneirismo no mesmo nível que Niemeyer, Lucio Costa e Burle Marx. Seu trabalho emoldura a cidade com criatividade. Está em todos os lugares: teatros, parques, igrejas, palácios e, principalmente, expostos ao ar livre. Isso sem falar em sua figura humana, marcada pela doçura e simplicidade., destaca o diretor-executivo da Fundação Assis Chateaubriand, Márcio Cotrim.

Parte da produção criativa de Athos Bulcão integra a mostra Vida, arte e movimento, que dá ao visitante a dimensão da extensa obra do artista plástico e professor. Na exposição, há um recorte da produção de ateliê, pouco conhecida do grande público. São exemplares das máscaras, pinturas em acrílico sobre tela e uma rara aquarela datada de 1950. Da fase em que a arte dialoga harmoniosamente com a arquitetura, há originais desenhados por Athos na prancheta. Um dos destaques é o belíssimo painel que está no Salão Verde do Congresso Nacional.

O visitante pode também entender o processo de criação de Athos Bulcão, comparando os originais com serigrafias, a exemplo do famoso painel do Brasília Palace Hotel. A curadora e secretária-executiva da Fundação Athos Bulcão, Valéria Cabral, fez questão de proporcionar ao espectador a noção de um .pouco de tudo do que esse múltiplo criador fez na arte.. São fragmentos de um imenso mosaico. O estande com produtos que levam as estampas de criações de Athos Bulcão oferece canecas, sandálias, sombrinhas e telas. Ao longo do tempo de exposição, a Fundação Assis Chateaubriand promoveu oficinas lúdicas com crianças de 8 a 14 anos e palestras sobre a arte e a trajetória de Athos Bulcão. Vida, arte e movimento ficará aberta à visitação até a próxima sexta-feira.

ATHOS 90 . VIDA, ARTE E MOVIMENTO
Espaço Chatô (SIG, Q. 2, Lt. 340, sede do Correio Braziliense; 3214-1350). De segunda a sexta, das 9h às 18h, até o dia 8.

Artigo
Sorte de Brasília

Agnaldo Farias
Especial para o Correio

Se Brasília é o principal feito da arquitetura e urbanismo modernos, a obra de Athos Bulcão, entre a de todos os nossos artistas modernos, foi aquela que mais explorou a relação entre esses dois pólos da produção do espaço. Situada entre os artistas de linhagem construtiva ou concretistas, aqueles cujo grande propósito era a fusão da arte com os processos industriais para que com isso ela escapasse da clausura dos museus e galerias, dissolvendo-se nos objetos e nos espaços íntimos e públicos, a obra de Athos Bulcão, curiosamente, não tem o mesmo reconhecimento de colegas menos bem-sucedidos. Isso, em parte, deve-se à notória discrição e elegância de Athos, para quem realizar sua obra era um ato tão natural quanto respirar. Mas o principal responsável será mesmo a precariedade de um país que ainda não consegue construir e estabilizar uma história de sua arte.

Feitas as contas, o país ainda não fez por merecer o artista que mais longe e eficazmente levou a preocupação em tornar mais agradáveis os espaços de convivência. E fez isso através de sua extraordinária capacidade de embutir qualidade em seus elementos constitutivos mais prosaicos: divisórias, paredes, muros e empenas. Componentes da arquitetura que ele tratava com a dignidade de obras de arte de grandes proporções, sempre com a preocupação de que não se limitassem a ser planos tão funcionais quanto opacos, meros obstáculos à expansão dos olhares.

Lembro-me quando Athos confessou que nunca havia compreendido a brancura das paredes dos hospitais. E aí pode-se compreender por que seu amigo João Filgueiras Lima, Lelé, adotando seu argumento sobre o caráter terapêutico das cores, convidou nosso artista a pensar as tonalidades cromáticas dos ambientes dos hospitais da rede Sarah Kubitschek. Esse momento, começo dos anos 1980, significou uma segunda etapa da trajetória de Athos Bulcão que, principiando pela coloração dos espaços fechados, passou a projetar biombos, entradas de prédios, paredes pivotantes mediante as quais as salas se abriam ao encontro da natureza. E não deixa de ser sintomático o fato de que Athos Bulcão, ao par dos magníficos murais e relevos que continuou realizando, tenha se empenhado no aperfeiçoamento de ambientes dedicados à cura.

