VALDENI MARTINS DE BRITO, O SABONETE, tem 69 anos, é empresário, dono de uma retífica de motores. Nasceu em Quiratinga (MT), vive em Brasília desde 1960. É casado, tem quatro filhos e cinco netos. Mora no Gama
“Minha avó era índia, meu avô africano e meus pais, baianos. Somos nove irmãos ao todo. Tinha 18 anos quando vim para Brasília. Era aquela animação, aqui dava muito emprego. Na minha cidade havia uma serraria e por eles passaram os caminhões cara-chata que vinham trazer madeira para a nova capital. Um dia um senhor falou pra mim: ‘Rapaz, vamos para Brasília. Lá está um movimento muito bonito e você vai se desenvolver mais nas suas atividades’. Eu já mexia com mecânica, mas era pouquinha coisa. Não havia mais do que cinco carros na cidade. Tinha interesse em vir para a cidade grande, queria aprender. Cheguei aqui em 1960 naquela empolgação. Eu estava com 18 anos e meu primo me disse que se eu fosse pra GEB (Guarda Especial de Brasília) era a mesma coisa que servir o Exército. Fiquei lá um ano, sem salário, porque eles davam só uma gratificação. Quando dei fé, estava na polícia. ‘Ah, isso aqui não é pra mim, não’. Aí esse mesmo primo me arrumou para trabalhar numa representante da Chevrolet.
Fui desenvolvendo, desenvolvendo até que fui a São Paulo fazer curso pela Chevrolet. Aí apareceu o Sabonete. O curso era de setenta e poucas horas de trabalho. No final, a Ângela Maria veio cantar para o pessoal. Na época, ela era tudo. Terminamos o curso pouca hora antes do show. Todo mundo tinha de correr para tomar banho. Quando cheguei no meu armário, cadê o sabonete? Tinha sumido. Quando soube quem havia pego, xinguei a mãe do cara e ele veio de lá igual a uma fera. Nos agarramos em cima de um andaime e caímos do segundo andar. Batemos lá no chão e foi aquela bagunça. A turma não apartava. Ficava era batendo palmas.
Até hoje eu tomo três banhos por dia, senão mais. Tomo banho para vir para o serviço, meio-dia eu tomo banho, a noite eu tomo banho novamente e se suou o corpo eu estou tomando banho. Não aguento ficar com o corpo pregando. Naquela época eu gostava do sabonete Phebo, ela o que mandava.Quando voltei para Brasília, quem estava no curso comigo passou a me chamar de Sabonete. Não gostei, comecei a brigar e acabou que o danado do Sabonete não saiu mais. A DKV tinha me convidado para trabalhar pelo dobro do salário. Fui. Fiquei seis anos nessa firma e resolvi trabalhar por conta própria.
Vim para o Núcleo Bandeirante e me instalei na BR [060]. Coloquei o nome lá: Oficina de DKV. Passei uns três meses sem nenhum cliente. Aí um motorista de praça meu amigo viu aquilo, fez uma placa e botou: Oficina do Sabonete. E aqui estou eu. Naquela época, o pessoal que vinha do Rio de Janeiro, já vinha recomendado. Eu fazia a revisão dos carros para viagem e fui ganhando a praça.
Bati em muito garoto e apanhei muito também por causa do preconceito. Uma vez eu dei uma pedrada na testa de um garoto galego que rachou a testa dele. O cara desfazia da minha cor, eu apelava; desfazia da cor da minha mãe, eu apelava. Briguei muito. Me chamavam de pé de macaco, neguinho, prego, tição. Aí eu explodia, batia, apanhava e quando chegava em casa apanhava de novo porque minha mãe não queria que eu reagisse. Sorte minha é que graças a Deus nunca aconteceu nada grave. Mas foi por pouco. As pessoas até hoje dizem que não existe preconceito, mas há sim, não tem jeito.
