A despedida do artista

Após 10 anos de luta contra o mal de Parkinson, Athos Bulcão morreu de parada respiratória na manhã de ontem

Gizella Rodrigues e Carlos Tavares
Da equipe do Correio

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Policiais militares levaram o caixão com o corpo do artista plástico ao salão nobre do palácio do buruti, ontem, às 16h, para ser velado

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Arruda chegou ao velório de Athos no final da tarde

Arquivo CB/D.A Press

José Varella/CB/D.A Press - 29/1/01

Iano Andrade/CB/D.A Press - 6/12/06
Três momentos de Athos: na frente do Teatro Nacional, desenhando um esboço
 
Morre o artista, fica a obra. Embora tenha sido de certa maneira anunciada, a morte de Athos Bulcão surpreendeu e causou impacto entre artistas, amigos e boa parte da população brasiliense que conhece e admira sua obra. O artista plástico de 90 anos . que criou os painéis e esculturas responsáveis por colorir as estruturas de concreto da capital da República, seus prédios de mármore e suas extensas lâminas de vidro e metal que deu calor e colorido alegre aos corredores mal iluminados de ministérios e tribunais, da Câmara dos Deputados e do Senado . morreu ontem, às 9h20, no Hospital Sarah Kubitschek, onde se tratava do mal de Parkinson havia 10 anos, vítima de uma parada respiratória. Ele estava internado havia quatro meses no hospital onde também ajudou a suavizar o clima com suas obras de arte.

De tudo que criou, o artista, que não gostava de assinar suas obras, tinha preferência por dois trabalhos: o relevo dos blocos de concreto do Teatro Nacional e o painel da Torre de TV. Mas sua verdadeira paixão era desenhar, além do cinema e da ópera. Desde que descobriu a doença, o maior orgulho dele era ver que ainda conseguia traçar linhas retas e contornos precisos. Com as complicações do mal de Parkinson, aceleradas nos últimos quatro anos, Athos parou de pintar com tinta acrílica porque se intoxicava com o cheiro forte. Até o ano passado ainda desenhava com lápis de cor e aquarelas, mesmo durante os períodos de internação no Sarah. Athos fez reabilitação durante os últimos 10 anos. O tratamento consistia basicamente em sessões de fisioterapia. Em abril, o mal avançou e ele estava internado desde então. O bancário Jaime Bulcão, 49 anos, sobrinho do artista, lembra que ele não perdia a oportunidade de narrar experiências da capital. .Do artista, fica a eternização de uma figura fantástica e uma obra fantástica..

O corpo de Athos Bulcão chegou às 16h40 ao Palácio do Buriti, carregado por policiais militares. Amigos que estavam no local para prestar a última homenagem ao artista aplaudiram em sinal de adeus. O velório de Athos Bulcão entrou na noite toda. Coroas de flores de diversas autoridades, como do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, do vice-governador Paulo Octávio e do ministro interino da Cultura, Juca Ferreira, povoavam o andar térreo do Buriti. O governador José Roberto Arruda esteve no local para se despedir do artista no começo da noite e o presidente Lula enviou condolências.

Um pioneiro
Hoje, às 9h30, será celebrada uma missa de corpo presente pelo pároco da Catedral, monsenhor Marcony Ferreira. O corpo do artista sairá do Buriti às 16h e será levado ao Campo da Esperança em um carro aberto do Corpo de Bombeiros. A pedido do artista, seu corpo será sepultado na Ala dos Pioneiros. No caminho para o cemitério, passará pela W3 Sul, pela qual Athos tinha um carinho especial. Durante sua vida, ele morou duas vezes na avenida e costumava passear pelo local. Era na antiga papelaria ABC, que ficava na W3, que ele comprava as tintas com as quais pintava.

O artista plástico nasceu no Rio de Janeiro em 2 de julho de 1918, mas dedicou mais da metade de sua vida à Brasília. Ex-estudante de medicina, abandonou a faculdade para seguir a carreira artística. Chegou à capital em 1958, a convite de Oscar Niemeyer, encantou-se pela paisagem e pelo céu do Planalto Central e nunca mais foi embora. No próximo dia 18, ele completaria 50 anos como morador da capital. Atualmente, morava em um apartamento no Bloco G da 315 Sul. Athos nunca se casou e não teve filhos. Ficou órfão aos 4 anos e foi criado pelas irmãs Mariazinha e Dalila. Ambas já morreram, assim como o mais velho dos irmãos, Jaime.

Último representante do movimento modernista brasileiro, Athos Bulcão deixa com sua ausência um vazio na cidade e também um dos mais expressivos acervos de artes plásticas do país, em seus mais variados gêneros . da escultura à pintura, de painéis de azulejos a estruturas de madeira. Tudo isso pode ser visto por toda parte da capital. Brasília é uma cidade privilegiada; é a eterna galeria de Athos. Grande parte de tudo o que ele produziu nos últimos 50 anos está presente no cotidiano do brasiliense: na escola, na igreja, nos muros da cidade, no edifício residencial, nos prédios públicos ou no parque.

O dia do adeus
9h30 . Missa de corpo presente, no saguão do Palácio do Buriti. Monsenhor Marconi, pároco da Catedral, celebrará a cerimônia

16h . Fim do velório e início do cortejo. O corpo de Athos Bulcão será levado do Palácio do Buriti ao Cemitério Campo da Esperança em carro aberto do Corpo de Bombeiros. O veículo percorrerá a W3 Sul

17h . Horário previsto para o sepultamento