Brasília tem mesmo muita sorte. Athos Bulcão saiu de cena deixando nela a maior parte do corpo de sua obra. Um corpo fracionado, tão colado à arquitetura, tão próximo de seus habitantes que é mesmo provável que muitos não percebam sua excepcionalidade. Pensando bem, nem parece obra de um artista. Não vem acompanhado dos aparatos típicos das obras de arte. Pois Athos Bulcão obteve em vida o que poucos artistas ousam sonhar obter: que sua obra já não mais lhe pertencesse, que fosse tão comum e natural quanto os verdes, a planura e a extensão do céu da cidade que adotou para si. Com sua morte, sua obra caminha de vez para o anonimato das coisas potentes que alimentam os sentidos e o imaginário das pessoas que circulam por ela. Inversamente, cabe a todos aqueles que sabem da extrema dificuldade, do caráter único de uma construção dessa magnitude, a tarefa de levantá-la bem alto, estudando-a e divulgando-a.


Agnaldo Farias é professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP


.Ele foi um dos artistas que criaram a identidade visual de Brasília. Como fez praticamente todas essas obras de complementação arquitetônica do Niemeyer, a gente tem um imaginário ligado à sua obra. Posso citar a Igrejinha com a pomba virada ao contrário, o Congresso Nacional, os azulejos do aeroporto, até o Parque da Cidade. É uma pessoa fundamental para a cidade. No fim das contas, o que vai ficar é esse imaginário criado por ele. No futuro, diante da pomba da Igrejinha, é Brasília que a gente estará vendo, ou seja, é Athos Bulcão. Ele merece todas as homenagens e a
inclusão de sua história e obra no currículo escolar..
Sérgio Moriconi, jornalista, crítico e diretor do curta-metragem Athos

.Ele era conselheiro construtivo da sociedade. Foi uma perda grande para a cidade porque era nosso artista maior, o nome mais expressivo da nossa cultura. Com certeza sua obra estará sempre presente na memória, cultura e história dessa cidade..
Toninho de Souza, artista plástico e presidente da Sociedade dos Artistas Plásticos de Brasília

.Nenhum artista no mundo tem uma obra com onipresença tão grande quanto a dele. Ele deixou uma herança enorme para a cidade e para o mundo. E também tinha um caráter incrível, era uma pessoa de transparência e leveza únicas. Era um artista completo, um ser humano completo..
Bené Fontelles, artista plástico, compositor e escritor

.Em termos da formação da visualidade de Brasília, é um dos artistas mais importantes. De todos que vieram com o Niemeyer, é o que obteve atuação mais marcante. Quase todos os prédios do Niemeyer têm um trabalho do Athos. E até acho que o trabalho dele é pouco conhecido pela importância que tem. O trabalho dele é tão integrado na arquitetura que as pessoas acabam nem percebendo sua importância, o valor de sua obra. Tenta imaginar o Teatro Nacional sem o trabalho dele. Aqueles símbolos do teatro são tão importantes quanto a própria forma do prédio. Ele deveria ter divulgação no Brasil e internacionalmente, nas escolas, porque tem importância grande para Brasília. Eu, particularmente, tinha proximidade, cumplicidade com ele. Ele me dava muitas dicas. Foi uma pessoa generosa com todos os artistas..
Darlan Rosa, artista plástico

.O Athos foi nosso mestre maior, uma pessoa de grande importância para a nossa geração e que tinha uma vivência rica e real. Ele respirava arte. Foi um artista fantástico, um alquimista que sabia mexer com as cores como ninguém..
Sônia Paiva, artista plástica