O tom da despedida

Silencioso, discreto, colorido: o enterro de Athos bulcão, no fim da tarde de ontem, foi coerente com a trajetória profissional e pessoal do artista

Carlos Marcelo
Da equipe do Correio

Iano Andrade/CB/D.A Press
O caixão do artista foi conduzido até o jazigo pela escolta fúnebre do Regimento da Polícia Montada

Daniel Ferreira/CB/D.A Press
Bombeiros levaram o corpo ao cemitério

Iano Andrade/CB/D.A Press
Menos de 100 pessoas acompanharam o enterro
 
Faltavam 10 minutos para as cinco da tarde de mais um dia quente e seco de agosto quando choveu em Brasília. Lançadas de helicóptero, pétalas de rosas vermelhas caíram do céu azul em cima do toldo verde do jazigo reservado ao mestre da cor. Em trajes imponentes, casacas azuis e penachos vermelhos, a escolta fúnebre formada por nove policiais retirou o esquife do caminhão e o conduziu, em passos lentos e ritmados, até o local do sepultamento. Menos de 100 pessoas formaram o cortejo. Assim foi o enterro de Athos Bulcão na cidade que ele escolheu para viver e morrer: silencioso, colorido, discreto.

A toque de caixa, o meio-fio do Setor A da quadra 705 do Campo da Esperança ganhou tonalidade branca adicional para a cerimônia. José Luiz dos Santos, 20 anos, ainda pintava de cal o acostamento quando o carro oficial do Corpo de Bombeiros chegou à Ala dos Pioneiros. .Eu já ouvi falar dele, era um artista, né?., arriscou o funcionário. Responsável pelo comando da escolta, o tenente Jadir da Silva se dizia .honrado. pela missão de comandar os oito integrantes do Regimento de Polícia Montada na cerimônia: .Ele é um pioneiro, li numa reportagem que ele ajudou a fazer a Igrejinha, a espalhar beleza pelo DF.. O artista morreu na manhã de quinta-feira, aos 90 anos, devido a complicações do mal de Parkinson.

A escolta militar foi seguida até o jazigo por familiares, ex-alunos, artistas, funcionários da Fundação Athos Bulcão e antigos colegas da Universidade de Brasília. .Ainda não caiu a ficha. Não sei como será na segunda-feira quando percebermos que viramos uma fundação de memória., afirma Glauber Coradesqui, coordenador de Pesquisa e Projetos da Fundação Athos Bulcão. De branco, a secretária-executiva da entidade, Valéria Cabral, também se emocionou durante a cerimônia.

Ao ver o caixão descer, pouco depois das 17h, um ex-aluno deixou escapar: .Nosso mestre está indo embora.., emocionou-se Luiz Henrique Duarte, ao lado do amigo Aleixo Furtado. Estudantes da UnB no início dos anos 1960, eles trabalharam com Athos no Teatro Nacional e nos azulejos do Mercado das Flores, ao lado do cemitério. .É um prazer único ter a vida profissional ligada à do seu professor., conta Duarte, revelando que Athos, pela postura reservada e as palavras proferidas em tom baixo, era conhecido na UnB como .Monsenhor.. .Ele dizia que a gente ia muito ao banheiro durante a aula, perdia o tempo de prestar atenção nas cores., lembra Aleixo.

.Athos nunca foi professoral: adorava conversar sobre cinema, sua grande paixão. Nunca mais vivi encontros tão bacanas quanto os que tive nas aulas dele., revela outro ex-aluno, o escultor Miguel Simão. .Vê-lo trabalhar era um aprendizado, era o homem que mais entendia de uso da cor que eu conheci., destaca o gravador Luiz Gallina, que fez a arte-final de muitos azulejos de Athos e definiu o mestre como .sofisticado e silencioso.. Outros artistas plásticos, como Evandro Salles e Omar Franco, também estiveram no local.

Máquina fotográfica na mão, o escritor e psicanalista Ézio Flávio Bazzo confessou .especial interesse. em testemunhar o ritual preparado para a despedida de um dos criadores da identidade visual de Brasília. .Eu não o via pela cidade, a cidade não o conhecia. Era um homem invisível. Por que não era homenageado todo ano, e não apenas no fim da vida?., questionou, apostando no .início do resgate. com a .apoteose. do enterro.

A expectativa de Bazzo se frustrou. A cerimônia não teve nada de apoteótica: simples e rápida, durou menos de 40 minutos. Ao final, muitos aplausos. E, novamente, o silêncio. Em cima do caixão, a bandeira do Brasil e também a do DF: branca, quadrado verde-amarelo no meio . como um azulejo do artista. Às 17h30, quando terminou o enterro de Athos Bulcão, o sol se escondeu atrás das nuvens e o céu de Brasília ficou menos azul.

Eternos laços de amizade

Lívia Nascimento
Da Equipe do Correio
Daniel Ferreira/CB/D.A Press
Víctor Aquino chora a perda do .vovô Athos.
 

Athos Bulcão não teve filhos biológicos, mas criou com Darlon de Aquino, 31 anos, uma ligação afetiva mais forte do que muitos laços de sangue. Durante 13 anos, Darlon se manteve ao lado do artista plástico como uma espécie de secretário particular, que resolvia todas as questões administrativas e pessoais do mestre. O afeto entre os dois foi transferido para o filho de Darlon, Víctor Aquino, 7, que chamava Athos de avô. Ontem, como toda criança em uma situação de tristeza, o menino tentou achar consolo no colo da mãe, que procurava acalmá-lo dizendo: .O vovô vai ficar bem, não se preocupe..

A ligação entre o mestre e o auxiliar começou por acaso. Um tio taxista de Darlon apresentou o sobrinho ao artista, que precisava de alguém que servisse de motorista e se encarregasse de outras atividades do dia-a-dia. .O professor Athos não dirigia mais e meu tio ficava muito tempo à disposição dele. Então, ele pensou que poderia ser uma oportunidade para mim., lembrou Darlon. Com o tempo, a relação patrão/empregado foi substituída por um carinho e admiração inabaláveis. .Ele não era mais o meu patrão. Era como um pai., disse o rapaz.

Quando Darlon se tornou pai, Athos fez questão de comemorar com arte a chegada do .neto.. Inicialmente, fazia desenhos mensais para Víctor . era costume de Athos demonstrar o amor que sentia pelas pessoas por meio de suas obras. Os presentes continuaram até os três anos do menino, antes da doença do mestre avançar. Os desenhos ilustram hoje as paredes do quarto do garoto.

Além de Darlon, Athos Bulcão tinha outro anjo da guarda. Ela responde pelo nome de Cândida Xavier, 78 anos, 34 deles dedicados ao mosaicista. Durante a despedida, Cândida era uma das pessoas mais abaladas. .A dor que estou sentindo é indescritível. Perdi um amigo, um pai, um irmão. Perdi um companheiro., resumiu.

Durante todo o velório, apesar do cansaço e do abatimento, Cândida permaneceu em pé ao lado do caixão com o corpo do amigo de tantos anos. De tempos em tempos, fazia um carinho e ajeitava a boina que cobria a cabeça do professor, tentando estender ao máximo os últimos momentos de convívio.


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