Aqui em Brasília, tive que aprender artes marciais para tirar um pouco daquela raiva..Com as artes marciais, aprendi a respeitar o ser humano porque ele é muito frágil. Hoje eu sei que se for revidar eu vou ser mais ignorante do que o cara.. O que eu valorizo muito hoje é eu chegar, comprar e pagar. Não quero nem saber se eu sou preto, entro em qualquer lugar e não estou nem aí. Estou comprando e pagando. Se você é profissional, tem saúde e tem dinheiro, você é bonito. É que manda.E eu gosto de andar de terno. Quando eu tinha lambreta só andava de terno. Fiz até um crediário na Bibabô — lembra da Bibabô?* — só para comprar terno. Naquela época, negro gostava muito de terno de linho, terno claro e minha mãe tinha o capricho de engomar o bicho, chega ele ficava em pé.Minha mãe sempre foi do lar e meu pai mexia com fazenda no Mato Grosso. Trouxe todos os meus parentes para Brasília. Ia trazendo, ia trazendo. Minhas irmãs são todas funcionárias públicas. Eu mudei a vida de todos eles. Meus quatro filhos trabalham comigo aqui [na Retífica Sabonete, em Taguatinga].
Não acho que deva existir esse negócio de cota para negro.Se somos dez pessoas brancas e dez pessoas negros, aquele que passar no concurso entra. Porque esse negócio de que o negro não tem acesso à escola acabou. Se você é uma pessoa dedicada e gosta de trabalhar, as portas estão abertas para qualquer um.Hoje, se a pessoa me chamar de negro, não está me ofendendo, não. Agora, se camarada chegar na minha oficina e disser ‘isso é serviço de preto’, ele leva uma bolacha na hora. Mas se chegar ‘ô, negão’, isso para mim é carinho, mas se chegar porque aqui na minha oficina se chegar um camarada e dizer assim isso aqui é serviço de preto ele leva uma bolacha na hora, leva uma porrada seja ele quem for. Já fiz isso muitas vezes, nunca fui preso porque o delegado me chamava, eu ia lá explicava tudo pra ele e ele me mandava embora.
Dizem que o negro é o primeiro racista, mas não é não. É que ele é tão pisado que acaba ficando assim [agressivo]. Outra coisa que eu fico doente é de ver a parte negra na marginalidade, fumando droga. Se eu pudesse não deixava. O cara vai sendo pisado, pisado, pisado. Se você não tiver um QI elevado, acaba caindo naquilo. As crianças ficam sozinhas, a mãe trabalha, o pai trabalha, então ele é pisado e não conta para a família e acaba reagindo.Uma coisa que eu detesto é o cara falar para mim que sou preto da alma branca. Eu respondo na cara: ‘Você sabe a cor da tua alma?
Uma vez fui convidado por um colega branco para uma festinha. Cheguei lá e ele foi me apresentar para os amigos: “Esse aqui é o Sabonete, é dono da retífica e mora aqui não sei aonde e tal.... Quando ele terminou, eu falei: ‘Faz um favor para mim. Você fala que eu sou o Sabonete, mas não diz o que eu tenho para me valorizar não. Esquece dos meus objetos, se o cara quiser me receber na festa dele, bem, se não quiser, que ele vá pra merda. Eu fico com o coração queimado.Com esse negócio de meu pai ser negro, ele dizia sempre pra mim: ‘Meu filho, faz certo porque a sociedade não aceita o preto de jeito nenhum. Você tem que ser honesto para vencer na vida.
Vou fazer 70 anos e não me sinto velho. O fôlego é o mesmo. A única coisa que me levanta a pressão é quando estou sem dinheiro. Quando estou com dinheiro, a pressão fica uma maravilha [risos]. Chego na oficina às seis da manhã, almoço aqui e mesmo e só vou para casa depois que todo mundo vai embora. Se eu ficar em casa, eu morro.
* Bibabô – Uma das primeiras lojas de departamento de Brasília. Ficava na W3 Sul._