Alma azulejada

Athos Bulcão deu a Brasília identidade e transformou-se num defensor ferrenho da capital-sonho: .Sou um artista do Planalto.

Sérgio Maggio
Da equipe do Correio

Artista por vocação, Athos Bulcão acreditava que tinha uma missão ao pisar, em 15 de agosto de 1958, no barro vermelho e revirado por homens e escavadeiras da futura capital do Brasil. Ao deparar com a cidade-sonho a construir, entendeu a dimensão do desafio de integrar artes plásticas e arquitetura.

. Troquei o Rio de Janeiro, minha cidade natal, bela e alegre, pelo cerrado, à espera de construções. À espera de alma e de beleza.

Hoje, 48 anos depois de ser inaugurada, Brasília tem a alma azulejada pelas cores e diagramas geométricos desse artista compulsivo, que lutou brandamente com a doença que teimava em lhe tirar os movimentos. Até quando pôde comandar as mãos, produziu sem parar desenhos com canetinhas coloridas.

. O tratamento me exaure. Às vezes, durante as crises, esqueço dias inteiros.

Ontem, quando a notícia da morte de Athos Bulcão correu, fez-se silêncio mais profundo que o habitual em Brasília. A cidade perdeu um dos homens que ajudaram a lhe dar identidade.

. Artista eu era. Pioneiro eu fiz-me. Devo a Brasília esse sofrido privilégio. Realmente um privilégio: ser pioneiro. Dureza que gera espírito. Um prêmio moral, revelou no discurso que proferiu na Universidade de Brasília (UnB), quando completou 80 anos e recebeu o título de professor emérito.

O orgulho de participar da construção de Brasília o tornou um defensor ferrenho do lugar. Ele não compreendia muito bem a má vontade dos brasileiros com a nova capital federal, o estigma da cidade-poder que abriga políticos, muitos desonrados. Chateava-se até com amigos que proferiam comentários ferinos ao ideário de ocupar o interior do país.

. Quando olho as cores dos meus quadros, vejo o céu e a terra de Brasília e aí percebo que sou, na verdade, um artista do planalto.

Athos Bulcão era mesmo fascinado por Brasília. Amava a sua luminosidade. Não à toa, o apartamento da 315 Sul era completamente branco (paredes, teto e piso). A serenidade era mantida na decoração feita minuciosamente por ele. De quando em quando, gostava de romper essa harmonia com a voz rouca do roqueiro Bruce Springsteen (um estranho no ninho na coleção predominantemente de música erudita).

. Adoro a música daquele filme sobre a Aids (Filadélfia).

Discreto e solidário, Athos Bulcão comparava-se ao músico Nino Rota (criador das trilhas sonoras dos filmes de Federico Fellini) para explicar sua relação com Oscar Niemeyer. Sua criação atuava em função do projeto arquitetônico e monumental. Jamais queria engoli-lo.

. Gosto de fazer aparecer o que o arquiteto faz. Esse é o meu trabalho. É uma só nota. Gosto de comparar à música porque tudo é música silenciosa.

Com essa gentileza ele seguiu 50 anos de vida intensa na cidade. Sempre se desafiando. Às vezes, no silêncio do apartamento todo branco.

. A vida, para mim, foi e continua a ser uma constante indagação.